Marcas

da história

regório tem 78 anos e vive praticamente isolado em uma casa escondida no pequeno Balneário Pinhal, no Litoral Norte. Não abre mão de morar em um lugar onde possa escutar o barulho do mar, embora seu ouvido direito não funcione. O som lhe acalma as vozes que parecem vir do além quando ele entra em crises de depressão, agravadas desde que a mulher morreu, dois meses atrás. Já devia ter se habituado à morte: perdeu as contas de quantos amigos foram silenciados durante a ditadura militar, da qual é um sobrevivente.

O homem de pele negra e cabelos esbranquiçados se atrapalha com a memória. Diz que tem uma deficiência mental e didática — declarou-se semianalfabeto à Comissão Estadual da Verdade, criada para apurar e revelar as graves violações a direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988. Da infância pobre em São Borja, tornou-se um veterano da Guerrilha do Caparaó, a primeira a atemorizar a ditadura (entre 1966 e 1967), e um dos protagonistas da fracassada tentativa de sequestro do cônsul americano Curtis Cutter, em Porto Alegre, no início da década de 1970.

Desiludido com o suicídio de Getúlio Vargas, a quem considerava um deus, Gregório deu início à militância política. Engajou-se no movimento estudantil, embora não frequentasse o colégio — jornais e revistas eram sua fonte de instrução. Passou a apoiar o PCdoB e, em seguida, a integrar o Movimento Revolucionário 26 de Março, grupo de esquerda cuja proposta era deflagrar uma luta armada nacional para a derrubada do regime militar.

— A gente estava preparado para a morte, porque é o que acontece quando homens armados são postos frente a frente. Mas não para ser preso. Não da forma que foi — lembra.

 

Gregório já havia cumprido pena de dois anos e meio pela participação na Guerrilha do Caparaó, e não lembra de ter sido machucado. Solto, voltou à ativa. Tratado pelo codinome de Fumaça, estava em São Paulo quando foi detido pela segunda vez, em uma armadilha. Havia sido convocado para comparecer a um "ponto" (a gíria que designava um encontro secreto), mas ao chegar deparou com uma equipe do Departamento de Ordem e Política Social (Dops) preparada para dominá-lo. As agressões começaram ali, no chão, com coronhadas, socos e chutes.

Carrega nos pulsos as cicatrizes das sessões de tortura. Nos fundos da delegacia de polícia, foi pendurado nu, com mãos e pés amarrados, e submetido a sucessivos choques elétricos. Os militares da Operação Bandeirante, centro do Exército que investigava as organizações armadas de esquerda, queriam que delatasse seus companheiros.

— Tua função aqui é contar tudo o que tu sabes. Pode ser numa boa ou no pau. Tu que escolhe — ouviu do chefe da operação.

— Mas eu negava tudo. Não levei ninguém para a cadeia. Disso eu me orgulho  — conta.

Chutes, bofetadas e pontapés nem eram contabilizados como violência por Gregório, à época com 33 anos, frente ao sadismo de outros tipos de agressão. Suas lembranças podem falhar por alguns instantes, mas a imagem da chamada Cadeira do Dragão não se esvai. Amarrado a ela por cintas de couro, instalavam fios elétricos nas orelhas, na língua e nos dedos dos pés.

— Eles deixavam a gente morrendo de sede e nos obrigavam a beber água salgada. O que sobrava, jogavam por cima do corpo nu. E aí ligavam na tomada, para o choque pegar mais. Teve uma vez que ligaram uma esponja de aço num fio e colocaram dentro da minha boca. Queimou tudo por dentro — relata.

No total, foram onze anos nos cárceres da ditadura. Já era separado da primeira mulher e havia perdido o contato com a única filha, de forma que não lhe restaram laços familiares. Liberado e aliviado com o fim da ditadura, começou a trabalhar como motorista de ônibus na Capital. Foi aí que sentiu que, apesar de as cicatrizes físicas terem doído, as psicológicas é que ficam para sempre.

Gregório começou a ter pesadelos. Qualquer pessoa parada em uma esquina era suspeita de estar lhe vigiando. Antes de dar partida no ônibus, desenvolveu uma obsessão em revistar cada centímetro do veículo, para ver se não havia nada que o pudesse incriminar. Tinha medo de viver.

— Havia bichinhos na minha cabeça. Há até hoje — diz ele.

Vivia com a segunda esposa, que lhe ensinou a valorizar o presente e evitar pensar no passado, há 35 anos. Com a morte da parceira, o estresse pós-traumático (doença com a qual foi diagnosticado pelo psiquiatra) se acentuou. Não sabe se sua meia-surdez é sequela da ditadura, mas tem certeza que a paranoia é.

Havia bichinhos

na minha cabeça.

Há até hoje.

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