Apesar do conflito histórico que recrudesceu na última década, crianças israelenses e  palestinas guardam semelhanças e  esperanças de um futuro sem medos

Texto E IMAGENS

Letícia Duarte

leticia.duarte@zerohora.com.br

 

EdiçÃO

Ticiano Osório

DESIGN

Diogo Perin

Aguerra pode se apresentar com punhaladas numa esquina ou bombardeios de caças F-16, mas também com sentenças disparadas

pela boca de crianças:

– A gente não pode confiar neles.

– Eles invadiram nossa terra.

– Eles são os terroristas, não nós.

– Sem justiça, não vai ter paz.

Em junho de 2016, Zero Hora percorreu os dois lados do muro que separa Israel e Palestina para entender como vivem e o que pensam as mais novas gerações desta terra cindida por uma disputa de raízes milenares, num solo sagrado para fiéis de três religiões – cristãos, judeus e muçulmanos. Nesta reportagem, quem vai contar a sua versão da história são seis moradores de 10 anos – três israelenses e três palestinos, que vivem em algumas das fronteiras mais tensas da região. A faixa etária não é aleatória: foram escolhidos porque nasceram justamente no período em que o conflito recrudesceu. Foi em 2006 que o grupo islamista Hamas chegou ao poder nas eleições parlamentares da Palestina, o que aumentou a tensão no Oriente Médio. Enquanto uns deles engatinhavam e outros estavam prestes a nascer, em junho daquele ano, uma nova escalada de batalhas foi deflagrada – com a Operação Chuvas de Verão, quando o exército de Israel invadiu a Faixa de Gaza, em reação ao sequestro de um soldado israelense e ao lançamento de foguetes pelo Hamas. Nenhum deles conhece paz; no máximo, armistício. Em sua primeira década de vida, os seis entrevistados já testemunharam mais três conflagrações – em 2008, 2012 e 2014.

De cada lado do muro, são ensinadas diferentes verdades, em diferentes idiomas. Cada um invoca a sua, em hebraico ou árabe, com a bênção de sua própria religião. A mesma data, 14 maio de 1948, que marcou a criação do Estado de Israel, é o dia da Independência para os judeus israelenses – que enfim ganhou uma terra, depois dos horrores do Holocausto, que matou 6 milhões de pessoas – e, para os árabes, a “grande catástrofe”, quando

750 mil palestinos fugiram para países vizinhos ou foram expulsos por tropas israelenses. Se, para Israel, o bloqueio econômico e territorial imposto a Gaza é uma medida necessária para evitar ataques terroristas, entre a população palestina é visto como uma punição coletiva que condena 1,8 milhão de pessoas à miséria e ao desemprego. Enquanto os palestinos consideram a ocupação de seus territórios por Israel uma afronta que dificulta a paz, os colonos judeus que vivem na Cisjordânia acreditam que têm o direito de viver ali porque aquela terra lhes foi prometida por Deus, como conta o Antigo Testamento.

As interpretações cruzadas atravessam o cotidiano de meninos e meninas, que aprendem a reproduzi-las. Mesmo sem diálogo entre os dois lados, as crianças entrevistadas guardam semelhanças que o muro não separa. Quatro delas têm como ídolos jogadores do futebol espanhol que falam português, Neymar ou Cristiano Ronaldo. Todas vivem com medo – que pode aparecer como pesadelos noturnos, xixi na cama ou dificuldade de concentração na escola. Todas se sentem vítimas – e acham que o terrorista mora do outro lado. Ainda assim, a maioria acredita que é possível construir um futuro diferente. E que, um dia, israelenses e palestinos podem se entender. Como e quando, não arriscam dizer.

* No final de maio, a repórter Letícia Duarte viajou a Israel para participar do curso Os Meios de Comunicação para a Paz em Zonas de Conflito, financiado pelo governo israelense e desenvolvido pelo Instituto Internacional Histadrut. Após os 18 dias de curso, Zero Hora prolongou por 10 dias sua estada, para a realização desta reportagem.

OS PERSONAGENS

Na fronteira de Gaza, ZH entrevistou os meninos Salleh, palestino, e Yoav, israelense. Em Hebron, o palestino Marwan e a israelense Tohar. Na comunidade palestina de Nabi Saleh, falou com Janna, e na colônia judaica de Psagot, com Elyashiv.

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Faixa de Gaza

Hebron

Ramallah

AS REGIÕES

FAIXA DE GAZA

Com um território 26% menor do que o de Porto Alegre, a Faixa de Gaza tem uma população 22% maior. São 1,8 milhão de palestinos vivendo numa tira estreita de terra, que soma 365 quilômetros quadrados. A fronteira é alvo de disputas históricas, que se agravaram na última década, a partir da chegada do Hamas ao poder. O grupo fundamentalista islâmico não reconhece a existência de Israel e faz declarações públicas dizendo que quer destruí-lo. Uma das respostas do país vizinho foi o bloqueio a Gaza, que desde 2007 mantém portos e aeroportos fechados.

Apenas na última guerra entre os dois lados, em 2014, morreram 2,2 mil palestinos e 73 israelenses (sendo 67 soldados), segundo o relatório Vidas Fragmentadas, das Nações Unidas. Ao mesmo tempo em que palestinos lamentam o confronto desigual, Israel argumenta que milhares de vidas poderiam ter sido poupadas se o Hamas não utilizasse pontos civis, como escolas e hospitais, para disparar seus foguetes, transformando-os em alvos militares.

HEBRON

Maior cidade da Cisjordânia, com 215 mil habitantes, Hebron é uma terra considerada sagrada tanto para judeus quanto para muçulmanos. Ali fica o Túmulo dos Patriarcas, onde, segundo a tradição, estão enterrados Abraão, Isaac e Jacó. É, também, um dos pontos de maior tensão entre árabes e israelenses. Enquanto os demais assentamentos judeus espalhados pelo território palestino estão localizados em pontos afastados dos grandes centros ou sobre colinas, em Hebron a colônia fica no coração da cidade velha.

RAMALLAH E SUAS CERCANIAS

A 15 minutos de Jerusalém, fica Ramallah, que na prática funciona como a sede da Autoridade Nacional Palestina. Seus entornos, como a comunidade de Nabi Saleh, são foco de tensão permanente. Embora a Cisjordânia esteja sob controle dos palestinos, postos militares controlados por soldados israelenses vigiam os acessos, e a passagem só é liberada com autorização especial, nem sempre concedida. Cerca de 570 mil israelenses vivem em colônias na região, como Psagot, e no início de julho o governo aprovou a construção de 560 novas casas.