Como eles enfrentam a violência

PARTE 2

Jundiaí, monitorada

contra o crime

Há dois anos, cidade do interior de São Paulo conta com sistema inteligente de monitoramento eletrônico. Modelo conseguiu barrar furtos e roubos de veículos e já foi multiplicado pelos municípios vizinhos que hoje formam o “cinturão caipira”. Desde 2014, este tipo de crime caiu em 37,3% no município

PARTE 1

Heliópolis

PARTE 2

Jundiaí

PARTE 3

Nova Lima

Um alarme estridente soa na sala do comandante da Guarda Municipal de Jundiaí, município com 405 mil habitantes no interior de São Paulo, a 55 quilômetros da capital. No computador, imagem congelada mostra o detalhe da placa de um veículo e uma tarja amarela no alto da tela.

– Não há motivo para correria. Quando aparece a tarja amarela, é porque um veículo que está sob alguma investigação passou por um dos nossos pontos de monitoramento. Essa informação é registrada em um sistema e repassada à autoridade que solicitou relatório sobre este veículo – explica o comandante da Guarda, delegado José Roberto Ferraz.

Do gabinete, o comandante tem condições de identificar horários de circulação, rotas percorridas, cenas de crimes, relações com outros veículos que tenham percorrido o mesmo trecho monitorado e até identificar suspeitos em questão de minutos no sistema que armazena de 700 a 800 mil placas por dia. É uma das bases do mapeamento da criminalidade elaborado pelo município.

Pouco tempo depois que a reportagem chega à sala, outro alarme soa. Dessa vez, entre os monitores do centro de controle. Era a placa de um caminhão que correspondia a um furto ocorrido na véspera em cidade próxima. Imediatamente as viaturas da Guarda foram acionadas, e a Polícia Militar, também alertada.

Enquanto os agentes davam conta das buscas, o comandante recordava ocorrência de meses atrás.

Tratava-se de moradora que teve o carro roubado e acionou a Guarda. A partir do endereço do crime, o sistema lançou as probabilidades de cada rota que os criminosos poderiam tomar com o veículo levado pelos assaltantes. Então, seguindo estatísticas, os guardas se dividiram.

Em 20 minutos, o carro foi localizado, recuperado e os suspeitos presos em flagrante pelos próprios agentes municipais. Em média, 11 carros foram recuperados por mês, a partir do sistema de monitoramento, neste ano na cidade. É o dobro do que acontecia em 2013. Essa é a parte mais visível da eficiência do monitoramento.

 

 

Porto Alegre enfrenta o inverso em roubos

 

Nos últimos dois anos, conforme a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, desde que o sistema inteligente passou a funcionar a pleno na cidade que é pioneira naquela região, os furtos e roubos de veículos desabaram 37,3%. No primeiro semestre de 2014, 1.324 carros foram furtados ou roubados na cidade. No primeiro semestre deste ano, foram 829 registros.

Caminho inverso ao vivido em Porto Alegre, onde o papel da Guarda Municipal e o uso de câmeras de monitoramento ainda não passaram da fase de discussão. No mesmo período, a capital gaúcha viveu uma alta de 17,9% nos furtos e roubos de veículos. No primeiro semestre deste ano, 6.276 carros foram levados por bandidos.

O sistema de Jundiaí começou a ser implantado em 2012, com investimento de R$ 30 milhões divididos em cinco anos – R$ 6 milhões por ano –, custeados pelo município. Quando o período dos cinco anos se encerrar, o município custeará somente a manutenção e atualização das câmeras.

A receita de JUNDIAÍ

O município protagonista na segurança — Garantia de investimentos na qualificação da Guarda Municipal e do sistema de monitoramento. A guarda faz prisões em flagrante e atua como polícia ostensiva e é bem remunerada.

Plano Municipal de Segurança — As metas para redução de índice de violência se tornaram um plano, construído com discussões na comunidade e com informações do mapeamento da criminalidade local. Tudo é mapeado e se torna dado para combater o crime com estratégia.

Tecnologia e inteligência — Não se limitou à implantação das câmeras de monitoramento. Investiu na modernização do sistema e aplicou esses dados para criação de relatórios e mapeamentos da criminalidade. Cada ação dos órgãos de segurança locais é baseada nos levantamentos do sistema. O resultado é, além da prevenção de crimes, a qualificação de inquéritos e processos criminais.

O cinturão "caipira"

Uma quadrilha especializada em explosões de caixas eletrônicos agiu, no ano passado, em Araraquara. Dias depois, crime com as mesmas características foi registrado em Hortolândia. Todas as informações coletadas pelo sistema de monitoramento foram compartilhadas entre os municípios da região, que hoje formam o chamado “cinturão caipira”. Diante das probabilidades de rotas fornecidas pelo sistema, Jundiaí estava no alvo dos criminosos.

– Sabíamos as características dos veículos usados por eles, os horários que costumavam atuar e a possível rota que tomariam para entrar na cidade – conta o comandante.

Cerco foi organizado com a Polícia Militar nas entradas de Jundiaí. Evitou o crime na cidade. Dias depois, acabou acontecendo em outro município da região, ainda fora do sistema de monitoramento.

É que a ideia de Jundiaí foi multiplicada. Outros 15 municípios da região, incluindo Campinas, são monitorados pelo mesmo modelo. Banco de dados integrado está em fase de implantação e regulamentação entre os governos municipais. Já há, por exemplo, informações de suspeitos, com mais de 800 nomes cadastrados e vinculados a placas de veículos e tipos de crimes, sendo alimentado pelas guardas municipais.

– A migração dos criminosos entre os municípios da região é muito grande pelo monitoramento. E esse sistema tem nos permitido, além de controlar esse fluxo, abrir espaço para novas parcerias e aprimoramento do nosso trabalho de prevenção – explica o delegado José Roberto Ferraz.

Exemplo disso é a relação da Guarda Municipal com a Polícia Rodoviária Federal em ações contra o roubo de cargas. Até agosto do ano passado, a média mensal desse tipo de crime em Jundiaí foi de 13 casos. Neste ano, o índice já reduziu para sete casos, em média, por mês.

Não se trata de um cercamento eletrônico. Esse conceito, segundo o comandante, já é ultrapassado.

– Agimos por manchas de monitoramento. Não adianta cercar as entradas e saídas da cidade e não entender detalhadamente como é o crime onde estão as pessoas. É muito mais eficiente concentrar-se em áreas específicas e fazê-la se comunicarem, como fazemos com as cidades vizinhas – explica.

A guarda mapeia e prende suspeitos

No papel, a Guarda Municipal não é polícia. Na prática, a ação é de policiamento ostensivo mais próximo da comunidade. É que, em Jundiaí, cada chamado para a Polícia Militar cai em uma central em Campinas. Dali, é repassado ao batalhão que atua na cidade. Pois a guarda criou o seu próprio número para chamadas emergenciais. Em todo o ano de 2013, foram registrados

5,5 mil chamados para este número. No ano passado, o volume subiu para 12,6 mil ligações de emergência ou denúncia.

– É uma cidade de Interior, aqui a cobrança é feita sempre sobre o prefeito, mesmo que não seja assunto da sua responsabilidade direta. O fato é que deixamos de ser empresa de vigilância pública – explica o comandante da Guarda.

O município conta com 385 agentes – quase 1 guarda para cada mil habitantes – e todos estão aptos a portar arma e agir em ações ostensivas. A cada mês, eles recebem treinamentos e atualizações. A Guarda tem custo de R$ 42 milhões anuais ao município.

Em Porto Alegre, por exemplo, a Guarda Municipal tem 484 agentes – 1 guarda para cada 2,9 mil habitantes – e somente em torno de 200 atuam armados e em guarnições nas ruas. Sua função primordial é a guarda de prédios e instalações públicas.

Essa também é a atribuição da guarda em Jundiaí, mas com o foco mais ativo.

– É prerrogativa de qualquer cidadão, por exemplo, dar voz de prisão. Seria omissão do município não cumprir esse papel. Quando flagramos no nosso sistema de monitoramento situações de crimes, agimos e prendemos – relata.

Realidades distintas

Atualmente, 40% de Jundiaí está monitorado por 186 câmeras – 92 no módulo OCR (sistema inteligente que registra placas e cruza dados no sistema, emitindo alertas para situações suspeitas), 30 fixas e 64 domes (filmam e gravam com capacidade de monitorar um raio de 20km² e aproximar 36 vezes com foco).

Em Porto Alegre, também existe o Gabinete de Gestão Integrada, com 771 câmeras de monitoramento – 42 da Secretaria Estadual de Segurança, 115 da EPTC, 41 da Guarda Municipal, 573 da Concepa, Trensurb, Fundação Iberê Camargo, helicóptero da BM e móveis da Secretaria da Segurança Pública. Não há, no entanto, sistema inteligente que cruze dados captados pelos equipamentos ou forma de alarme e resposta rápido ao que as câmeras flagram.

Como funciona em Jundiaí

A partir da placa de um veículo, o sistema traça o seu perfil, com informações sobre quando e onde ele passa. É desenhada uma probabilidade de direções em que ele pode tomar a cada horário do dia.

É feita relação entre os locais em que passou em período de três anos e os de crimes registrados na área.

Relaciona a presença desse veículo outros que estiveram com ele mais de uma vez.

É lançada uma teia de probabilidades de crimes relacionados àquele veículo e à pessoa com a qual essa placa está relacionada.

A partir da identificação de alguém, as informações são cruzadas com o banco de suspeitos do “cinturão caipira”.

É gerado relatório que abastece investigações e processos criminais.

Por lei, todas as informações coletadas são fornecidas aos órgãos de segurança a partir de solicitação. Mas sempre que um crime é flagrado, um relatório é gerado imediatamente para quem o investigará.

Não é atribuição da Guarda Municipal, mas o monitoramento de possíveis pontos de tráfico é constante. Diversos locais já foram denunciados às polícias. Quando há suspeita, relatório é preparado a partir das movimentações diárias, em horários específicos, do local. O que não impede dos agentes fazerem prisões em flagrante. Em setembro, a partir do monitoramento, guardas desarticularam um laboratório mantido pelo PCC em Jundiaí. Um homem foi preso no local.