Bagdá

7 dias na metrópole mais

perigosa do mundo

Publicado em 04 de junho de 2016

ZH desembarcou no Iraque em 9 de maio para mostrar a vida em um lugar marcado pela morte. Durante a semana de viagem, 172 pessoas morreram no país, vitimadas em atentados terroristas e em conflitos do exército contra o Estado Islâmico (EI). Nesta reportagem, percorrermos as ruas da capital, conversamos com seus moradores e empreendemos a primeira incursão de um jornal brasileiro a Ramadi, cidade que ficou oito meses sob o domínio do EI.

Ao longo de mais de 13 séculos, Bagdá, hoje com 7 milhões de habitantes, enfrentou terríveis privações, enchentes e invasões estrangeiras. De 1968 a 2003, foi a capital que o Partido Baath pretendia erigir, tendo Saddam Hussein como um de seus mais sanguinários ditadores

Texto e imagens

Rodrigo Lopes

rodrigo.lopes@zerohora.com.br

Edição

Ticiano Osório

Edição DIGITAL

Rafael Balsemão

design

Diogo Perin

Amensagem via WhatsApp chega ao smartphone da iraquiana Rafaela Al-Hamawi no final de tarde de quarta-feira, 11 de maio: “Há três atentados simultâneos em Bagdá hoje”. A garota de 26 anos, mechas vermelhas no cabelo desprotegido pelo hijab (o véu muçulmano), graduada em Literatura Inglesa, está em uma lanchonete do bairro Mansour, na margem ocidental do rio Tigre, a 30 minutos de cada um dos locais dos ataques.

O dia de terror começou em Cidade Sadr, gigantesco bairro xiita, no nordeste, com 2,5 milhões de habitantes, e enclave da milícia Exército Mehdi.

Um carro-bomba explodiu em uma feira livre:

66 mortos e 87 feridos. Depois, foi a vez de Kazimiyah: 17 mortos. E Jamea: 13 mortos. Noventa e seis mortos em um intervalo de três horas. Bagdá vive seu dia mais sangrento em 2016.

Penso imediatamente em Ali, o motorista de 34 anos que me acompanha desde que desembarquei, na segunda-feira, 9 de maio, em sua mulher, Ashjan, e na sua linda filhinha, Aya, que me receberam terça em Cidade Sadr, a poucas ruas do local do primeiro atentado. Penso em Sadeq, que tem um mercadinho próximo à feira explodida, e em seus filhos, Ahmad e Jaafar. Teriam os meninos, pela manhã, ido com a mãe comprar frutas e verduras para o jantar, como fazem todos os dias na maior favela do Iraque?

Alguns moradores de Bagdá reagem como Rafaela, anestesiados pela violência diária. Mas, em meu terceiro dia na capital iraquiana, compartilho da dúvida que une os bagdalis a cada notícia de explosão patrocinada pelo autodenominado Estado Islâmico: onde eles estão? É o que questionam pais, filhos, maridos, mulheres, a mente dominada pelos rostos dos familiares que saíram para a rua de manhã e, por acaso do destino, podem ter se tornado vítimas em uma feira livre, na entrada de uma mesquita ou no centro da cidade, na saída do trabalho, locais convertidos em matadouros. Nessas horas, as mensagens inundam os smartphones.

– Infejar!

– Inta zain?

– Ihtam bnafsak!

“Explosão!”, “Estás bem?”, “Cuidado!”. Essas três mensagens parecem resumir Bagdá, a metrópole mais perigosa do mundo segundo o ranking anual da Mercer, consultoria com sede em Londres que mede a qualidade de vida em 230 cidades. Pela estatística, o Rio, por exemplo, está em 117º lugar, e São Paulo em 121º. A capital iraquiana tem 7,5 milhões de habitantes, cinco vezes mais do que Porto Alegre. Berço das primeiras civilizações –  sumérios, no sexto milênio antes de Cristo, babilônios e assírios, entre outros –, foi epicentro de uma revolução agrícola entre os rios Tigre e Eufrates que permitiu ao homem deixar de depender exclusivamente da caça. Durante grande parte dos cinco séculos da dinastia Abássida, de 762 a 1258, Bagdá viu nascer Al-Khwarizmi, o matemático inventor da álgebra, Harun al-Rashid, o califa imortalizado em contos de As Mil e uma Noites, astrônomos, poetas, médicos, músicos. Era um entreposto comercial que atraía mercadores da Ásia Central e do Atlântico, provocando inveja no restante do Oriente e no Ocidente.

Bagdá é a capital mais perigosa do planeta, segundo o ranking anual da Mercer, consultoria com sede em Londres que mede a qualidade de vida em 230 metrópoles. Pela estatística, Rio de Janeiro, por exemplo, está em 117º lugar, e São Paulo na 121ª posição.

Rafaela Al-Hamawi é uma das moradoras de Bagdá que desafiam o medo e o terrorismo na cidade que é um dos berços da civilização e alvo diário de carros-bomba

Ao longo de seus mais de 13 séculos de história, Bagdá também enfrentou terríveis privações, enchentes – a última, em 2015, deixou mais de 80 mil desabrigados – e invasões estrangeiras que começaram muito antes da ocupação americana.

O Iraque moderno surgiu em 1919, com o colapso do Império Otomano após a I Guerra Mundial. O rei Faiçal I foi coroado pelos britânicos como chefe de Estado, mas seu poder era simbólico. Com a revolta da população, tropas britânicas foram implacáveis: bombardeios aéreos, gás mostarda. O país participou da guerra árabe-israelense de 1947-1949, esteve na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kipur (1973). Com o fim da monarquia, em 1958. e o início da república, abria-se o caminho para a ditadura do Partido Baath, primeiro com Ahmed Hassan al-Bakr, de 1968 a 1979, e a partir de então com um dos mais sanguinários ditadores do século 20, Saddam Hussein.

Hoje, passados 13 anos da invasão americana que derrubou o regime acusado de dispor de armas de destruição em massa nunca encontradas, Bagdá é, por incrível que pareça, uma cidade com acesso livre a quase todos os locais. Você só não pode estar no lugar errado na hora errada.

O planejamento para esta viagem começou em 15 de fevereiro, quando ZH ingressou com pedido de visto de jornalista à embaixada iraquiana em Brasília. A solicitação passou por trâmites de um mês no Ministério das Relações Exteriores, em Bagdá, com mediação da embaixada do Brasil no Iraque e da Câmara de Comércio e Indústria Brasil e Iraque. Vivem oficialmente no país do Golfo Pérsico 32 brasileiros, mas o embaixador brasileiro Miguel Magalhães admite que esse número, na prática, deve ser menor. Muitos, nos últimos meses, foram embora por causa da guerra sectária entre xiitas e sunitas. A maioria dos que ficaram vive no Curdistão, região semiautônoma na fronteira com a Turquia. É quase como um país dentro de outro – com leis próprias, o Curdistão não exige visto de brasileiros. Essa facilidade leva a maioria dos jornalistas a acompanhar a luta contra o Estado Islâmico a partir de Erbil (veja, nas páginas 10 e 11, mapa do Iraque e do conflito com o Estado Islâmico).

Nossa ideia era diferente: mostrar Bagdá, a capital castigada diariamente por atentados terroristas do EI, o grupo extremista sunita gestado do atoleiro americano pós-Saddam e que apavora o mundo. Massacrado pela ditadura do partido Baath e vilipendiado por sucessivos conflitos (com o Irã, entre 1980 e 1988, a Guerra do Golfo, em 1991, e a invasão americana, em 2003), o Iraque não seduz pelo turismo. Empresas não fazem seguro de vida para quem viaja ao país. Quem desembarca no Aeroporto Internacional de Bagdá, chega, em geral, a trabalho. Meu visto de jornalista foi liberado em 17 de março. Um mês e meio depois, iniciava-se esta incursão de vida e morte no país dos carros-bomba.

CARTOGRAFIA CONFLAGRADA

Áreas dominadas

pelo Estado Islâmico

Áreas com presença/

apoio do EI

MOSSUL

Considerada a capital iraquiana do EI, é alvo de uma operação, até agora sem sucesso, de reconquista por parte do exército iraquiano com apoio da aviação americana. Com 660 mil habitantes, foi ocupada em junho de 2014 pelos terroristas, após uma derrota vexatória do exército iraquiano.

ERBIL

Região semiautônoma cuja capital é Erbil. Os curdos lutam por um território independente. Perseguidos por Saddam Hussein, eles tiveram ampliada sua força política durante a ocupação americana. Suas tropas oficiais, os peshmergas, lutam contra o Estado Islâmico na região de Mossul.

RAMADI

De maioria sunita, a capital da província de Anbar tinha 200 mil habitantes antes de ser tomada pelo EI, em maio. Foi retomada pelo exército iraquiano, em dezembro de 2015.

FALLUJAH

A 69 quilômetros de Bagdá,

a cidade está sob poder do EI desde janeiro de 2014. Está cercada pelo exército iraquiano. Tinha 326 mil habitantes. A maioria fugiu. Hoje, cerca de 50 mil pessoas vivem com comida, remédio e água restritos.

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