Por volta das 10h de 29 de outubro de 2015, uma quinta-feira, Helena liga para Giuliano soluçando. Sem conseguir entender o que a mulher balbucia entre espasmos de choro, o técnico de informática pensa que ela foi vítima de um assalto.

– O que aconteceu? – preocupa-se.

Entre golfadas, Helena explica. Acabara de receber a ligação que esperavam há quase três anos. Era do juizado. Diziam que havia uma menina de pouco mais de três anos para conhecerem. Queriam saber se ainda estavam interessados.

Helena havia começado a chorar antes do fim da primeira frase. Assim que a interlocutora disse que era do fórum. Com as pernas amolecidas, sentou no chão pelo impacto da notícia. O coração de mãe já se acusava. Só podia ser a sua filha.

Marcam de se encontrar no oitavo andar do fórum, às 15h30min, para conversar com a equipe técnica da Vara da Infância e da Juventude e receber mais informações. Chegam 10 minutos antes do horário, ansiosos para conhecer a filha gestada em pensamento por tanto tempo. Ao saírem, quase uma hora depois, têm os olhos marejados.

– Temos uma filha! – comemoram.

Caminham pelos corredores do fórum abraçados ao dossiê de 19 páginas que reúne as primeiras informações da menina.

– Ela tem três anos e oito meses!

– Ela é uma indiazinha!

– Ela nasceu com HIV, mas negativou!

– Ela é tão linda! – exibem, mostrando a página onde estão coladas duas fotos da menina.

Na primeira, aparece de chuquinha amarrada no alto da cabeça, com bochechas rosadas salientes. A segunda mostra sua silhueta em crescimento num vestido cor-de-rosa, com a boca encoberta por um copo de plástico.

– Ela gosta de se fantasiar de Cuca na escola e assustar os coleguinhas! – riem, como qualquer pai contando os feitos de seu rebento.

Por orientação do Juizado da Infância e da Juventude, ZH não identifica a menina nesta reportagem porque o processo de adoção ainda não está concluído.

Em 29 de outubro de 2015, vem o aguardado telefonema. No fórum, eles recebem um dossiê de 19 páginas: havia uma menina de pouco mais de três anos para conhecerem

Na conversa, a assistente social disse que teriam um tempo para pensar se queriam realmente conhecer a menina.

– Podemos responder que sim agora? – adiantou-se Giuliano

Não queriam prorrogar aquela espera por nem mais um dia. Para eles, aquela já era sua filha.

Assim como eles aguardavam há tanto tempo, a menina parda de olhos amendoados e cabelos negros também esperava por eles. A sentença com a destituição do poder familiar, que a tornou apta a adoção, saíra há quase um ano, em 9 de dezembro de 2014, mas mesmo assim ela permanecia no abrigo, onde vive acolhida desde que deixou o hospital onde nasceu, em fevereiro de 2012. A assistente social disse que Helena e Giuliano eram o “terceiro ou quarto” casal a ser chamado. Os primeiros estavam há tanto tempo esperando que desistiram.

Sentado num banco do oitavo andar do fórum, Giuliano pega o telefone e liga para os pais.

– Sabia que vocês vão ser avós?

Ele ainda não havia contado nada a eles para não criar expectativa. Agora que tudo estava confirmado, dividia o choro com a família, enquanto Helena atualizava informações para o grupo de WhatsApp que criou com as amigas.

Em cinco dias, devem entregar um álbum com fotos dos dois para que, por meio dele, sejam “apresentados” para a menina. Depois desse primeiro contato, será agendada uma visita presencial. Sonhando com o primeiro abraço, os dois disputam o dossiê. Seguram no colo aquelas folhas de ofício como se já ninassem a filha recém chegada.

– Se tudo der certo, até o Natal ela vai estar com a gente – vibra Helena.

Horas depois, em casa, Helena conta a novidade para os amigos no Facebook: “Não tem palavras que descrevam o que estamos sentindo... Um telefonema muda tudo. Dá a possibilidade de dar fim a uma longa espera. De dar sentido a lugares vazios e coisas sem utilidade... Enche a gente de abraços e carinhos. Enche os olhos de lágrimas o tempo todo e transborda o coração de AMOR! Iniciando a vinculação semana que vem… Aprendendo a ser mãe e pai!”.

Como trilha sonora, compartilha na postagem uma música do Nando Reis que resume a história de sua espera – Sou Dela: “Esperei por tanto tempo, esse tempo agora acabou. Demorou, mas fez sentido, fez sentido que chegou. Eu pensei que fosse nunca, mas agora já se foi. Nunca mais parece triste, triste eu era, agora passou. Porque eu estou com ela. Sou dela... sem ela… Não sou

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