Juntinhas

ônia e Lucimar pensavam já ter encerrado a fábrica quando descobriram que viria mais um filho. Grávida pela primeira vez aos 16 anos, ela estava com 23 e já tinha três crianças sob sua asa, sustentadas pela renda mirrada que o marido tirava dos bicos em serviços gerais. Na ecografia, a surpresa: gêmeos (ainda não era possível saber o sexo) completariam o time, unido em um puxadinho na periferia de São Jerônimo, cidade na região metropolitana de Porto Alegre.

Na hora do parto, uma cesárea marcada para o dia 4 de agosto de 2005, mais um sobressalto: duas meninas foram tiradas da barriga de Sônia de uma vez só. Eram siamesas — um caso a cada 250 mil nascimentos. Estavam grudadas pela parte inferior das costas e pelas nádegas, em um tipo ainda mais raro de malformação — 6% de todos os xifópagos.

 

— Tão raro quanto a situação é sobreviver a ela — afirma o cirurgião José Carlos Fraga, responsável pelo caso.

— Foi um susto total. A gente já tinha ouvido falar de gêmeas siamesas, já tinha visto na televisão. Mas daí a acontecer com a gente… — diz Lucimar.

Ele e Sônia, já conscientes das lutas que as caçulas teriam de enfrentar (de fato, mais adiante viriam paradas cardíacas, convulsões e problemas respiratórios), batizaram as recém-nascidas de Maria Vitória e Maria Esperanza.

— Elas são as caras dos próprios nomes — define o pai.

Foram separadas aos seis meses de idade, em uma cirurgia que envolveu mais de 70 profissionais e durou 12 horas. Para além das marcas de bisturi nas costas e nas nádegas, uma se tornou a cicatriz da outra. Não era esperado sequer que caminhassem, dados os problemas severos de coluna. Por isso, quando as duas chegam da escola, entram correndo pelo portão, atravessam a casa, jogam as mochilas em cima das camas e vão brincar no quintal, é como se fossem dois milagres, magricelos e vestidos de cor-de-rosa. O que uma faz, a outra repete, em uma espécie de sincronia que vem do útero.

As meninas, quando conjugadas, não compartilhavam qualquer órgão vital. Mas, ainda que bem-sucedida, a cirurgia para corrigir a anomalia deixou sequelas. Vitória e Esperanza têm alguns músculos comprometidos e bexigas que não funcionam bem. Não se esvaziam completamente, o que causa recorrentes infecções urinárias — por isso, os médicos determinaram a inserção de sonda.

Com o cateter, as meninas vão ter de abandonar a segunda coisa que mais amam fazer depois de assistir às Chiquititas: tomar banho de rio. Sem acesso a qualquer tecnologia afora a televisão, suas brincadeiras são à moda antiga: nadar, correr no mato, andar de bicicleta, jogar bola na rua.

Vitória e Esperanza já estão habituadas aos vaivéns do hospital. Quando uma precisa viajar a Porto Alegre para consultar, a outra bate pé para poder ir junto. A isso, a mãe dá o nome de cumplicidade:

— Elas estão sempre procurando se entender, se motivar.

Um exemplo: Esperanza começou a caminhar pouco depois de completar um aninho. Quase dois anos depois, vendo que a irmã ainda não ensaiava seus primeiros passos, estabeleceu um ritual: botar-se de pé no canto da sala, com uma garrafinha de guaraná apontada para sua gêmea, e chamá-la para seu encontro. Até que Vitória caminhou. Anos depois, o inverso: Vitória ensinou Esperanza a perder o medo da bicicleta.

— É bonito de ver — resume Lucimar.

 

Hoje, Esperanza está no quarto ano e Vitória, repetindo o terceiro, em uma pequena escola da vizinhança no bairro Bandeira Branca, em São Jerônimo. Tímidas, não falam muito sobre o que passaram aos coleguinhas. Mas se por acaso alguém perguntar o porquê da fralda, o porquê da sonda, o porquê da cicatriz, o porquê de uma ser mais baixinha que a outra, já ensaiaram a resposta — e mais não dizem:

— Nós nascemos juntinhas.

Artur
Carolina Luis Fernando
Berta Germano Pablo
Carlena
Gregório
Vitória & Esperanza
 
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