Em 1º de agosto de 2015, Helena e Giuliano chegam angustiados ao auditório da Livraria Cultura, no shopping Bourbon Country. Assim como outros pais, estão ali naquele sábado de manhã para compartilhar dilemas da fila da adoção. É a segunda vez que participam de um encontro do Instituto Amigos de Lucas, uma organização não-governamental que acompanha pais na fila da adoção e incentiva adoções tardias.

Os assentos são preenchidos rapidamente, com mais de 80 interessados. Enquanto os participantes se acomodam, algumas crianças correm pelo chão acarpetado, num sinal de que essas gestações prolongadas às vezes têm final feliz.

O microfone passa de mão em mão, para que todos se apresentem e contem sua história. Quando chega a vez de Helena, ela embarga a voz. Conta, comovida, que meses antes se “afeiçoou” a uma criança abrigada, que havia conhecido por ser aluna da escola onde trabalha. Uma menina negra de seis anos e sete meses, afastada da família desde os quatro anos. Ao buscar informações, soube que a menina ainda não estava apta para a adoção porque estavam tentando reinseri-la mais uma vez em sua família de origem.

– Essa menina vai morrer no abrigo. As pessoas lá não estão olhando a criança, estão olhando um número de processo. Estou num momento de ódio – desabafa Helena, com lágrimas nos olhos.

Giuliano e Helena reuniam no quarto vazio presentes recebidos de amigos e livros com histórias que pretendem contar à filha

O relato emocionado não é o único do grupo. Ao longo de toda a manhã, indignação e esperança se intercalam na fala dos participantes. Entre um depoimento e outro, a presidente do Instituto Amigos de Lucas, Rosi Prigol, avisa que o tempo médio de espera para quem quer crianças de zero a três anos está em oito anos. Se a longa espera por bebês já é imaginada, a dificuldade que outros candidatos com perfis mais amplos vêm enfrentando causa ainda mais espanto.

Um dos depoimentos emblemáticos é o de Sonia, uma morena sentada na primeira fila do auditório da Livraria Cultura.

– Queremos uma menina. No começo, colocamos no perfil até os seis anos de idade, mas aí a gente viu que estava demorando muito e acrescentou até os oito. Como faço curso de intérprete de Libras, coloquei que poderia ser surda, e poderia ter irmãos também. Mas estamos há seis anos esperando – conta a moradora de Cachoeirinha, ao lado do marido, Fabrício.

Ao ouvir a história, a presidente do Instituto perguntou se Sonia e Fabrício estariam dispostos a viajar para adotar uma criança. Inconformada com a demora dos processos de adoção em Porto Alegre, Rosi começou a contatar juizados da infância de outros Estados e criou uma espécie de “lista paralela” de adoções. Ao microfone, explica seu trabalho aos menos familiarizados.

– A gente foi muito criticada pelo fórum de Porto Alegre por buscar pais para as crianças disponíveis para adoção. Diziam que estávamos tentando furar a fila, que estávamos prejudicando o trabalho deles. Só que, de 2009 para cá, conseguimos 27 adoções fora de Porto Alegre pela nossa busca ativa. E em Porto Alegre neste ano foram 17 casos de adoção. É muito pouco. As crianças hoje nos abrigos são uma poeirinha embaixo do tapete que ninguém enxerga, elas não queimam colchão, não fazem rebelião. A gente tem que fazer alguma coisa enquanto sociedade.

Como exemplo de uma conquista, Rosi aponta para Rafael e Denise, sentados ao fundo do auditório, ao lado de seus dois filhos adotivos, de cinco e sete anos.

– Eles foram buscar as crianças em Divinópolis, Minas Gerais. Ficaram 15 dias lá e voltaram com as crianças. Nos outros Estados, os juízes pensam diferente: veem se a criança foi retirada (da família), chamam alguém que está na fila (da adoção) e aí corre junto processo de destituição familiar e de adoção. Aqui, eles esperam até o fim para destituir a criança – critica.

Por causa de seu trabalho para acelerar as adoções, o Instituto Amigo de Lucas foi convidado a participar de uma reunião com o Conselho Nacional de Justiça em Brasília, relatando sua experiência. Naquele sábado, Rosi convida aos participantes a colaborarem com uma vaquinha para ajudar na alimentação e na hospedagem de sua viagem, prevista para setembro.

– De alguma forma, chegou lá em Brasília essa nossa sementinha, acho que a gente abriu um caminho. Estamos começando a produzir o que queria, desacomodar aqueles que estão lá no seu cantinho acomodados, achando que são o máximo, e as coisas não acontecem. Eu vou para esta reunião representando o Rio Grande do Sul, no sentido de que a gente consegue fazer mais adoções do que o Judiciário daqui. Isso é ótimo, mostrar que uma ONG sem dinheiro pra nada, que não sobrevive com dinheiro do Estado, está fazendo melhor do que o Judiciário. Com respaldo lá de cima, as coisas vão mudar – discursa Rosi.

Apesar da fala otimista, Helena e Giuliano deixam o auditório desanimados. Ao ouvirem tantas histórias de casais esperando há anos por grupos de irmãos, pensam que nunca vão conseguir adotar.

– É uma espera injusta. Tem casais de um lado que esperam e tem crianças que estão esperando – revolta-se Helena.

Quando chegam em casa e reencontram o quarto vazio, pensam em desmontá-lo, transformar o espaço em uma sala de jogos e pegar mais 10 gatos para criar.

– Chega uma hora que cansa – frustra-se Giuliano.

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