Cortes de luz

constantes

Cidade Sadr é considerada uma região rebelde. Em 2003, quando os EUA invadiram o país, foram expulsos da área pelo Exército Mehdi. Hoje, quem manda na região é a milícia xiita

A reputação de Cidade Sadr é de um lugar perigoso, um retângulo xiita por décadas sufocado pelos sunitas. Uma insurreição ocorrida ali em 1999 fora brutalmente repelida pela Guarda Republicana. É considerado um lugar difícil de visitar como jornalista estrangeiro – desconfiados, os combatentes da milícia de Al-Sadr observam a movimentação de estranhos na comunidade. Na última rua, mora a família Hussein, sobrenome comum no Iraque séculos antes de Saddam. Uma casa simples, de paredes de concreto coloridas e sem reboco. Na sala, sento ao chão sobre belos tapetes coloridos aprumados lado a lado. Não há móveis, apenas um televisor e um ar-condicionado. Os aparelhos não estão funcionando nesta manhã devido ao corte na energia elétrica. Hussein, 18 anos, lembra quando as bombas de George W. Bush começaram a cair, em 20 de março de 2003. Tinha cinco anos. Soldados americanos entraram na sua rua pela esquerda e encontraram a resistência dos homens do Exército Mehdi, como era chamada a milícia de Al-Sadr (hoje, eles mudaram de nome para Exército da Paz).

– Os soldados entraram aqui, mas o Mehdi os tiraram – comenta.

Como muitos dos vizinhos eram soldados do exército de Saddam, as famílias fugiram antes de a guerra começar. Halema Anber, 42 anos, ficou e guardou as chaves das casas vizinhas. Em caso de necessidade, podia abri-las e pegar comida, água e remédios. Armazenou água em sacos plásticos.

Não bastou:

– Ficamos presos dentro de nossa própria casa. Pulávamos para os pátios vizinhos pelos fundos para conseguir comida. Não chegava nem água.

É perto do meio-dia quando partimos. Ao volante, Ali congela quando, em meio ao trânsito truncado de Cidade Sadr, com ruas fechadas por blocos de concreto e até um velório no meio da avenida, cabras, crianças e lixo, ele avista um caminhão-refrigerador. Um desses, carregado de tomates vindos da Síria, foi usado como bomba perto dali, em agosto de 2015. Mais de 70 pessoas morreram.

Algumas quadras adiante, Ahmad, oito anos, e Jaafar, 12, manuseiam o iPhone do pai, Sadeq Hussein. Jogam, gravam vídeos, tiram fotos. Oferecem água, esticam o prato com frutas como sobremesa, após a família servir um jantar árabe menos de 30 minutos depois de eu chegar à casa deles. Antes da entrevista, perguntam sobre o Brasil, querem saber se sou casado, se tenho filhos.

– Sou solteiro, moro sozinho – respondo.

Mal-estar no ar.

– Por quê? – surpreende-se Sadeq.

No Iraque, em geral, os filhos saem da casa dos pais, para casar, com no máximo 25 anos. Alguns nem chegam a sair. Trazem a mulher para morar com a família. E assim vão se formando casas cada vez maiores, ampliadas por novos cômodos.

A luz na residência de Sadeq é cortada duas vezes durante a entrevista. Ele explica que contrata o serviço de energia elétrica limitado. Se o número de eletrodomésticos ligados ultrapassa a capacidade, a chave cai. É comum a comunidade se reunir e comprar um gerador.

Sadeq veste túnica árabe. É comerciante, dono de um mercadinho em Cidade Sadr, onde vende carne, queijo e leite importados do Irã. Da Turquia, vêm frango, requeijão. Com a série de atentados, a situação está pior para os negócios.

– A saída de Saddam não serviu em nada de bom. Não tem ruas limpas, não tem energia elétrica 24 horas e não tem atendimento de saúde. Na época de Saddam, havia mais segurança. Ninguém perguntava o que você fazia, onde estava. Não havia tanto lixo na rua, a vida era menos cara, andava-se seguro à noite. Não havia tantas armas nas ruas – reclama.

Mas Sadeq faz uma ressalva:

– Hoje, há mais liberdade. Você pode fazer o que quiser. Pode criticar o governo. Pode escolher se quer se alistar ao exército ou não. Antes, era obrigatório.

Sadeq tem no centro da sala, logo acima da TV LCD, a foto do pai, Hussein (morto há dois anos). No canto entre as duas paredes, a imagem do imã Ali, um dos patriarcas do ramo xiita. Todos os anos, ele vai a Karbala ou Najaf, cidades sagradas do xiismo. No tempo de Saddam, a polícia agredia os peregrinos. Hoje, isso não acontece, garante.

Mulher de abaya preta em Cidade Sadr. Uma insurreição ocorrida em 1999 foi brutalmente repelida pela Guarda Republicana. Xiitas foram perseguidos durante os anos de Saddam no poder.

Sadeq é comerciante em Cidade Sadr. Hussein e Halema Anber viveram a invasão americana e, hoje, convivem com a rotina de medo no bairro

Após servir o jantar aos homens da casa, a irmã de Sadeq, Samera, professora de engenharia em uma faculdade pública, junta-se a nós. Elogio o comportamento das crianças na sala. Além de Sadeq, dos meninos Ahmad e Jaafar, me acompanham com olhos curiosos as filhas de Samera, Zahra e Marem. Entusiasmado com a visita fora de hora, Jaafar se oferece para fazer uma foto minha com a família.

– Na época do Saddam não tinha nada disso, tecnologia, celular, smartphone – diz Samera.

Internet também era restrita a prédios militares e do governo. Hoje, a maioria das casas tem wifi, mas a rede de dados é lenta e sofre interrupções ao longo do dia. As condições de vida do cidadão comum melhoraram. O salário de Samera foi reajustado. Mas os produtos nos mercados, também:

– A gente ganha aqui, mas gasta ali na frente.

A família sente falta da segurança que a ditadura trazia. Hoje, o país está dividido entre sunitas e xiitas.

– Não podemos confiar em ninguém. Mesmo tendo liberdade de pensamento, com garantia de que não seremos punidos pelo governo por falar o que pensamos, prefiro não falar – diz Samera.

Ela teme vizinhos, conhecidos:

–  Não vivemos felicidade. Nossos pais viveram. Felizes foram eles. Depois, foi guerra e guerra.

Pelo WhatsApp, recebo a confirmação de que o exército iraquiano aprovou minha incursão a Ramadi. Sinto um misto de euforia e preocupação.

– Cuidado com snipers do Daesh – alerta Ali. – Eles miram e acertam de longe.

Despeço-me da família, e, na volta para o hotel, Ali pergunta se quero ir pela Avenida Karada ou pelo acesso alternativo, como na noite anterior. Prefiro o mais seguro. E me permito brincar:

– Vou para Ramadi e estou com medo dessa rua.

– É, amigo... Lá, você sabe onde está o inimigo, aqui não. Ele pode estar em qualquer lugar – observa Ali.