Anderson Fetter

Publicado em 09 de abril de 2016

Durante 34 dias, editor de ZH abriu mão do transporte motorizado e percorreu mais de 400 quilômetros em sua bicicleta para mostrar as dificuldades encaradas por quem decide ser ciclista em Porto Alegre

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Rafael Balsemão

rafael.balsemao@zerohora.com.br

Edição

Ticiano Osório

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Diogo Perin

"Observar e participar da vida de uma cidade – mesmo para uma pessoa reticente e frequentemente tímida como eu – é uma das maiores alegrias da vida. Ser uma criatura social – isso faz parte do que significa ser humano.”

A reflexão é de David Byrne, um dos fundadores da banda Talking Heads, em sua obra Diários de Bicicleta, na qual aborda sua experiência sobre duas rodas em várias cidades pelo mundo e que me inspira a pedalar por aí com a minha magrela.

Foi como uma criatura social que me senti durante 34 dias andando somente de bike por Porto Alegre. Ao descobrir os cheiros de uma cidade que voltava à normalidade após o temporal de janeiro. Ao cruzar com estranhos que puxavam assunto apenas porque usavam o mesmo meio de transporte que eu. Ao pedalar até o Campus do Vale da UFRGS, quase no limite com Viamão, e perceber que não há capa que proteja o ciclista que se aventura sob forte chuva. Ao deixar minha bici no aeroporto e passar o final de semana no Rio com a sensação de que, no meu retorno, ela não estaria onde eu a havia estacionado.

Lauro Alves

A regra combinada na Redação de ZH era simples, na teoria: abandonar qualquer veículo motorizado por um mês – se vai combustível, não pode. Ou seja, percorrer todos os trajetos do meu cotidiano a pé ou a bordo da Caloi 10 adquirida em janeiro, após ter minha bicicleta furtada em uma garagem na rua onde moro, no bairro Rio Branco.

O experimento como hard user começou oficialmente em 1º de fevereiro. As primeiras pedaladas foram um aquecimento para os obstáculos: buracos, bueiros, desníveis, poças d'água, árvores sem poda, ciclovias malconservadas, motoristas, ciclistas e pedestres desrespeitosos, falta de preparo físico e chuva – muita chuva.

Foi impossível não comparar Porto Alegre a São Paulo, cidade na qual morei por oito anos, até março de 2015. Foi em Sampa que comecei a usar a bicicleta para me deslocar até o trabalho, há quatro anos. Enquanto a capital paulista já conta com 401,8 quilômetros de ciclovia (2,36% da malha viária total) – sendo 305,2 implantados na atual gestão, do prefeito Fernando Haddad (PT) –, os porto-alegrenses contam com 36,9 quilômetros (1,31% da malha total). A expectativa, até o final do ano, é chegar a 50 quilômetros. Número ainda bem distante dos 495 quilômetros previstos pelo Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI), de 2009.

 

Veja, a seguir, como foi a experiência.

Pós-tempestade, conheci minha arqui-inimiga

Nas duas primeiras semanas do desafio, a ideia era incorporar a bicicleta de vez em minha vida, tarefa facilitada por se estar de férias na faculdade de Letras da UFRGS e não ter de ir ao Campus do Vale. Até lá, o principal caminho a ser percorrido seria o da minha casa até o jornal, cerca de 2,5 quilômetros em que é possível circular com segurança. Moro na Rua Miguel Tostes, pertinho da Vasco da Gama, via que foi recentemente ligada com 1,1 km de ciclovia à faixa da Ipiranga – onde fica Zero Hora.

O inusitado daqueles primeiros dias foi observar, aos poucos – e bem de perto –, a cidade voltando ao normal após a tempestade de 29 de janeiro, que deixou a Capital bastante danificada e atrapalhou a vida dos seus habitantes. Minha empreitada começou em meio a muitas árvores pelo caminho. A limpeza da rota dos que circulam de bicicleta não acompanhou a rapidez com que a prefeitura liberou, para os motoristas, a Avenida Ipiranga, uma das primeiras a voltar ao normal depois da tempestade. Para quem trafegava pela ciclovia, a solução era desviar dos galhos e até mesmo andar pela via na contramão, quando a passagem era impossibilitada por conta de um tronco de árvore ou de galhos no percurso.

 

À esquerda, a rotina noturna na saída de Zero Hora; à direita, Balsemão no início da experiência, no bairro Rio Branco

Lauro Alves

Anderson Fetter

Nessa primeira semana, deparei com ciclistas abrindo caminho, limpando e removendo galhos. Em meio ao caos urbano, também enfrentei a minha primeira chuva – uma vilã e tanto –, na quarta-feira, 3 de fevereiro. Para não precisar trabalhar molhado, levei uma muda extra de roupa, algo que viraria hábito quando começaram as viagens de longa distância pela cidade. Um peso adicional com o qual eu não estava acostumado a lidar.

Os quilos a mais voltariam a incomodar em idas ao supermercado e, mais ainda, à feira. Deu saudade da minha antiga bicicleta, que tinha bagageiro, o qual seria de extrema valia durante esses dias. Para aliviar o desconforto nas costas, optei por levar menos itens em cada saída às compras.

Foi também naquela quarta que senti, pela primeira vez, a falta de respeito de alguns motoristas. Quando voltava para casa do trabalho, fiquei encharcado após um carro passar sobre uma poça d'água ao meu lado na esquina da Silva Só com a Ipiranga, enquanto eu esperava o sinal verde para prosseguir. Dali para frente, cenas como essa se repetiriam com frequência.

Fui até o aeroporto e ganhei uma dor de cabeça

O “peso extra” voltaria à cena com mais força em 12 de fevereiro, uma sexta-feira, dia do primeiro grande desafio da minha jornada: ir até o aeroporto pedalando para embarcar rumo ao Rio de Janeiro. É nessas horas que a gente percebe a necessidade de alguns equipamentos, como alforjes – aquelas bolsas que se acoplam no bagageiro e permitem que o ciclista pedale com mais conforto por uma distância maior. Sem bagageiro e sem alforjes, tive de levar apenas o essencial para o fim de semana.

Mochila feita, uma nova preocupação surgiu: a segurança. Será que eu encontraria, na segunda-feira seguinte após o passeio, minha bicicleta no mesmo local onde eu a havia estacionado?

A minha apreensão fazia sentido. Em cinco anos, eu contabilizo três bicicletas furtadas. Por isso, além da trava simples que geralmente uso para deixar a bike em lugares mais seguros, como estacionamentos monitorados, levei uma corrente reforçada e um cadeado.

No aeroporto Salgado Filho, há um bicicletário gratuito, e os funcionários do estacionamento me informaram, por telefone, que eu poderia deixar lá a bike. Não garantiam, entretanto, segurança. Mesmo assim, arrisquei e amarrei a bicicleta próximo ao local onde se faz a cobrança dos motoristas.

Antes de sair de casa, consultei o Google Maps: eu demoraria cerca de 25 minutos para percorrer os 6,5 quilômetros da minha casa ao aeroporto. No percurso pedalado, passando pela Avenida Paraná, no bairro São Geraldo, o fluxo de carros não chega a assustar. Em contrapartida, não há ciclovias e, além disso, grande parte das ruas é de paralelepípedos, o que aumenta a trepidação e dificulta o controle da bike.

Na ida para o aeroporto, fizeram falta os alforjes, bolsas que tiram das costas do ciclista o peso da bagagem

Rafael Balsemão

Felipe Nogs

O tempo previsto pelo aplicativo bateu com o que eu levei pedalando – só faltou eu me dar conta que o terminal da minha partida era o 2, e não o 1, onde ficou a bicicleta. Resultado: perdi o voo e tive que decolar mais tarde, mediante pagamento de uma multa.

Felizmente, minha Caloi 10 estava lá no meu retorno. Foi um tremendo alívio.

De volta à minha rotina, vi o tráfego pela ciclovia da Ipiranga voltar ao normal na terça-feira, 16 de fevereiro, quando finalmente o trajeto foi limpo e as árvores que atrapalhavam o trânsito, retiradas e podadas. Impossível não notar o cheiro de mato, de grama recém aparada, odor que talvez tenha passado despercebido para quem trafegava pela via trancado em um carro com o ar-condicionado ligado. Era o aroma de uma Porto Alegre que retornava à normalidade.

Na sexta-feira seguinte, voltei ao aeroporto, dessa vez para uma viagem para São Paulo.

O trajeto não era mais inédito e, como decidi sair de casa um pouco mais cedo para evitar qualquer contratempo, foi bem mais fácil. Mais interessante ainda foi a volta, na segunda-feira. Por estar de folga do trabalho, consegui curtir o caminho, mesmo com a mochila um pouco mais pesada, fruto de pequenas compras e alguns presentes que trouxe da capital paulista.

Pela primeira vez, cheguei bem perto da estátua do Laçador, pela qual sempre passei em minhas idas e vindas até o aeroporto, sem nunca dar a merecida atenção. Em frente ao terminal 2 do Salgado Filho, na Avenida dos Estados, próximo ao Sítio do Laçador, pedalei com calma e pude apreciar melhor o símbolo oficial de Porto Alegre. Por ali, parei por alguns minutos para observar casais namorando e pessoas, entre elas alguns ciclistas, curtindo as chegadas e partidas dos aviões, completamente alheios ao caos da metrópole. A sensação era de viver a minha cidade em sua plenitude.

A noite em que protestei contra a impunidade

Já me sentindo totalmente tomado pelo ciclismo utilitário – termo técnico para se referir ao uso da bicicleta como meio de transporte –, resolvi participar de uma manifestação na Cidade Baixa, na quinta-feira, dia 25. Organizado pela Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade) e pelo Coletivo Cidade da Bicicleta, o ato marcava os cinco anos do atropelamento de um grupo de ciclistas pelo bancário Ricardo José Neis no encontro das ruas José do Patrocínio e Luiz Afonso – na ocasião, pelo menos 17 pessoas ficaram feridas.

No intervalo de cinco minutos de interrupção no trânsito, pude perceber preconceito e ódio em relação ao grupo de 80 ativistas que se manifestava contra a impunidade do bancário. Laudos e perícias solicitados por defesa e acusação devem ser concluídos neste mês. Neis vai a júri popular.

Durante o bloqueio, fomos xingados de “vagabundos” e “safados”. Motoristas que ficaram presos no trânsito buzinaram – alguns em apoio, outros em contrariedade à mobilização. Já os mais exaltados gritavam: “Vocês têm mais é que ser atropelados!”.

– As pessoas não têm noção do que aconteceu naquele dia do atropelamento. É um marco histórico mundial da questão da bicicleta – define a cicloativista Tássia Furtado, 31 anos, uma das sócias da Vulp, cafeteria no Bom Fim que reúne amantes de bikes e oferece loja e oficina.

Estreante nesse tipo de mobilização, me senti, em meio ao pessoal que se manifestava, um estranho no ninho. Por lá, todos conversavam e pareciam se conhecer havia muito tempo.

Dali a três dias, optei por um passeio mais turístico com o meu amigo Jeferson Ferreira, 39 anos, que já usa a bicicleta no seu dia a dia há 10 anos. Decidimos dar um rolê até a Praia de Ipanema, para sentir um pouco o clima de pedalar na Zona Sul, região que não faz parte da minha rotina – e que é, sem dúvida, a mais bonita da cidade para se curtir de bike.

O domingo estava perfeito para o giro: temperatura amena e algumas nuvens no céu. A dificuldade era o trajeto, cheio de ladeiras, e, claro, o meu condicionamento físico. É que, apesar de eu já ter aprimorado bastante a minha performance, Jeferson é muito melhor preparado. Não bastasse isso, a bike dele é de um modelo superior ao da minha.

Para que eu não ficasse muito para trás, trocamos de bicicleta e partimos da Cidade Baixa para Ipanema. Entre subidas e descidas, percebi que, dependendo do modelo de bicicleta, a vida pode ficar bem mais fácil. Chegando ao nosso destino, após esforço máximo na Avenida Wenceslau Escobar, batemos um papo à beira do Guaíba.

Jeferson me contou sobre o começo de sua paixão pelo pedal, em 2006, quando trabalhou em Londres como condutor de ciclo-riquixá, veículo que se parece com uma bicicleta e transporta normalmente três pessoas, muito popular em regiões centrais de grandes cidades turísticas. Desde lá, a bike virou rotina na vida dele.

À esquerda, Jeferson Ferreira, que pedala há 10 anos, na Praia de Ipanema; à direita, protesto marca os cinco anos do atropelamento coletivo na Cidade Baixa

Rafael Balsemão

André Ávila

– O gosto começou a se sofisticar, e eu quis fazer percursos maiores, aventuras – conta Jeferson, que perambula de bicicleta todos os dias, até mesmo para ir a bares e casas noturnas, e percorre grandes trechos ao menos duas vezes por semana. Em seu currículo, há uma viagem sobre duas rodas saindo de Porto Alegre até Gramado, passando ainda por Nova Petrópolis e Caxias antes de retornar à Capital.

Com propriedade para opinar sobre o trânsito de Porto Alegre, Jeferson afirma que falta sensibilidade para todo mundo:

– As pessoas estão deseducadas para dar o seu espaço para o outro. Há uma sensação de propriedade da área pública. O pedestre se sente dono do seu percurso, assim como o motorista e também o ciclista.

Embora não poupe críticas, ele acredita que houve avanços na cidade nos últimos anos, consequência da repercussão negativa do atropelamento coletivo na Cidade Baixa.

– Foi por causa desse acontecimento trágico que o número de ciclovias aumentou. Mas falta também investir na educação das pessoas. É preciso mostrar a facilidade que é se deslocar de bicicleta pela cidade.

Quem também diz observar melhorias é a engenheira civil Alessandra Both, gerente de Estudos e Projetos de Mobilidade da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), área responsável pelas ciclovias na Capital. Para Alessandra, está sendo construída uma “nova história”:

– As cidades serão bem diferentes das que temos hoje. Já se vê o ciclista como um modal de transporte, não como um usuário de lazer. O motorista sabe que o ciclista tem prioridade.

Apesar do otimismo de Alessandra, há muito a melhorar. O desrespeito dos usuários de transporte motorizado ainda assusta. Essa questão foi apontada, segundo a Pesquisa Nacional sobre o Perfil do Ciclista Brasileiro, como o principal problema enfrentado no uso da bicicleta como meio de transporte.

Do levantamento — feito no ano passado pela ONG Transporte Ativo em parceria com outras nove organizações, o Observatório das Metrópoles e o Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ — participaram 5.012 ciclistas em 10 cidades de diferentes regiões brasileiras. Na Capital, foram 220 pessoas entrevistadas.

Segundo Tássia Furtado, coordenadora do estudo em Porto Alegre, a pesquisa mostrou que acidentes ocorrem principalmente em função da condição das ruas, e não por causa dos motoristas. Para 27,2% dos entrevistados, a falta de infraestrutura – buracos nas vias, ciclovias malconservadas e a ausência delas, inexistência de bicicletários etc. –, é o motivo que faz com que as pessoas não optem pela bike como meio de transporte.

Um problema que, em marcha lenta, a prefeitura vai tentando resolver. Para 2016, está previsto o começo de construção de ciclovias em importantes avenidas da Capital, como a Sertório, a Goethe e a Nilo Peçanha. Mais um bom motivo para se aventurar de bike por outros cantos da cidade.

Indo para o Campus, senti medo pela primeira vez

Incentivado pelas palavras do meu amigo Jeferson em nossa conversa, acordei empolgado no dia seguinte ao passeio para pedalar até o Campus do Vale da UFRGS. Era 29 de fevereiro, segunda-feira, o meu primeiro dia de aula.

Do percurso de cerca de 12 quilômetros, a notícia positiva é o novo trecho da ciclovia da Ipiranga, entre a Salvador França e a Avenida Antônio Carvalho. Apesar da ausência de guard-rail em grande parte da extensão e de uma falha quase na esquina com a Cristiano Fischer, que pode causar acidente se o ciclista não redobrar o cuidado, o trajeto é bem sinalizado. E o pavimento não é escorregadio como o do outro lado da pista para ciclistas, entre a Silva Só e a Borges de Medeiros, trecho que precisa de reparos.

Já entre a Silva Só e a Salvador França, que deveria ter as obras da faixa para bikes iniciadas no ano passado, nada foi feito até momento. Aqui não tem choro: é preciso disputar espaço na avenida com carros, motos e ônibus. A previsão é de que os trabalhos da ciclovia nesses 2,7 quilômetros comecem apenas no segundo semestre deste ano, sem data para serem finalizados, segundo a EPTC. A situação fica bem mais complicada na Bento Gonçalves. A avenida, definitivamente, não se presta para amadores.

À esquerda, a perigosa ida para o Campus do Vale da UFRGS, pela Bento Gonçalves; à direita, novo trecho da ciclovia da Ipiranga, entre a Avenida Antônio Carvalho e a Salvador França

Anderson Fetter

Rafael Balsemão

É quase impossível trafegar no meio da pista da direita, o mais recomendado para evitar atropelamentos. A todo instante, os carros jogam o ciclista para o acostamento, que é bastante irregular nesta via. Para piorar o cenário, é preciso encarar uma subida pesada, que volta a aparecer dentro do próprio campus da UFRGS. Para evitar o perrengue da Bento, muitos utilizam a calçada ao longo da universidade, onde os pedestres são raros.

A quarta-feira, 2 de março, quando eu teria de voltar ao Vale pela manhã, mostrou-se também um dia complicado. O problema maior dessa vez era o meu cansaço. A segunda pedalada da semana até o limite com Viamão, por sorte, foi mais tranquila que a do meu primeiro dia de aula. Tanto que voltei cheio de energia da faculdade e até dei uma parada estratégica na academia, a qual havia abandonado desde que comecei a minha empreitada.

O que me deixava realmente preocupado era o evento da noite: o show dos Rolling Stones, no Beira-Rio. Pensei em ir de bike e tentar amarrá-la em algum lugar estratégico que me passasse alguma segurança de que não seria furtada, mas preferi não arriscar. Optei, então, por caminhar até o local da apresentação, que fica relativamente perto de ZH – só depois descobri que há um bicicletário próximo ao estádio.

Mal sabia eu que iria desabar tanta água durante a apresentação dos ingleses. Quem foi ao show sabe que valeu cada pingo d’água gelado pelo corpo. Só que o pior ainda estava por vir. Não estava nos meus planos caminhar debaixo de forte chuva até o jornal para pegar minha bicicleta e voltar para casa. No trajeto, quase tombei algumas vezes por conta da água que caía e se acumulava no chão.

Felipe Nogs

No dia seguinte, tinha que estar de pé às 6h para voltar mais uma vez ao Campus do Vale. Não ouvi o despertador tocar, algo muito raro, e desencanei da primeira aula. O segundo período só começaria às 10h30min. Levantei da cama às 9h e titubeei pela primeira vez: ir ou não ir de bicicleta até a faculdade?

Em meio a uma forte angústia, e a sensação de estar decepcionando o meu editor, decidi que iria de ônibus – a previsão do tempo apontava chuva. Eu poderia simplesmente não ir à aula ou ocultar o fato de vocês, mas chegava o momento de colocar a minha saúde em primeiro lugar. Senti um leve pânico ao pensar que poderia estar no meio do caminho e cair mais uma chuva pesada. Pensei que seria muito pior pegar uma gripe ou mesmo uma pneumonia. Tive medo de me machucar, principalmente na Bento.

Então, ao lado do viaduto da Silva Só, embarquei no D43 Universitária rumo à aula – confesso, decepcionado comigo. Sentado no ônibus e chateado, nem ler consegui, hábito de que mais senti falta durante as minhas pedaladas rumo ao Vale.

Não choveu forte. Poderia ter ido sem enfrentar grandes problemas. Mas, diante do que havia passado na véspera, foi o mais sensato a fazer.

À tarde, fui até uma loja especializada comprar uma capa de chuva para ciclistas. Era o que a previsão pedia. À noite, teria mais um show pela frente. Não queria voltar para casa encharcado outra vez.

Registro da primeira balada: Bar Opinião, na Cidade Baixa, tem bicicletário e estação do BikePoa

Seria a minha primeira balada de bike. E, novamente, o medo de perdê-la me rondava. Saí da Faculdade de Educação da UFRGS, no Centro, às 20h30min, em direção ao Opinião, na Cidade Baixa, pela ciclovia da José do Patrocínio, em meio ao burburinho do bairro mais boêmio da cidade.

O bacana da casa de shows é que ela disponibiliza para os seus frequentadores um bicicletário, além de contar com uma estação do BikePoa grudada no estabelecimento. Ao deixar o local, minha bicicleta, ao lado de outras ali estacionadas, continuava no mesmo lugar onde eu a havia amarrado. Economizei no valor do táxi e ainda curti um pouco a pedalada noturna no retorno à minha casa, cantarolando as músicas do rapper Criolo que havia escutado no show minutos antes.

O dia em que o pneu furou e a jornada chegou ao fim

Já satisfeito com tudo o que eu havia pedalado e um quilo mais magro (não perdi mais porque reforcei a alimentação para as pedaladas mais longas), decidi encerrar a minha empreitada em 9 de março, uma quarta-feira. Esperava, dos últimos dias, ter tempo para refletir e formular uma mensagem positiva da experiência, incentivar mais gente a pedalar. O discurso estava na ponta da língua para passar adiante: vale a pena usar a bike no dia a dia de Porto Alegre, apesar de todos os percalços, principalmente para percursos mais curtos.

Os meus planos, entretanto, não deram certo, muito por conta das condições climáticas.

O que eu temia na semana anterior rolou na quarta: desabou muita água. Mas estava confiante por eu ter uma capa já testada e aprovada. Além disso, saí de casa sem aquela aguaceira aterrorizante da semana anterior. A chuva começou a cair na Ipiranga, quase no final da ciclovia – já havia percorrido mais da metade do caminho até a universidade, não valia a pena voltar. A pedalada pela Bento foi muito mais perigosa do que eu imaginava. Sentindo-me mais seguro, tentava a todo custo me posicionar no meio da faixa e não deixar os carros me jogarem para o acostamento. Como já havia constatado em outras idas ao campus, aquele pedaço da pista é completamente desnivelado, e, com água, as chances de cair aumentavam. A tempestade ganhava força. Apesar do pavor, cheguei inteiro à faculdade.

A volta foi mais complicada ainda. Com o temporal, a capa de chuva teve pouca utilidade. Para agravar o cenário, o pneu dianteiro da minha bicicleta furou, obrigando-me a empurrá-la a pé por boa parte da Ipiranga, até encontrar um posto, o que só aconteceu na Silva Só.

Cheguei em casa completamente ensopado. Não bastasse isso, estava estressado e sem energias para nada. Teria ainda que, antes de ir para o trabalho, passar em um borracheiro e arrumar minha bike.

Já em ZH, avisei o editor que a minha jornada sobre duas rodas terminaria logo mais, assim que voltasse para casa. Mesmo com a sensação de dever cumprido, o que me deixava feliz era poder, no dia seguinte, ir de ônibus para a faculdade. Estava realmente esgotado.

Rafael Balsemão

Com o passar dos dias, tirei do foco o desencanto com os deslocamentos em meio à tempestade e, aos poucos, passei a recordar os momentos pelos quais havia passado com a minha magrela – sobretudo os bons. Cinco dias depois, com o tempo firme, já retomava minhas pedaladas. O sentimento era de ter ampliado a percepção dos ritmos e dinâmicas da cidade e dos porto-alegrenses.

Das coisas bacanas que me aconteceram durante os 34 dias, destaco as conversas que tive sobre o que passei com colegas e amigos, que também compartilharam comigo suas experiências com suas bikes. No meio do caminho, houve desrespeito, sim. Não faltaram motoristas impacientes que buzinaram sem motivo, pedestres na ciclovia que quase foram atropelados por mim e ciclistas desatentos que por pouco não provocaram um acidente.

Porém, não posso deixar de fazer um registro dos sorrisos cúmplices de outros ciclistas, dos motoristas educados que me deram passagem (mesmo quando quem havia errado tinha sido eu) e das rápidas conversas com desconhecidos, como a que tive com um senhor de aproximadamente 60 anos que puxou assunto pelo caminho, em um momento em que tudo o que eu mais queria era abandonar minha bicicleta e pegar um táxi.

Nos poucos minutos em que trocamos algumas palavras, na sinaleira da Avenida Protásio Alves com a Rua João Guimarães, pertinho de casa, ele ressaltou que estávamos economizando o dinheiro do ônibus (durante a experiência para a reportagem, devo ter poupado, só em passagens, cerca de R$ 160). Orgulhoso, me contou também que praticava cicloturismo. Eu voltava do Campus do Vale e só interagi para dizer que estava bem cansado. O senhor, percebendo o desânimo estampado no meu rosto, devolveu:

– Não desiste. É bom para o teu corpo e para tua mente.

Ambos abrimos um sorriso e nos despedimos por ali. Ele virou na Protásio à direita, eu, à esquerda. Depois desse episódio, procurei por aquele senhor pelas minhas andanças de bike pela cidade. De certa forma, ele permanece comigo até agora.

Com capa de chuva especial para ciclistas, editor de ZH enfrenta a sua arqui-inimiga: a chuva

À esquerda, Balsemão retorna para casa do Campus do Vale debaixo de forte chuva; à direita, o caminho na volta para casa: trecho recente da ciclovia uniu Ipiranga aos bairros Bom Fim e Rio Branco

Fotos Rafael Balsemão

 

Anderson Fetter

Lauro Alves

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Felipe Nogs

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Anderson Fetter

Felipe Nogs

Rafael Balsemão

Rafael Balsemão