Publicado em 18 de dezembro de 2015

A jornada de Helena e Giuliano em busca de uma filha ilustra a angústia de quem está na fila para adotar: entraves burocráticos e jurídicos mantêm afastados candidatos a pai e crianças sem lar

textos

Letícia Duarte

leticia.duarte@zerohora.com.br

imagens

Carlos Macedo

carlos.macedo@zerohora.com.br

 

design

Hélène Boittelle

Diogo Perin

Produção

Greyce Vargas

Edição

Ticiano Osório

 

Em 2 de novembro de 2010, quando foram morar juntos, a professora de educação física Helena Bolognini Sisson, então com 36 anos, e o técnico de informática Giuliano dos Santos, com 29, decidiram montar um quarto para a filha que ainda não tinham. Sonhando com sua existência, pintaram as paredes de lilás, revestiram os armários com desenhos de flores e bonecas, encheram a estante sobre a cama com livros infantis. Queriam esperá-la com tudo pronto.

Sabiam que essa gestação seria atípica. Quando chegasse a hora, em vez de dar à luz em um hospital, iriam para um abrigo. Sua filha estaria entre as 1,5 mil crianças acolhidas em Porto Alegre, vítimas de abandono, maus-tratos ou negligência da família de origem. Imaginavam que, ao entrarem com os papéis se candidatando a uma adoção, tudo seria muito rápido.

Cinco anos depois, em novembro de 2015, o quarto lilás montado num condomínio da zona sul da Capital ainda estava vazio.

Gestada entre os escaninhos da burocracia e da falta de estrutura do Poder Judiciário para dar conta da demanda de processos familiares, a espera se revelou bem mais longa do que Helena e Giuliano previam. Depois de formalizarem sua intenção, em maio de 2012, levaram um ano apenas para serem habilitados oficialmente a uma adoção. Mais dois anos e meio até receberem o telefonema que mudaria suas vidas.

Não que faltem crianças. Somente em Porto Alegre, existem 278 crianças e adolescentes aptos à adoção e cerca de 500 ações de destituição do poder familiar em andamento, enquanto 457 casais aguardam na fila por um filho. Apesar de a lei prever que o tempo para a destituição seja de 120 dias, há processos tramitando por mais de cinco anos. Embora a legislação estabeleça dois anos como prazo máximo de abrigamento, na prática muitos não têm previsão de saída.

– Essas crianças estão crescendo em casas de acolhimento, e de forma desnecessária. Isso é inadmissível, porque a primeira infância dessas crianças está sendo perdida – preocupa-se a promotora da Infância e da Juventude da Capital, Cinara Dutra Braga, lembrando que no Cadastro Nacional de Adoção há 34 mil pais dispostos a adotá-las.

 

Helena e Giuliano mobiliaram e pintaram de lilás o quarto em 2010, antes mesmo de entrarem na fila para adoção. Achavam que o processo seria rápido

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