Corpo

marcado

o atrair olhares tortos de curiosidade ou estranhamento, Berta só conseguia se fazer uma pergunta:

— Será que todo mundo me enxerga como se eu fosse feita de retalhos?

Não havia nada de contagioso em relação ao seu corpo, modificado por uma queimadura severa, que transformou 75% da sua pele em cicatriz. Tinha nove anos e brincava na frente de casa com o irmão de seis. Na adrenalina de fazer algo proibido, decidiram criar uma bombinha caseira. Quando Berta riscou o palito de fósforo dentro de uma latinha de verniz, a explosão beliscou de leve o braço do irmão, mas a abraçou por inteiro.

— Foi uma queimadura tão extensa e profunda que meu cérebro apagou a dor — diz ela.

Alertada de que algo grave havia acontecido, a mãe desceu as escadas correndo, pegou a primeira toalha que viu em um varal e abafou o corpo da filha, tomado pelas chamas. Berta ficou um mês internada no Centro de Terapia Intensiva do Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, onde recebe tratamento até hoje, 25 anos depois do acidente, do qual se lembra data e hora: 4 de dezembro de 1989, 13h30min.

Uma malha compressora utilizada para evitar queloides virou um anexo do corpo de criança. Teve de, assim, voltar a encarar a escola. Antes de as aulas da quarta série terem início, a mãe fez uma reunião com os professores para que eles orientassem os pais dos coleguinhas: naquela sala de aula haveria uma menina que se recuperava de um acidente e que precisava de carinho.

A compreensão das crianças tornou o ambiente acolhedor para Berta, apelidada de Manu por conta de seu segundo nome, Emanuela. Ao chegar à adolescência, quando qualquer desajuste já é motivo de bullying e exclusão, estava preparada:

— Eu não tinha como esconder minhas cicatrizes, então não estava nem aí.

 

Preocupou-se quando, formada em um curso técnico em Química, começou a ser rejeitada em entrevistas de emprego. Não eram seus predicados profissionais a primeira coisa que os chefes queriam saber, mas, sim, as causas das suas marcas. Nesse período, sua alma também se machucou quando era acusada de imprudência:

— Tinham medo que eu colocasse fogo no laboratório. Mas, pelo amor de Deus, eu era só uma criança.

Decepcionada, decidiu mudar de ramo. Percebeu que sua prateleira estava cada vez mais cheia de literatura e optou por transformar o hobby em profissão. Graduou-se em Letras, com direito à presença de seu médico na cerimônia de formatura. Hoje, Berta se prepara para a seleção de mestrado e se distrai brincando de culinária no apartamento onde mora com o marido, em Gravataí — bolos e pudins são suas especialidades. Acende fósforos sem medo.

A calmaria é fundamental para que ela responda bem ao tratamento ao qual é submetida há sete anos, à base de expansores de tecido. São produtos de silicone que, implantados no corpo, fazem a pele se espichar e crescer como nova, mas é preciso evitar esforços físicos. Foi o que possibilitou a recuperação do pescoço de Berta, por duas décadas retraído em função de um enxerto.

— Imaginem ficar 20 anos sem poder olhar o céu. Quando eu consegui fazer isso, foi uma felicidade tão intensa, mas tão intensa, que eu chorei de emoção. Chorei muito — relembra.

Nada me derruba,

porque eu sou irritantemente positiva.

Inspiração para os amigos, Berta não gosta quando percebe olhares de piedade. É confiante — e, por causa dessa característica, com frequência é convidada para visitar pacientes internados nas Unidades de Queimados com lesões parecidas com as suas. Já ajudou, por exemplo, pessoas que tentaram se matar ateando fogo ao próprio corpo. Não que seja fácil lidar com as cicatrizes. Berta só teve coragem de vestir um biquíni e ir à praia em 2004, aos 24 anos, e já chegou a se identificar com a noiva de Frankenstein, durante uma sessão de cinema. Questionava-se, antes de dormir, se, assim como a personagem, seria um monstro. Até que um dia se olhou no espelho e tomou para si o que define como seu atributo principal:

— Nada me derruba, porque eu sou irritantemente positiva.

 

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