Na estrada com

Os Reis do Baile

Publicado em 11 de junho de 2016

Tradição do interior gaúcho, os bailões são ponto de encontro e de celebração de um gênero musical e de uma cena que resiste a ondas como a da Tchê Music e a do sertanejo universitário. ZH pegou o ônibus com a banda Os Atuais, precursora do gênero com quase 50 anos de carreira, para acompanhá-la em um agitado fim de semana de cinco shows pelo Estado.

texto

William Mansque

william.rodrigues@zerohora.com.br

IMAGENS

André Ávila

andre.avila@zerohora.com.br

Edição

Carlos André Moreira

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Diogo Perin

Atuais há meio século

Gerson Hanel define assim a sua rotina de trabalho:

– Quando saímos de casa, vamos preparados para rodar 500 quilômetros.

Parece papo de caminhoneiro ou motorista de ônibus, mas são os finais de semana da banda Os Atuais. Natural de Novo Hamburgo, Hanel toca trompete e trombone no grupo desde 2005, além de assumir o vocal em algumas canções.

Há 48 anos na estrada, a banda costuma se apresentar no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, nas colônias gaúchas do Centro-Oeste e nas cidades fronteiriças da Argentina com o Brasil. Fundada em 5 de janeiro de 1968, em Tucunduva, noroeste gaúcho, a banda já teve dezenas de integrantes em sua trajetória e calcula já ter feito 7 mil shows, com 43 discos e seis DVDs gravados. Em suas primeiras apresentações, tocava versões de sucessos da Jovem Guarda – de Renato e seus Blue Caps, The Fevers e Os Incríveis. Porém, diferentemente dos outros conjuntos existentes na região que só se dedicavam à música instrumental, eles cantavam. Ao menos tentavam. É que, no começo, Os Atuais não tinham um microfone.

– A gente cantava no peito, com duas ou mais pessoas para reforçar os vocais – lembra Ivar David Costa, integrante desde a formação original, mas que deixou os palcos no começo dos anos 2000 para cuidar da administração da banda.

As primeiras canções próprias tinham como base o ritmo das marchas das bandinhas alemãs. Ao longo do tempo, o som do grupo recebeu influências de outros gêneros.

– Misturamos o estilo instrumental germânico de bandinha com a katchaka (ritmo popular disseminado na Argentina e no Paraguai) – descreve o vocalista Acilino Alves da Silva, o Pino.

 

O naipe de sopros é característico das bandas de bailões. N'Os Atuais, está a cargo de Micael Weiss (E) e Gerson Hanel

Desde 1971 n’Os Atuais, Pino é o integrante mais antigo da atual formação que costuma subir aos palcos. Além dele e de Hanel, hoje há ainda Reny de Oliveira (guitarra e vocal), Rodrigo Baier (teclados, violão e vocal), Micael Weiss (trompete, saxofone, percussão e vocal), Diego da Silva (bateria) e Ivair Luiz Costa (baixo, guitarra e vocal) – este último o filho de Ivar. Eles são os responsáveis por manter a identidade do grupo que é apontado como pioneiro dos conjuntos dos bailões – uma cena que hoje é formada por centenas de bandas, entre as quais Terceira Dimensão, Danúbio Azul, Musical JM, San Marino e Brilha Som, e emprega milhares de pessoas no Rio Grande do Sul.

Apesar da popularidade, o estilo musical dessa turma, até hoje, não tem um nome definido – banda, bandinha, bailão, bandas de baile e até bandanejo estão entre as nomenclaturas usadas informalmente para se referir ao gênero que representam.

– É o pop do sul – define João Carlos Albani, locutor da Rádio Farroupilha.

Para o apresentador do programa Sabadão Bom de Baile – que toca músicas do estilo –, no entanto, a falta de uma nomenclatura oficial dificulta a sua consolidação fora do Estado.

– Por que chamar de bandinha (no diminutivo)? Há bandas com aparelhagem fantástica e estrutura, com carretas e ônibus de primeira linha, que fazem muitos shows fora do Brasil, chegando a gravar DVD na Argentina (caso da San Marino). Falta apenas uma coisa para que o estilo se consolide: um nome – acredita.

Vocalista da Banda Porto, Xandi Gonçalves corrobora:

– Ajudaria muito a criação de uma marca para o gênero. Um trabalho de marketing como aquele feito com a Tchê Music, o Calipso e o próprio sertanejo universitário seria uma ótima estratégia para abrir fronteiras.

Os Atuais, que quase meio século depois seguem sediados em Tucunduva, fazem shows todos os finais de semana. Quer dizer, quase todos. Desde a sua fundação, a banda tira férias durante a Quaresma – o período de 40 dias que antecede a Páscoa.

– Quando começamos, ninguém promovia baile no período. Já que era um costume antigo, ficou a tradição – explica Ivar.

ZH acompanhou Os Atuais em cinco shows, nos municípios de Santa Maria do Herval, Novo Hamburgo, Barão, Santa Cruz do Sul e Santa Maria, entre os dias 14 e 15 de maio. A comprovar a declaração de Gerson Hanel lá no início do texto, nessas 48 horas, a reportagem rodou 405 quilômetros.

OS FÃS-CLUBES NO "BARCO DO AMOR”

Os Atuais em show na 18ª Kartoffelfest, a festa da batata, em Santa Maria do Herval

Sábado, 17h - Santa Maria do Herval

“No azul do céu, vejo o sol brilhar

pensamentos vão pro ar

só você, só você que eu sei amar

ao seu lado eu quero estar”

 

Este é o refrão de Barco do amor, canção que costuma abrir os shows d’Os Atuais. A música dá nome ao álbum do grupo lançado em 1983, que vendeu mais de 200 mil cópias e rendeu um disco de ouro entregue no programa Clube do Bolinha, da TV Bandeirantes. Barco do amor é uma versão de Farewell to Carlingford, composta pelo irlandês Tommy Makem – para a qual os integrantes da banda gaúcha compuseram versos após ouvirem a versão do trio feminino alemão A La Carte.

– Criamos uma letra com a nossa imaginação porque não entendíamos nada de inglês – lembra Ivar.

A apresentação na 18ª Kartoffelfest, a Festa da Batata de Santa Maria do Herval, ocorre em meio a uma praça de alimentação para cerca de 700 pessoas. Mesas e cadeiras rodeiam a pista de dança composta por um tablado de madeira, no qual casais executam seus passos. Os pares de dançarinos são formados por pessoas com mais de 40 anos. Dificilmente o público mais jovem se arrisca na pista – a gurizada se limita a ficar em rodinhas e balançar o corpo com um copo de cerveja à mão. É o que se vê, repetidamente, nos outros quatro shows.

Em todas as apresentações, também há sempre os fãs mais devotos, que assistem na frente do palco, cantando o repertório da banda. Na Kartoffelfest, essa turma se concentrava ao redor da mesa de som, localizada no fundo da pista de dança. Eram os integrantes do fã-clube 100% Atuais.

– Antes, eu era o primeiro a puxar a dança e o último a sair da pista – recorda Blasius Zaro, 48 anos, que veste camiseta preta do fã-clube.

Hoje, ele utiliza uma muleta para se locomover – consequência de um atropelamento sofrido em 2013.

– Fiquei 52 dias no hospital – recorda. – Os músicos da banda me ligavam para saber como eu estava. Eles tratam os fãs com muito carinho.

O fã-clube surgiu há cinco anos, quando 12 casais que frequentavam os bailes da região de São José do Hortêncio se reuniram para ver Os Atuais. Segundo Blasius, eles não perdem nenhum show no Vale do Caí e já alugaram ônibus para acompanhar o grupo.

– Nós os seguimos por tudo – resume.

Outro fã-clube, sem nome e com entre 15 a 20 integrantes, tem à frente Fábio Dahmer, 39 anos, que trabalha com serviços gerais na indústria calçadista, em Picada Café.

– Já nasci gostando d’Os Atuais – brinca. – Quando tinha dois anos, ouvia no toca-discos do meu tio. Vivia voltando a agulha para repetir as músicas deles. Me considero o fã número 1 da banda.

– Então eu sou o zero – retruca Blasius, entrando na conversa. – O zero vem antes do 1...

Mais tarde, no ônibus, Pino relata que viu Fábio emocionado durante uma música lenta:

– Ele chorava em Cinco minutos de amor. Corriam lágrimas.

José Ilario, jardineiro, saiu de Dois Irmãos para ver Os Atuais no dia do casamento do filho.

Fábio impressiona-se com a semelhança entre as vozes de Ivair e Ivar. E não é o único – Ivair diz já estar acostumado com a comparação, que desperta as memórias afetivas dos fãs mais antigos.

– Dizem que a fruta nunca cai longe do pé. Às vezes, ouço um "Ô, Ivar, tudo bem?" – diverte-se o filho de um dos mais "antigos" Atuais.

Antes de entrar para a banda do pai, Ivair integrou o Musical Carruagem (de 1989 a 1992), que foi criado como uma espécie de laboratório.

– Era uma "escolinha de futebol" d’Os Atuais – define. – Foi feita para preencher uma lacuna na formação da banda quando fosse preciso.

O Musical Carruagem conquistou espaço na cena dos bailões, mas um acidente encerrou os planos da banda em 1992: o ônibus do grupo caiu no Rio da Várzea, em Carazinho, após o estouro de um pneu, o que vitimou um membro da equipe técnica. Ivair estava no primeiro banco do veículo. Foi jogado para fora e teve uma vértebra esmagada. Até hoje faz fisioterapia para poder tocar.

– A gente fica traumatizado. Mas fazer o quê? Tem que tocar o baile – resigna-se.

Em Santa Maria do Herval, tocaram para o jardineiro José Ilario, 53 anos, que saiu de Dois Irmãos para vê-los mesmo que se atrasasse para o casamento do próprio filho:

– O casório é às 20h em Pareci Novo. O show deve terminar às 19h. Não quis perder o show.

Mais tarde, por telefone, contou ter chegado às 20h10min, com a cerimônia já em andamento.

Ivair Luiz Costa, baixista e vocalista, já se acostumou a ovuir comparações com seu pai Ivar, ex-integrante do grupo

TODO MUNDO NO BAILÃO — ATÉ O SAFADÃO

Espetáculo em Novo Hamburgo: em quase meio século, banda estima ter feito mais de 7 mil shows

Sábado, 23h - Novo Hamburgo

Pouco depois das 20h, Os Atuais já estão em Novo Hamburgo. Faltam quase três horas para o show na cidade. Alguns integrantes aproveitam para comer, outros para descansar no ônibus. Ivair assiste à série Vikings na Netflix. Gerson, Micael, Rodrigo e o motorista Naderson Saulite, o Mano, decidem ir até um xis e depois tomar um sorvete no shopping que fica nas proximidades do Clube da Dança – onde será o bailão.

O repertório, que contempla sucessos dos 48 anos de carreira, é praticamente o mesmo da apresentação anterior. Tem Fim de semana, Amada minha, A 150 por minuto, entre outras canções. Pino reveza o vocal principal com Rodrigo, Reny e Gerson. E, entre uma música e outra, atende a pedidos de selfies e autógrafos. Barco do amor tem direito a reprise – recebida com ainda mais empolgação pelo público.

São Os Reis do Baile, slogan que surgiu nos anos 1980, após a banda colocar mais público no Clube dos Artistas, em Porto Alegre, do que a dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó. Isso segundo o próprio clube, que cunhou a expressão – que logo ganhou eco e passou a ser usada em outros espaços.

Mas Os Atuais também fazem covers. Nos bailões, tocam músicas nativistas, sertanejas e até Wesley Safadão.

– No bailão, toca-se de tudo: forró, música gaúcha, baladinha, um som internacional, além do nosso estilo. Quem vai lá é para dançar e se divertir. O bailão é mais do povão, mesmo – explica Mauricio Lima, vocalista do grupo Rainha Musical e compositor de canções para diversas bandas da cena.

Lima acrescenta uma distinção em relação aos eventos de sertanejo universitário:

– O bailão abraça todo mundo. Já o sertanejo só toca as músicas do próprio gênero.

O espectro do sertanejo universitário ronda a cena. Seu avanço no Estado tirou espaço das músicas das chamadas bandinhas, especialmente nas rádios.

– O que acontece é que o Sul absorve as músicas que vêm de fora, e nossos estilos não ultrapassam nossa região – avalia Luciano Barbosa, vocalista da Banda Passarela, disco de ouro com Bar da esquina (2003), que vendeu 120 mil cópias.

Além disso, diz o locutor Cleiton Depner, sócio da revista Sulbandas, especializada no estilo, a “concorrência dos pubs também afeta”:

– Hoje, toda cidade tem um pub com DJs e shows de sertanejo universitário.

É comum, entre os frequentadores dos bailões, encontrar quem goste de uma coisa e também de outra. Como Lúcia Moraes, de 59 anos.

– De vez em quando vou nos bailões. Me atraem o respeito, o convívio e o ambiente – diz a vendedora autônoma de Novo Hamburgo.

– Pergunta para 200 pessoas se gostam d’Os Atuais. Muitas vão dizer que não, que o grupo está ultrapassado. Mas aí tu vai no show deles e, certamente, encontra essas pessoas lá – diz Andrea Becker, 43, trabalhadora da indústria calçadista de Estância Velha.

No show daquela noite, no Vale do Sinos, não há camarim para "Os Reis do Baile". Pouco antes do início da apresentação, os músicos d’Os Atuais ficam ao lado do palco, conversando com fãs e tirando fotos. Pino é o mais solicitado.

O Clube da Dança recebe entre 700 e 800 pessoas. O local tem uma grade de pouco mais de um metro que divide a pista do público que quer apenas curtir a apresentação, sem dançar. Essa turma fica na parte da frente, espécie de gargarejo, onde uma mãe e sua filha pulam e cantam Palomita blanca.

– A música d’Os Atuais bate no coração da gente. Bate, bate, bate muito – emociona-se Iracema Silva, aposentada de 59 anos que batizou a filha de Paloma por conta da música.

No gargarejo, assistindo ao show posicionada na frente de Pino, está Morgana, 33 anos, filha de Iracema. Abraçando apaixonadamente o último CD da banda, Algodão doce, ela canta boa parte do repertório do grupo.

 – Eu estou aqui por causa do Pino. Ele embalou todos os meus romances, seja os que deram certo ou não. Sempre esteve lá – emociona-se Morgana.

– Só vou ao bailão quando tem Os Atuais.

Me arrebento! – vibra a doméstica Mara Barrosa, 54 anos.

Ao fim do show, a banda partiu para o Posto Hoff, em Portão. Músicos e equipe dormem no ônibus, no estacionamento do posto, e utilizam o vestiário para tomar banho antes de começar uma nova jornada. A partida para Barão, local da próxima apresentação, está marcada para as 11h30min. O show, para as 13h30min.

É cedo. E com chuva, conforme as previsões. O que causa receio: será que o público vai comparecer?

Morgana Silva, 33 anos, assistiu pela primeira vez a um show do grupo. Segundo ela, o som d'Os Atuais embalou todos os seus romances

ENCARANDO O TEMPORAL

Apresentação em Barão: chuva não impediu a animação da plateia e a empolgação dos músicos

Domingo, 13h30min - Barão

Os Atuais almoçam em uma churrascaria à beira da estrada, em Portão. Devem estar em Barão para a 8ª Festa Colonial, evento que marca o aniversário de emancipação do município de 6 mil habitantes.

A chegada é simultânea ao início de um temporal. O motorista Mano e o empresário da banda, Jacke Tolfo, atuam como roadies (carregadores), levando os instrumentos para o palco. Sob muita chuva. A banda fica em um camarim improvisado. A maior parte do público está na praça de alimentação, almoçando.

Quando a banda sobe ao palco, há cerca de 30 pessoas na plateia. A pista de dança segue vazia. Reny tenta motivar os presentes.

– Vamos chegar mais para a frente, para ficar mais quentinhos – diz, antes que a dupla de trompetes anuncie o início de Barco do amor.

– Se não tiver um par de sopros, não é uma banda de baile – define Cleiton Depner.

Entre os músicos desses grupos, há um consenso de que a essência do gênero está nesse tipo de instrumento.

– As bandas são reconhecíveis pelos naipes de sopro, geralmente dois trompetes e saxofone, e pelo ritmo predominante de marcha. Mas não seguem uma regra de ritmo ou configuração instrumental. É um estilo eclético. E bastante alegre – resume Xandi Gonçalves, vocalista da Banda Porto.

O brega e o vanerão, tradicional ritmo das festas gauchescas, também podem fazer parte do repertório – o Musical JM é um exemplo.

– Meu timbre de voz é estilo Amado Batista – concorda seu vocalista Clayton Borges.

Disco de ouro por Amor mafioso, que contém o sucesso Pegando o ônibus (“Porto Alegre é longe/ tô pegando o ônibus para te encontrar”), o JM também faz parte do imaginário dos gaúchos por causa da sua Feliz aniversário, música repetida à exaustão pelos carros de mensagens.

Para Ivar David Costa, o pioneirismo d’Os Atuais se deu por acaso:

– Tocávamos marchinha. Quando começamos, as bandas eram instrumentais. Foi a falta de recursos técnicos que nos motivou a cantar em algumas músicas. Deu certo. E, à medida que íamos tocando, procurávamos um andamento em que as pessoas pudessem dançar. Fomos nos aperfeiçoando.

Guitarrista com deficiência visual, Santino Oliveira Ferreira foi o principal responsável por moldar o estilo d’Os Atuais. Antes de ingressar na banda, ele tinha uma escola de música em Santa Rosa e, posteriormente, em Tucunduva. Foi Santino quem compôs as primeiras canções da banda e incentivou os colegas a fazerem o mesmo.

– Ele foi o nosso pedestal. Corríamos atrás dele. Atendíamos aos seus pedidos: “O contrabaixo faz assim, a guitarra é desse jeito”. Não teríamos ido para a frente se não fosse ele – recorda Reny.

Os problemas de saúde fizeram Santino deixar a banda em 1980 – ele morreria pouco depois, vítima de infarto. Seu legado persiste a cada bailão no Interior – como o de Barão, que não demora para engrenar.

Se só um casal se atreveu a dançar no início de Barco do amor, quando a canção terminou vários casais já bailavam. O público aumenta em Amada minha, a terceira música – já se pode dizer que há mais de cem pares na pista. Em meio à plateia, estão Blasius Zaro e outros três casais do fã-clube 100% Os Atuais.

– O que a gente não faz pela banda? – indaga.

Não são os únicos que enfrentaram o temporal na estrada para ver o grupo. A secretária Vera Eckstein, 52 anos, veio de Carlos Barbosa.

– Os Atuais são a luz da minha vida – ela diz, pouco antes de ouvir o repertório mudar um tantinho, ganhando uma série de músicas de bandinhas alemãs, como Rosamunde (barril de chopp).

A chuva, trazida pelo vento, faz com que os integrantes do grupo recuem para o fundo do palco coberto. Para ficar próximo à pedaleira, o guitarrista Reny é o único a permanecer à frente, exposto ao aguaceiro.

– Foi uma batalha – descreveria, depois. – Com aquela chuva, podia dar choque.

Na mesa de som, Carlos Schmidt usou uma lona para impedir que o equipamento fosse molhado. Carlão, como é conhecido, também é o encarregado de vender CDs d’Os Atuais durante os shows. Ele é funcionário da banda há 11 anos. Não é o único, longe disso: os conjuntos dos bailões funcionam como empresas, empregando dezenas de pessoas entre músicos, técnicos, motoristas e administradores. Os Atuais, particularmente, são uma sociedade na qual cada um de seus 17 membros possui determinada porcentagem da marca.

– As bandas tiram nota e assinam carteira – resume Alessandro Turra, da Brilha Som.

Nesse mercado, há um troca-troca constante de músicos e técnicos. Tudo acontece com naturalidade, exceto quando se trata do vocalista.

– O vocalista é a identidade da banda, a sua imagem. Quando troca, parece que muda tudo – avalia Mauricio Lima, do Rainha Musical.

Nos finais de semana, o ônibus é o hotel da banda. À direita, o motorista Mano e o empresário Jacke Tolfo guardam as bagagens para a próxima jornada

DA "PALOMITA" ÀS CANÇÕES GERMÂNICAS

O bailão é democrático: diferentes estilos e idades se misturam na pista

Domingo, 18h - Santa Cruz do Sul

Após um trajeto com neblina e muitas curvas, a banda chega para o show em Santa Cruz do Sul. A apresentação é em uma quermesse da Igreja Nossa Senhora de Fátima, na comunidade de Cerro Alegre Alto. É a festa da padroeira.

O grupo desce do ônibus e vai direto para o local, um galpão com as paredes brancas. Tanto à direita quanto à esquerda do palco há duas caixas d’água elevadas ligadas a cada um dos dois banheiros. A quermesse recebe várias famílias, com crianças circulando pelo salão. Apesar do público diversificado de cerca de 800 pessoas, só os adultos na faixa dos 40 dançam na pista.

Os Atuais abrem o show com um som irregular. O vocal de Pino sai abafado e reverberando.

– A gente chega nos lugares e tem de ir ajustando o som – diz Carlão, explicando que, naquele fim de semana, por conta da natureza dos shows, a banda viajava apenas com seus instrumentos, ou seja, sem a estrutura própria de som e luz, painel de LED, caixas de som e bateria.

– Cansa mais assim, especialmente quando tocamos sem retorno – salienta o trompetista Gerson.

O vocal de Pino flui melhor na quinta música. Funcionária pública, Daisy Riss, 57 anos, aprova:

– O som d’Os Atuais é sempre bom. É diferente da bateção de hoje. É limpo.

O servente Daniel Dreissig, 26 anos, diz gostar das músicas “mais velhas” da banda.

Alice, Palomita blanca – cita. – São essas canções que marcaram os meus romances.

O MERCADO DOS BAILÕES

Locutor e sócio da revista Sulbandas, especializada no estilo, Cleiton Depner estima que existam cerca de 750 bandas no Estado. Cada banda emprega, em média, 15 pessoas. Pode-se calcular, a partir daí, que mais de 10 mil empregos diretos, em grande parte formais, são mantidos pela cena dos bailões. E há, ainda, os donos dos espaços que recebem as apresentações, os vendedores de bebidas, alimentos, equipamentos sonoros...

 

OUTRAS BANDAS

A San Marino já gravou na Argentina. O Musical JM, a Banda Paralela e o Rainha Musical, entre outros, já ganharam disco de ouro. Grupos como Terceira Dimensão, Danúbio Azul, Brilha Som, Corpo e Alma, Portal da Serra, Banda Porto e Musical San Francisco também computam em dezenas, até centenas de milhares os seus discos vendidos. Entre as mais populares, ainda vale citar Rogério Magrão & Banda e Flávio Dalcin e Banda Ouro.

 

ONDE OUVIR (E LER)

A Rádio 88.7, de Novo Hamburgo (radio88e7fm.com.br), é dedicada ao gênero. Na Farroupilha, emissora de Porto Alegre, a pedida é o programa Sabadão bom de baile, que vai ao ar aos sábados, das 14h às 15h. Em Nova Petrópolis, na Serra, há a Rádio Imperial (imperial.fm.br). Outra opção é o Programa Gilmar Brasil, transmitido via YouTube (acesso pelo usuário Wanessa146). Para ficar por dentro da cena dos bailões, há a revista Sulbandas (sulbandas.com.br).

Em Santa Cruz, também tem vez um bloco com faixas de bandinhas germânicas. Mas os músicos vestem roupas simples e casuais. Bem diferente das fases mais antigas – até o começo dos anos 2000, costumavam vestir uniformes.

– Eu não suportava aquilo, parecia uniforme de escola, por favor – exclama Sadir Kist, da banda Portal da Serra. – Todos usavam aquelas roupas de fundo de quintal, de cetim, parecia que era para diferenciar os músicos do público. Uma coisa assim: “Ó, chegou a banda”. Socorro!

Kist está há mais de 20 anos no ramo. É apontado como um inovador do visual das bandas dos bailões.

– Adotei um estilo mais jovem. Todo mundo aderiu rapidamente porque estava de saco cheio daqueles fardamentos – recorda.

Atualmente, a influência do sertanejo universitário pode ser percebida também no vestuário.

– Agora os músicos costumam usar cabelão espetado. Como o do Gusttavo Lima – compara o locutor Cleiton Deptner.

– O que acontece é que agora um quer estar mais bonitinho que o outro. A vaidade pegou nas bandas – afirma Kist.

Espetáculo em Santa Cruz do Sul foi parte de programação em quermesse de igreja

JANTAR DE CUCA E CACHORRO-QUENTE

Público do bailão costuma ser de pessoas buscando conhecer gente nova ou simplesmente aproveitar a festa

Domingo, 22h30min - Santa Maria

— Avida é corrida – diz o motorista Mano. – Às vezes não dá tempo de jantar. Pegamos um saco de pastéis e vamos para a estrada.

Mano estava certo quando previu como seria a noite de domingo. Só que, desta vez, não teve pastel, e sim cuca e cachorro-quente da quermesse, providenciados pelo empresário da banda. Jantares no ônibus e a distância da família em pleno fim de semana e em datas comemorativas são alguns dos ônus de um músico de bailões.

– Trocamos os dias de semana com os fins de semana – define o tecladista e produtor Rodrigo Baier, que, quando está em casa, fica trabalhando em gravações em seu estúdio caseiro.

A rotina exaustiva já levou Pino à depressão:

– Eu tinha muita ansiedade por causa do estresse. Dormia mal, viajava muito. Isso foi acumulando. É tipo uma goteira em um balde: vai pingando até a água transbordar.

São pouco mais de duas horas de viagem até o Clube Comercial. Estacionado, o ônibus d’Os Atuais imediatamente vira atração turística.

Adquirido em 2015, o veículo é equipado com ar-condicionado, televisão LCD, DVD, micro-ondas, frigobar, banheiro e suportes para garrafas térmicas e chimarrão. Há camas para todos, menos para Reny, Jacke e Ivair, que preferem os bancos reclináveis. Uma antena de TV a cabo foi instalada no sábado especialmente para assistir ao jogo que deu o título do Campeonato Espanhol ao Barcelona (3 a 0 contra o Granada).

O último show do fim de semana era da chamada domingueira, no Clube Comercial, que recebia o Baile da Cerveja. As muitas latas espalhadas pelas mesas e pelo chão e um salão lotado com 800 pessoas indicavam que a festa havia começado bem antes. Às 22h42min, Os Atuais são anunciados. O público animado grita muito antes de entoar Barco do amor com a banda. É o show mais quente de todos: seis mulheres pulam bastante à frente do palco.

– Ainda bem que folguei. Nunca consigo vir – dizia a enfermeira Elida Beulque, 47 anos. – Não costumo ir muito aos bailões porque acho muito brechó. É um lugar de coroas.

Em um bailão, é comum deparar com divorciados – homens e mulheres que buscam conhecer novas pessoas ou simplesmente aproveitar da festa agora que estão solteiros.

– Meu ex-marido não dançava – conta Rosalina Gomes, 47 anos.

Mesmo caso da diarista Evanir Marques, 50. Já a loira Fernanda, 34, sinaliza corações com as mãos para o trompetista e saxofonista Micael. Olha para ele com obsessão durante o show.

– Sou uma pessoa desiludida – lamentaria em seguida. – Nunca saio. E, quando saio, me apaixono. Ele vai dormir e nem vai lembrar de mim...

Micael diz tratar “todo mundo igual”:

– Trato com carinho, como fã.

Se em Barão o público aumentou durante o show, em Santa Maria ocorreu o contrário. Os Atuais encerraram a noite no Baile da Cerveja. Quando os músicos dão boa noite aos espectadores, partem imediatamente para o ônibus. São mais de 280 quilômetros até Tucunduva – aproximadamente quatro horas de estrada. Querem chegar logo para descansar em seu fim de semana peculiar, cuja segunda-feira será na quinta, com show marcado para o município de Teutônia.