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rtur amanheceu tomado por uma felicidade nervosa naquele 9 de março de 2015. Acordou cedo, antes das 6h, tomou banho e olhou com gratidão para a irmã e para o primo, igualmente fardados de aventais assépticos. Eles estavam prestes a devolver ao menino o ar que lhe vinha sendo roubado desde o nascimento, 11 anos atrás.

A equipe médica, ao entrar na sala de cirurgia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde faria o 36º transplante pulmonar entre pessoas vivas no Brasil, ouviu a súplica de Dionísia, uma mãe cansada da rotina hospitalar:

— Cuidem bem dos meus filhos, por favor. São os únicos que me sobraram.

A fibrose cística que deteriorou o pulmão direito de Artur e comprometeu severamente o esquerdo, condição que não lhe permitia andar cinco passos sem cansar, é a mesma doença que, no contrassenso da vida, silenciou dois filhos de Dionísia e José, ambos comerciantes em Santa Cruz do Sul. Cássio, o primogênito, não chegou a completar cinco meses de vida. Túlio, autista, morreu aos 14 anos, sem que a possibilidade do transplante tivesse sido cogitada.

Ninguém queria o mesmo destino para o caçula, que assistiu ao irmão perecer e se tomou de tristeza e de medo da morte.

— A gente inventou que Túlio havia morrido do coração, mas tenho certeza que o Artur não acreditou — relembra Débora, a irmã doadora.

 

Colocar Artur em uma lista de espera por doador anônimo era inviável. A situação era clara para o cirurgião torácico José Camargo, chefe da equipe médica que realizou a tripla operação — uma jornada de 12 horas.

— A dificuldade de se conseguir doadores de tamanho compatível com aquela mirrada caixa torácica tornou evidente que não viveria tempo suficiente para esperar — disse o médico, que relatou o caso em uma de suas colunas no caderno Vida, de ZH.

Foi a dentista de Dionísia quem acendeu uma luz de esperança na família Müller. Comentou sobre uma conhecida que havia sido submetida a um transplante de pulmão graças à doação de dois irmãos, que continuavam vivos e com saúde. Dionísia e José procuraram a Santa Casa — e a confirmação de que o transplante intervivos era possível foi recebida com euforia. Não sem o lamento de não haverem sabido disso antes de se tornarem irreversíveis as situações de Cássio e Túlio.

O primeiro contratempo apareceu rápido: Dionísia tinha asma e José não compartilhava o tipo sanguíneo de Artur, dois impeditivos para a doação.

Então, testaram Débora, 23 anos, a única dos quatro filhos a nascer livre da fibrose cística, uma doença hereditária que acomete um a cada 4 mil nascidos no Estado, causando um acúmulo de muco denso nos pulmões e a míngua, pouco a pouco, da função respiratória.

— Eu já tinha visto um irmão morrer e não aguentaria perder outro. Não pensei meio segundo quando soube que eu era compatível: eu iria doar — conta a irmã.

Ao contrário de um transplante de rim ou de fígado, em que só um doador é suficiente, o de pulmões exige dois. Quem seria o outro? Ligaram para todos os parentes — até que chegou ao ouvido de Moisés Morais que José, seu primo distante, tinha um filho entre a vida e a morte. Consultou a mulher sobre o desejo de salvar a vida do menino. E ouviu:

— Pensa se fosse um filho teu.

Não restaram dúvidas. Moisés sufocou o medo. Precisou também encarar a Justiça: o parentesco de quinto grau que se estabelecia entre ele e Artur tornava necessária uma autorização judicial. No transplante intervivos, o limite legalmente aceito é de até três graus — uma medida para impedir o tráfico de órgãos. O juiz, comovido com a história de desprendimento, despachou decisão favorável à cirurgia em menos de 24 horas. Somou-se a esta vitória a alegria de os Müller, também na Justiça, conseguirem que o plano de saúde cobrisse o tratamento, avaliado em R$ 224 mil.

Eu tô feliz. Quero brincar de esconde-esconde, andar mais de bici. E não quero mais saber de elevador, só de escada

Quinta-feira, 19 de março de 2015. Artur sai da UTI e vai para o quarto: pergunta quando vai poder tomar Coca-Cola e recusa o bombom oferecido por uma tia porque ela não passou álcool-gel nas mãos.

Sábado, 4 de abril de 2015. Artur realiza um antigo desejo de criança do interior: anda de "bici". À noite, Dionísia repete um ritual recente e escondido: espera o caçula adormecer, senta-se ao lado da cama e conforta-se em vê-lo respirando, ritmada e serenamente, pela primeira vez na vida. Satisfeita, ela, que não se lembrava da última vez em que havia tido uma boa noite de sono, também dorme.

Quarta-feira, 8 de abril de 2015. Exatos 30 dias após o transplante, encontram-se Artur, Débora e Moisés, uma tríade de ternura que compartilha o mesmo formato de cicatriz: um corte grande na altura da costela. O pequeno respira um pouco pela irmã, um pouco pelo primo — e os dois veem em suas marcas a vida de outra pessoa.

— Eu tô feliz. Quero brincar de esconde-esconde, andar mais de bici. E não quero mais saber de elevador, só de escada — diz o guri de sorriso tímido.

Artur
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