Os quatro irmãos plantonistas

Asenhora que arrasta os chinelos pela casa, avançando em centímetros, um pé mal e mal se distanciando do outro, a mão buscando apoio na parede ou nos móveis, é a mesma que, não faz muito, corria o mundo em excursões aventureiras. Leonor Amália Turcati foi até a Rússia, visitou as pirâmides do Egito, encantou-se com a cordilheira chilena, subiu aos céus da Capadócia, na Turquia, em um balão – e hoje, aos 91 anos, precisa contar sempre com um observador atento, que lhe garanta suporte extra caso se desequilibre. Entre a cozinha e o pátio, um trajeto de poucos metros, ela precisa fazer uma pausa, sentando-se para restabelecer as forças. Para além do portão, em uma voltinha até o armazém, tem de recorrer à cadeira de rodas.

Um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há três anos interrompeu a rotina de turista tardia, iniciada com a viuvez, e provocou um rearranjo de funções e expectativas entre ela e os sete filhos. Antes de adoecer, a aposentada era responsável por tudo: cozinhava, lidava na horta, passava roupa, limpava a residência de três quartos e dois banheiros no Jardim Itu-Sabará, zona norte de Porto Alegre. Já era quase octogenária quando os vizinhos ainda a avistavam trepando em uma goiabeira, atrás de frutas.

– A velha era um touro – define o filho Volnei, economiário de 58 anos.

Conhecido como derrame, o AVC resulta da insuficiência de fluxo sanguíneo em determinada área do cérebro, provocando a morte de neurônios. Predomina entre a população mais idosa e tem potencial variável de dano: desde um impacto pequeno até sequelas graves, podendo incapacitar totalmente ou até levar à morte. O fato de Leonor ser bem ativa contribuiu para o seu restabelecimento, ainda que os movimentos do lado direito do corpo tenham ficado bastante comprometidos. Por um tempo, ela foi cuidada por uma sobrinha. Os problemas se acumulavam: diabetes, pressão alta, asma, colesterol elevado, refluxo. Os filhos cogitaram a contratação de cuidadores profissionais ou a internação em uma casa geriátrica, mas os valores os fizeram descartar as duas possibilidades. Tomaram então a decisão que impactaria a vida pessoal de todos: seriam eles próprios os cuidadores, deslocando-se até a casa da mãe, em um esquema de rodízio envolvendo quatro deles. Cecília, 51 anos, e Maria Lourdes, 66, já aposentadas, revezam-se de segunda a sexta-feira, enquanto a costureira Helena, 64, e Volnei cumprem os finais de semana, intercalados. Leonor nunca está sozinha.

O “plantonista” da vez assume tudo, do despertar ao anoitecer: banho, refeições, medicamentos. O trabalho invade a madrugada – às 2h30min, há uma troca de fraldas. Com exceção de Helena, que se sente mais tranquila dividindo a cama com a mãe, os demais se instalam nos quartos de hóspedes. Um aplicativo de celular mantém atualizada a lista do que é preciso comprar no supermercado. Em uma agenda de papel, registra-se tudo: medições de pressão e glicose, quantidade de água ingerida, estado de ânimo, andamento das sessões com fisioterapeuta e fonoaudióloga, evolução de um resfriado ou indisposição. Com o intuito de deixar os irmãos inteiramente a par de tudo, as anotações vão além.

 

Helena (na foto) e Volnei intercalam os finais de semana para cuidar da mãe, Leonor, que sofreu um AVC. Maria Lourdes e Cecília revezam-se de segunda a sexta

Helena

Cecília

Maria Lourdes (à esquerda)

Volnei

Há espaço para manifestar dúvidas (“Perguntar para a fono: pode comer pipoca?”) e estranhezas (“Acordada, diz que viu a avó sorrindo para ela. Delírio?”), repreender algum deslize (“Atenção!!! Encontrei embutidos (linguiça) na lentilha!!!! Eliminar do cardápio”), alertar sobre contratempos domésticos (“Um rato morreu, mas tem mais”) e compartilhar os singelos deleites de um domingo (“Putz! Dormimos até 8h30min”). A preocupação com qualquer alteração é permanente: “pernas mais fracas”, “de manhã não tinha vontade de levantar”, lê-se no diário.

Entre os maiores desafios do quarteto de cuidadores está o de entreter a mãe nos dias carentes de atrativos. Leonor repousa em uma poltrona na cozinha durante grande parte do tempo. Alega que a televisão lhe dá dores de cabeça, e o rádio não a interessa. Visitas de parentes ou passeios de carro também são descritos na agenda, compondo um acervo de possíveis assuntos que abastecem o cuidador seguinte na hora de puxar conversa com a idosa. Se está bem disposta, ela aceita os convites para dobrar roupas, catar feijão ou modelar nhoques de batata doce. Um jogo de escova no baralho é dos poucos passatempos que a empolga. Apesar de lúcida, Leonor tem as possibilidades de interação limitadas pela surdez, o que a deixa um tanto alheia ao que se desenrola ao redor.

– Ela parece que se ausenta – constata Cecília.

Quando instigada, a matriarca gosta de compartilhar lembranças da vida no interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, época em que o banho dependia de uma lata furada simulando um chuveiro, e picadas de escorpião eram aliviadas com goles de leite e um mergulho da mão ferida em um copo de cachaça. Como agricultora, plantou milho, feijão, arroz, moranga e aipim. Ela confidencia que hoje tem saudade das viagens, de ver o mundo de cima, fazer jus à fama de passeadeira, mexer na terra. Lamenta se sentir perdida e desconectada dos afazeres dentro do próprio lar, dependendo de alguém para tudo.

– Eu estava sempre funcionando – recorda. – Não sou mais capaz nem de abaixar as calças. Não sei mais onde estão as minhas coisas, não sou mais dona de casa – queixa-se.

Temendo quedas e fraturas, os filhos acompanham a idosa em todos os deslocamentos. Apesar da forte marcação, escapulidas acontecem. O combinado é soprar o apito amarrado junto à cabeceira da cama quando desejar levantar. Para não perturbar o sono da prole, ela já tentou driblar a regra mais de uma vez. Um dia, da sala, ao ouvir o barulho dos chinelos da mãe, Cecília correu para interceptá-la a caminho do banheiro.

– Mas como é que você sentiu o cheiro? – surpreendeu-se Leonor.

Em outra oportunidade, dispensou os sapatos para tentar ser mais silenciosa.

– Não faz isso, mãe! A gente está aqui para te ajudar. Prefiro te trocar a fralda do que levar ao médico – pede Volnei a cada tentativa.

 

Leonor por vezes manifesta constrangimento com tanto desvelo. Imagina ser um estorvo para os filhos, que se distanciam das famílias para estar com ela. Desdobra-se em desculpas, pergunta se está incomodando.

– Você acha pesado cuidar de mim? – questionou um dia a Lourdes.

No trato com a higiene íntima, coube a Volnei, por ser homem, o maior desafio. No banheiro, devido à fraqueza e à falta de flexibilidade da aposentada, ele precisa ajudá-la a se despir para depois ensaboá-la com uma esponja. Para facilitar a tarefa, tenta fazer uma dissociação: imagina outra pessoa no lugar da mãe nua.

– A principal barreira a romper foi o toque – lembra o filho. – Depois você encara como se estivesse lavando o rosto.

O constrangimento inicial já se diluiu, mas ainda é nos “turnos” sob responsabilidade de Volnei que Leonor tenta fugir do banho com mais frequência. Ela minimiza o embaraço.

– Eu conheci ele antes de ele me conhecer – explica, sorrindo. E acrescenta: – Não é porque é meu filho, mas é muito querido.

Nos cinco meses desde que se comprometeram com a assistência integral, os irmãos fazem um balanço positivo: estão oferecendo muito mais do que estaria disponível caso Leonor estivesse a cargo de outros cuidadores. Ela permanece em casa, com suas coisas, entre seus afetos. Na convivência intensa, Cecília, satisfeita, comprova que, apesar de todas as restrições, a mãe mantém, em maior ou menor medida, a doçura e o bom humor.

– Tive sempre na minha cabeça que ia cuidar dela – revela a caçula. – Vejo ela me seguindo com o olhar, como criança pequena faz com a mãe, nunca perdendo ela de vista.

Numa manhã recente, quando estava envolvida com o preparo do almoço, Cecília percebeu, uma vez mais, que a mãe, sentada na poltrona costumeira, a observava trabalhando na cozinha.

– Faz tempo que eu estou te cuidando – anunciou Leonor.

Antevendo uma possível interpretação equivocada, pediu então que a filha não ficasse braba com a observação que faria a seguir:

– Te olhando eu enxergo a minha mãe.

O apito para Leonor chamar quando quer levantar, o medidor de pressão e um dos cadernos de anotações dos filhos

Cecília, a caçula, no quarto da mãe

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