Olhos

roubados

s mãos, antes calejadas de marcenaria, hoje trabalham sobre a delicadeza do corpo humano. Os pacientes chegam com expressões de dor — Luis Fernando sente — e saem da sessão de massoterapia sorrindo — Luis Fernando também sente. Com a humildade de um aprendiz e um orgulho tímido denunciado por um sorriso de canto de boca, o rapaz de 31 anos, cego há três, anuncia:

— Dizem que eu tenho mágica nas mãos.

A última cena que viu com os olhos (não é só com os olhos que se vê, ele diz, sem jamais ter lido O Pequeno Príncipe) foi uma arma apontada em sua direção. Era uma sexta-feira à noite. Retornava para casa a pé pelas ruas de Viamão, depois de uma cervejinha ou duas com os colegas da marcenaria, pensando na atividade familiar programada para a manhã seguinte: decorar as janelas com luzinhas piscantes. Era época de Natal. O devaneio logo foi interrompido por um jovem que surgiu à sua frente anunciando o assalto. Fernando reagiu. Em meio à luta corporal, o revólver disparou. E Fernando, com um tiro na cabeça, caiu ajoelhado sobre os pés do bandido, já sem enxergar.

— E ele não me roubou nada. Só a minha visão.

 

Outras perdas estavam por vir. A maior delas: a vontade de viver. Semanas após o incidente, a então mulher pediu a separação. Abalado, Fernando tentou o suicídio três vezes. Numa delas, conseguiu até uma arma. Quando se preparava para puxar o gatilho...

— Percebi que era um ato covarde, porque eu estava vivo. Mas, sabe como é, a depressão é uma coisa que pega na gente — diz ele, que, depois de um mês trancado em casa, sem coragem para encarar a bengala ou os óculos escuros, encontrou nos pais e na irmã a força para mudar o rumo.

Fernando gosta, por exemplo, de ir ao cabeleireiro. Pede para raspar um pouquinho dos lados, de forma que o cabelo se acumule exatamente onde se delineiam as cicatrizes do tiro e das cirurgias que se sucederam durante o mês em que ficou no hospital. Escondê-las é uma forma de tentar esquecer o que passou, embora a escuridão o faça lembrar disso todos os dias. Sem possibilidade de voltar a enxergar (o tiro atingiu o nervo óptico e deslocou as retinas, tornando a situação irreversível), teve de aprender tudo de novo: a se locomover, a tatear, a mexer no computador, a ler.

— Não vou te mentir: aqueles pontinhos do braile são complicados. Vou identificando letra por letra. É como se eu estivesse sendo alfabetizado outra vez.

Ao retomar as rédeas, a sorte apareceu em forma de mulher. Há um ano, uma amiga em comum o apresentou a Rosali, que o fez voltar a acreditar em si mesmo. Nunca imaginava ter novamente uma companheira — muito menos uma que enxerga.

— Ela tem olhos azuis, é carinhosa para mim, me dá ânimo. Sei que ela é muito bonita pra estar comigo. É como se fosse um milagre de Deus. Ela me deu a importância que antes eu só havia recebido da minha mãe — diz Fernando.

Para ele, só existem duas maneiras de perceber uma pessoa: pela visão e pela palavra.

— Hoje, só posso saber como uma pessoa é pela forma como ela fala comigo.

Hoje, só posso saber como uma pessoa é pela forma como ela fala comigo.

 

Às calçadas quebradas da Capital e à falta de pisos táteis, ele dá o nome de sensibilidade, ao invés de acessibilidade — uma confusão poética, que não deixa de ser verdadeira. Ainda depende da boa vontade dos cidadãos para auxiliá-lo a descer do ônibus, a atravessar a rua, a conferir o troco. Abre mão dos óculos escuros, mas a bengala é sua companheira inseparável. Ou sua mãe, que ele define como "minha bengala que enxerga".

Na ONG Rumo Norte, que atende pessoas com todos os tipos de deficiência em Porto Alegre, tirou o diploma de massoterapeuta que complementou sua formação restrita ao Ensino Fundamental. As mãos, mágicas, são seu instrumento de passagem: não servem só para sovar colunas doídas e pra desfazer nódulos de tensão, mas para repassar aos pacientes as energias que o mantêm vivo e vibrante.

Porque hoje, sem medo de errar na autoavaliação, Fernando se considera uma pessoa mais feliz do que antes, quando podia ver com os olhos.

Artur
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