Afilha já está à espera com a mochila “Little Pig” e os ursinhos que lhe fazem companhia na cama quando Helena e Giuliano aparecem para buscá-la, na manhã de 13 de novembro de 2015, sexta-feira. Seu mundo cresceu. Em uma semana, ganhou também novos avós e quatro gatos. Já tinha passado o domingo em família no Parque da Redenção, andado na cacunda até cansar, assistido a teatro de fantoches enquanto comia pipoca e ria tão alto que a cabeça caía para trás, ganhado balões que apontavam para o céu. Tinha andado pelo shopping e ficado admirada em ver como tudo era tão grande. Experimentado aveia pela primeira vez e achado que era “um chocolate diferente”. Andava olhando para cima, arqueando o pescoço, para dar conta de tanta novidade. No fim de cada passeio, voltava para o abrigo.

– Por que vocês vão embora? – perguntava para Helena e Giuliano, a cada tchau.

A partir desta sexta-feira, a palavra tchau ganharia novos significados.

Enquanto Helena e Giuliano conversam com a equipe técnica sobre a rotina da filha (“ela foi acostumada a receber a comida na boca”, “ela gosta de salada de tomate”, “ela não fica no escuro, dorme com a TV ligada”, “ela é bem dengosinha, mas acho que com atenção só pra ela vai resolver”), a menina olha para as mãos de Helena e pergunta:

– O que é isso?

– É o papel que diz que tu pode ir lá pra nossa casa.

Havia chegado o momento de se despedir do abrigo, não mais dos pais. Helena e Giuliano tinham acabado de chegar do Foro, onde receberam a autorização de guarda provisória assinada pela juíza Sonáli da Cruz Zluhan, da 2ª Vara da Infância e da Juventude da Capital. Seria uma espécie de “estágio de convivência” até a guarda definitiva, quando poderão registrá-la como filha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deitada no sofá coberto por uma capa vermelha, a menina contempla seu próprio rosto duplicado em fotos 3x4. Examina a própria identidade. Como a vinculação foi rápida, os técnicos avaliaram que não era mais preciso retardar o processo de adoção. Agora, com a mudança de casa, a menina vai ganhar também um novo nome. Helena e Giuliano decidiram manter seu registro original na sua certidão, como uma memória de quem ela já foi. Mas pretendem acrescentar um novo nome na frente, como um símbolo da vida que juntos vão inaugurar. Como uma reverência a seus traços indígenas, escolheram Maya para batizá-la. Coincidência ou não, chove mais uma vez nesta sexta-feira, assim como chovia na semana anterior, quando a conheceram.

– Maya significa água – lembra Helena.

O significado é um dos atribuídos ao nome, que pode ter derivado do hebraico mayim. “Na antiga civilização greco-romana, Maya também era conhecida como a deusa da terra, da primavera e do renascimento. Acreditavam que ela era a responsável por fazer todas as plantas ganharem vida e as flores desabrocharem depois dos períodos frios do inverno, onde tudo estava sem vida e cinza”, como escreveu Helena em uma postagem na internet.

E é assim, renascidos, que os pais se sentem agora, quando poderão preencher aquele porta-retrato vazio do quarto montado cinco anos antes. E agendar o chá de boas-vindas tão aguardado, em que pretendem apresentá-la aos amigos.

– Mamãe!  Papai... olha! – diz Maya, sorridente, espalmando as mãos pintadas de giz cor-de-rosa.

– Ela tá bem feliz – observa uma educadora.

– Todos nós estamos – diz Helena. – Eu só tenho a agradecer, sei que se ela é assim é porque foi muito bem criada – elogia.

Uma adolescente de 13 anos que mora no abrigo acompanha a cena de longe, atrás de uma cerca que separa a sala de estar do corredor. Ao ver Maya se arrumando, chama a amiga que está indo embora e lhe entrega um bilhete escrito numa folha de caderno: “Eu te amo muito”.

Uma psicóloga do abrigo já tinha avisado Helena e Giuliano que, toda vez que há algum processo de adoção, a casa se agita. A cada criança que sai, aumenta a ansiedade dos que ficam. Dos nove acolhidos que vivem naquela instituição no Partenon, apenas Maya está apta à adoção. Os outros estão com situação jurídica indefinida, em processos que frequentemente se arrastam por mais tempo do que deveriam na Justiça. Apesar de a lei prever que o tempo de destituição seja de 120 dias e o tempo de abrigamento de no máximo dois anos, a realidade é outra. O caso de Maya é emblemático: chegou bebê recém nascida ao abrigo e só foi adotada com três anos e nove meses.

– Quero ir embora – diz Maya, já com a mochila nas costas, enquanto os adultos alongam a conversa.

Já era mesmo tempo demais de espera. Chegou ao abrigo com um mês de vida, saída diretamente do hospital onde nasceu, com HIV e sífilis congênita. Os cuidados médicos garantiram que se recuperasse e negativasse o vírus. Mesmo assim, sua mãe e seu pai biológicos, ambos usuários de drogas, não tinham condições de criá-la. Enquanto seu processo se alongava na Justiça, ela ia crescendo. A destituição familiar que permitiu sua adoção só saiu quando tinha dois anos e 10 meses. Como o pai biológico recorreu da decisão no mês seguinte, em janeiro de 2015, seu destino ficou em suspenso novamente. Em março, o caso foi para avaliação do Tribunal de Justiça, que só confirmou a destituição do poder familiar em julho. Ainda assim, Maya ficou mais três meses no abrigo até que Helena e Giuliano fossem chamados para adotá-la. Ficaram sabendo depois que outros oito casais foram chamados antes, mas desistiram. Alguns nem quiseram conhecer a menina pelo fato de haver histórico de uso de drogas na família de origem.

– Que bom que ela veio para gente, ficamos felizes, mas pensando nela e nas outras crianças que estão na mesma situação... é muito tempo – avalia Giuliano.

No pátio do abrigo, Maya sorri abraçada nos ursinhos de pelúcia. Atravessa o portão em direção à calçada, como quem parte para uma aventura. Viajando na cadeirinha do carro, canta em voz alta uma música que aprendeu na escola: “Borboletinha, tá na cozinha, fazendo chocolate, para a madrinha…”

Como a borboletinha, ensaia seu primeiro voo.

– Mamãe, abre a janela! Mamãe, bota música! Os gatos tão me esperando!

Às 11h41min, chegam ao Solar Campo Belo. De mãos dadas, os três abrem a porta do apartamento.

– O que tem aqui? Isso é meu? É tudo meu? – pergunta Maya, eufórica a cada nova descoberta.

Sentada no chão, pede para montar o quebra-cabeça das princesas da Disney, auxiliada pela mãe, enquanto o pai prepara o almoço. As peças de sua família começam a se encaixar. O quarto lilás tem dona.

Com vocês, Maya: menina ganhou nome indígena e foi apresentada para amigos em um chá de boas-vindas

No apartamento da zona sul de Porto Alegre, Maya brinca com um dos quatro gatos dos novos pais

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