Amor

doentio

tio não se conformava em ver a sobrinha naquela condição. Pegou cera quente, passou nas pernas dela, esperou secar e puxou com força, como nas mais dolorosas sessões de depilação. Não fez nem cócegas. Era a confirmação de um diagnóstico que ninguém se permitia acreditar: aos 17 anos, Carolina estava paraplégica.

A garota estava dentro de casa quando sentiu o tiro alcançar suas costas. Foi o cúmulo do amor patológico que um rapaz, dois anos mais novo, nutria por ela. Não fosse "dele", Carolina "não seria de mais ninguém".

Aos seis meses de namoro, "o outro" (Carolina se refere a ele assim, sem jamais dizer o nome) já impunha pequenas violências, embora nunca tenha batido nela. Não admitia que Carolina andasse a pé, sozinha, da parada do ônibus até a casa, um trajeto de menos de 400 metros. Era inadmissível, para ele, que ela fosse à padaria desacompanhada. No ônibus, fazia escolta para que ninguém encostasse na namorada. Quando a mãe recebia visita de algum amigo, "o outro" a trancava no quarto.

— Eu era uma menina cheia de vida e aquela situação estava me cansando, o que abriu uma porta dentro de mim para que eu começasse a gostar de outro — conta ela, hoje aos 33 anos.

 

Marcelo era colega de trabalho e já dava sinais, há algum tempo, de que, se Carolina fosse solteira, ele toparia ultrapassar a linha da amizade. Todos os dias, chegava com um presente — um chiclete, que fosse. Descobriu nele o homem ideal. O carinho que dava a ela supria o não carinho que recebia "do outro".

A decisão lhe pareceu natural: terminou com o namorado e, sentindo-se livre, imediatamente se rendeu ao novo romance. Não sabia, no entanto, que a relação duraria apenas quatro dias.

No domingo de Páscoa, deixou-o dormindo e foi ao mercado comprar ingredientes para o almoço. Foi a última vez que caminhou. Na volta, deixou as compras em cima da mesa da cozinha e entrou no banheiro. A sombra do ex-namorado lhe palpitou o coração de pavor.

— Vi que ele estava armado e me assustei, porque ele sabia atirar. Aprendeu com o pai, aos sete anos. Mandei ele ir embora. Não queria que Marcelo soubesse do que estava acontecendo.

Não adiantou. Ele acordou ao ouví-la, em pânico, trancar todas as portas e janelas. Desatinada, acabou esquecendo de uma: a do quarto. Foi quando "o outro" voltou e a fez refém, com uma arma apontada na testa, exigindo o amor que ela não mais estava disposta a dar. Em uma decisão pouco pensada, Carolina conseguiu se desvencilhar dele e correu. Ele atirou.

Com uma bala na coluna, ela caiu e fechou os olhos para não presenciar o que já pressentia: Marcelo levar dois tiros e morrer na hora. Em seguida, o atirador se matou, não sem antes escrever uma carta: "Perdão. Amava a Carolina e estava sofrendo".

Carolina não sabe como sobreviveu. Por dias, foi enganada pelos médicos e familiares de que Marcelo estava bem em outro hospital. Ouviu sussurrarem que ela não tinha mais os movimentos das pernas. Teve pesadelos com "o outro". Sentiu a presença de Marcelo, intuiu sobre sua morte e debruçou-se sobre a culpa. Ao receber alta, 20 dias depois, ainda levou um mês para voltar à casa onde tudo havia acontecido. Faltava-lhe coragem. Carolina, que não seguia nenhuma religião, se viu recorrer a um médico espiritual, que disse:

— A missão de Marcelo na vida foi resgatar a tua.

Aquilo a confortou. Finalmente conseguiu aceitar o diagnóstico da lesão medular e alcançar a maturidade para encarar a sua grande cicatriz:

— Me bota na cadeira de rodas que eu hoje vou cozinhar um arroz com linguiça — anunciou à mãe.

A vida se tornou outra dali em diante. Carolina passou a frequentar um grupo de apoio a pessoas com deficiência, onde conheceu um outro homem, cego, de cujo namoro, que durou dois anos, nasceu um filho. Robert, um ano e sete meses, já aprendeu a subir na cadeira de rodas quando quer o colo da mãe. Moram só os dois em uma casa no bairro Belém Novo, em Porto Alegre.

— Ele é tão ativo que quase faz eu caminhar — brinca.

Eu lembro da cicatriz nos momentos mais complicados, quando se acentuam as dificuldades que enfrento por ser cadeirante.

Carolina tem a cicatriz do tiro nas costas, perto da nuca. Agradece por não ter de enxergá-la todos os dias — fica mais fácil não viver do passado. Mas não nega: a marca é a tatuagem da sua própria história.

— Eu lembro dela nos momentos mais complicados, quando se acentuam as dificuldades que enfrento por ser cadeirante. Lembro dela, por exemplo, quando sinto dor, o que é quase todos os dias. Lembro dela quando meu filho cai e não consigo pegá-lo do chão, porque tenho uma deficiência. E essa deficiência só existe por causa dessa cicatriz.

Esvoaçando seus longos cabelos crespos e acobreados nos percursos de cadeira de rodas pela cidade pouco acessível, terminou um curso técnico em informática e sonha em fazer faculdade de Direito ou Comunicação Social, um desejo aflorado pela vida de ativista que atualmente leva. As mazelas ficaram para trás, sem qualquer ajuda psiquiátrica. Mas ainda resta um item na lista de pendências: visitar o túmulo de Marcelo.

— Quinze anos depois, ainda não consegui.

Artur
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