Giuliano sacode as pernas inquietas enquanto espera na calçada, protegido da chuva sob uma marquise, na Rua Siqueira Campos, no centro de Porto Alegre. Helena chegará em minutos com o carro para seguirem ao abrigo. São 13h40min de 5 de novembro de 2015, uma quinta-feira. O dia de conhecer a filha.

– Meu coração vai explodir – confessa o técnico de informática, procurando a mulher entre os carros.

Está se segurando para não chorar. Na véspera, enquanto falavam da expectativa, ele e a mulher lacrimejavam abraçados, sentados na cama do quarto lilás.

– Não sei como é ter um filho, mas a sensação que estou tendo de ter essa criança é impressionante – descrevia Giuliano, secando o rosto com as mãos.

Vinham chorando tanto nos últimos dias que Helena já tinha estabelecido uma meta: teriam que parar de chorar até as 10h daquela manhã.

– Senão, a gente vai chegar com a cara toda inchada e ela vai dizer: “Esses dois eu não quero, esses dois que só choram” – brincava, intercalando choro e riso.

Ansiosos, torciam para que a filha gostasse deles tanto quanto eles já gostavam dela.

– Só de ler o dossiê a gente já imagina que ela é a melhor criança do mundo. Pode não ser a melhor, mas é a nossa criança! Só não vai dar certo se ela não gostar da gente. A gente vai ter que a cada dia conquistar ela para que ela seja a nossa filha que a gente acha que ela já é – refletia Helena.

Ela estava indecisa sobre o que vestir nesse dia. Qual seria a roupa de mãe? Deveria ir mais arrumada, para que a filha a achasse mais bonita? Ou ir “escabelada” como de costume, para que ela já tivesse uma imagem mais real?

Quando chega para buscar o marido, Helena veste calça e jaqueta jeans. Na dúvida, amarrou o cabelo. As colegas da escola recomendaram que tirasse a borrachinha que prende o aparelho nos dentes, “para não parecer vampira”. Ela tirou.

Agora, a caminho do tão esperado encontro, agendado para as 14h30min no abrigo, conversam pouco. Helena cede lugar ao marido na direção. Durante o trajeto, cadencia o silêncio tenso dando batidinhas com a ponta dos dedos na perna direita dele.

Estacionam diante do abrigo em uma rua arborizada e silenciosa no bairro Partenon. Seguindo a nova política de casas lares, a residência gerenciada pela Fundação de Proteção Especial do Estado parece mais uma da vizinhança, sem fachada especial. Na chegada, Helena e Giuliano são recepcionados por educadores sociais, que se revezam em plantões para exercer funções de pai e mãe para as nove crianças e adolescentes que vivem ali. Assim que cruzam o portão, uma menina vem correndo para espiá-los. Seria ela?

Era, mas quando eles se aproximam, a pequena fica ressabiada e senta no colo de um monitor.

– Tu sabe quem são eles? – pergunta o funcionário do abrigo.

De vestido rosa da Polly, legging e botas da mesma cor, ela diz que sim com a cabeça. Helena pergunta se ela quer sentar no colo dela, e a menina se aproxima timidamente, recebendo deles um livro e um gatinho de pelúcia. Com os presentes nas mãos, pede para Helena contar a história do título: Amigos Improváveis. Todos estão um pouco envergonhados, tentando descobrir como estrear nos papéis de pais e filha.

– Tu já conhece a gente? – arrisca Giuliano.

Ela diz que sim, e sai correndo mais uma vez para os fundos do abrigo. Volta trazendo o álbum que recebeu dias atrás de monitores. O álbum com fotos de Helena, Giuliano e dos quatro gatos.

– Quem é esse?

– Meu pai.

– E essa?

– Minha mãe.

E assim, naquela tarde chuvosa, uma família nasce.

Em 13 de novembro de 2015, o casal conquista a guarda provisória e busca no abrigo do Partenon a filha para um "estágio de convivência"

Em vez de choro, o parto é seguido por gargalhadas. A menina sai correndo eufórica pelo piso de parquê abraçada no gatinho de pelúcia que ganhou, falando alto. Sabe que é o centro das atenções. Em vez de se assustar com os 1m94cm de altura de Giuliano, como ele chegou a temer, descobre nos seus ombros uma fonte inesgotável de diversão.

– Na cacunda, papai, na cacunda! De novo, de novo!

Sua risada ecoa pela sala de estar, num “Hihi-ri-hi-hi-riiiiiihi” estridente. Enquanto a menina reaprende a ser filha, outros abrigados cercam os adultos que circulam pela casa, em busca de atenção. Quem sabe, de uma família. Ao ver a repórter e o fotógrafo de ZH, imaginam que seria outro casal interessado em adoção. Puxam assunto. Um menino de dois anos abraça a perna do fotógrafo.

– Papai, papai! – chama, antes de ser carregado no colo de volta para dentro por um funcionário.

Na sala, uma equipe com psicóloga e assistente social continua acompanhando a aproximação de Helena e Giuliano com a filha. Para estreitarem a vinculação a partir de agora, combinam que a convivência entre eles será progressiva.

Na tarde seguinte, de sexta-feira, já poderão fazer um breve passeio com a filha no entorno do abrigo. No final de semana, ficam autorizados a passear com ela onde quiserem, desde que a tragam de volta para dormir à noite.

Ao fim da visita, a filha acompanha os novos pais até o portão. Dá um beijo na bochecha de cada um e se pendura na grade, vendo-os atravessar a rua para entrar no carro.

– Tchau, mamãe! Tchau, papai!

A despedida não é melancólica. A menina sabe que eles vão voltar.

– Tchau, filha, até amanhã! Fica bem comportada na escola – abana Helena.

O casal vai embora feliz, achando a filha ainda mais encantadora do que imaginava.

– Qual é a sensação agora? – pergunto, na saída.

– Que a gente é pai e mãe! – sorriem.

– Só me dá uma dor pelos que ficam – completa Helena, sem conseguir permanecer indiferente aos olhares carentes que espreitavam à volta.

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