O que lhe falta?

izem que é difícil não apelar às forças superiores do universo quando se está passando por problemas de saúde. Católicos, Germano e seus pais já haviam batido na porta de terreiros, consultado pais-de-santo, rezado a outros deuses — aos 17 anos, sua juventude seria comprometida por um câncer raro?

Germano tinha sarcoma de Ewing, tumor maligno e perigoso que, no mundo, acomete apenas 200 pessoas por ano. Submeteu-se a quatro sessões de quimioterapia para regredir o câncer na perna direita e tornar possível uma cirurgia de remoção. Respondia bem ao tratamento traçado para combater a doença que lhe suspendeu os estudos em Estância Velha e as noites de farra em São Leopoldo, onde a irmã morava. No hospital, porém, os médicos constataram que o sarcoma já abraçava as veias, impedindo a circulação do sangue — o que não fora detectado nos exames. O cirurgião interrompeu a operação e alcançou aos pais a autorização para amputar, com recomendação de que assinassem. O pai disse:

— Não. Quem vai decidir isso é ele.

 

O adolescente fora alertado sobre o risco de ficar sem o movimento do pé direito. Mas não sobre despertar com uma parte do corpo a menos. Ao receber a notícia de que a perna não tinha salvação, o menino forte se entregou ao choro, inconformado, querendo voltar a acreditar no diagnóstico tranquilo dos primeiros traumatologistas:

— Não era só uma distensão, um mau jeito?

A amputação foi marcada para a semana seguinte. Germano tinha sete dias para amadurecer a ideia de adentrar a maioridade como deficiente físico. Nesse meio tempo, a família, em busca de respostas, resolveu levá-lo a uma missa, que terminaria com uma sessão de bênçãos. Na hora de fazer seu pedido, o jovem preferiu ir além da força do pensamento e escrever um bilhete ao padre: “Vou perder a perna por causa de um câncer. Não queria que isso acontecesse. Mas, se eu perder, gostaria de aceitar isso da melhor maneira possível”.

— E então eu fui para a cirurgia e acordei resignado. Aquele bilhete foi um momento determinante — relata.

Germano passou pelo drama da dor fantasma — o membro não está mais ali, mas dói como se estivesse. Para conseguir dormir, deitava de bruços e se concentrava no carinho da mãe, que esfregava a parte de trás do que havia sobrado de perna, fazendo-o assimilar o novo tamanho — o corte foi feito acima do joelho. Para matar qualquer célula maligna que tivesse sobrado, foi submetido a outras 13 sessões de quimio. Seis meses depois, colocou a primeira prótese. Uma simplesinha.

— A gente tem de aprender a dirigir com um Fusca, não dá para começar com uma Ferrari — brinca.

Reaprendeu a andar, a se equilibrar e a conviver com a coceira que às vezes sente no pé biônico (fenômeno neuroquímico ainda não totalmente explicado). Em 20 anos, tornou-se funcionário público, bacharel em Direito, marido, pai e Papai Noel, no Instituto do Câncer Infantil.

— Mesmo depois que a gente deixa de acreditar, o Papai Noel segue sendo um símbolo de esperança. Ainda mais para quem já superou um tratamento pelo qual aquelas crianças ainda estão passando.

Considera a prótese a sua cicatriz — e a vê como um símbolo de vitória. Não perde a oportunidade de fazer da sua deficiência motivo de descontração. Dia desses, a turma do trabalho o convidou para jogar bola.

— Não dá, gente, sou muito perneta.

— Capaz, cara, a gente também é amador.

— Cês não entenderam, eu sou perneta mesmo — disse, puxando a calça que escondia a perna de metal, para o constrangimento dos amigos, que logo entraram no espírito bem-humorado do colega.

Hoje eu faço mais coisas do que fazia antes.

Falam por aí que quando não pode a sensação é mais legal, né?

Há restrições, mas Germano é ativo. Joga vôlei na posição de levantador, fixo na rede. Nas peladas com o filho de nove anos, não pode driblá-lo, mas um chute a gol satisfaz a brincadeira. Toma banho de mar, embora não possa se arriscar com o menino no fundão, pois seu equilíbrio não é total. A prótese, semelhante à dos atletas paraolímpicos, permite correr com velocidade. Anda de bicicleta e dirige normalmente — recusando-se a ocupar as vagas especiais para deficientes físicos.

— Hoje eu faço mais coisas do que fazia antes. Eu ia para escola e, depois, só queria dormir, ficar na preguiça. Hoje, valorizo mais as coisas. Falam por aí que quando não pode a sensação é mais legal, né? Então…

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