Punks, darks, amantes do rock clássico ou antenados na moda new wave, milhares de jovens lotavam o circuito de shows de Porto Alegre em 1985, ano da estreia dos Engenheiros do Hawaii. Dezenas de bandas gaúchas fortaleciam uma cena local diversificada, mas ainda longe demais das grandes capitais. O isolamento, no entanto, estava prestes a acabar.
A virada começou com a vinda de um olheiro de uma grande gravadora ao Estado. Tadeu Valério, da multinacional RCA, foi convidado pelo DJ, radialista e cineasta Claudinho Pereira a conferir de perto o potencial dos grupos do Rio Grande do Sul.
– As bandas do Rio, São Paulo e Brasília já tinham estourado, mas as do RS ainda não. Falei para o Tadeu: "Vocês têm que olhar para o rock do Sul. E venha de uma vez para cá, pois logo vai ter uma amostra importante aqui!" – conta Pereira.
A tal amostra era o festival Rock Unificado que reuniu mais de 10 mil pessoas, em 11 de setembro de 1985, no Gigantinho. O evento teve uma dezena de bandas locais de destaque: Astaroth, Banda de Banda, Os Eles, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, Júlio Reny & Km 0, Prise, Os Replicantes, TNT e Taranatiriça.
A profusão de bandas era um reflexo do boom do rock em todo o país nos anos 1980, fenômeno conhecido como BRock.
– A partir do nascimento do BRock, todo mês havia quatro ou cinco bandas novas. Para gravadoras, imprensa e rádio, parecia não haver outra coisa no mundo da música – conta o crítico musical Juarez Fonseca.
A safra de bandas gaúchas logo revelou ter potencial para estourar:
– Fomos ao ensaio do Rock Unificado, e lá estavam os Engenheiros do Hawaii no palco. Era muito bom, meio Paralamas, meio The Police. Nos interessamos por eles na hora – lembra Claudinho.
Além dos Engenheiros, destacaram-se Os Replicantes, TNT e Garotos da Rua. Os quatro foram selecionados para entrar na coletânea Rock Grande do Sul, que já nasceu com o objetivo de apresentar a música jovem do Estado ao Brasil. Apesar de não estar no festival, o DeFalla, que vinha se destacando por seu som experimental e inovador, também entrou. Foi assim que, ainda naquele setembro, os Engenheiros assinavam seu primeiro contrato.
– Confesso: eu, um fruto do formato LP e dos álbuns conceituais, não me emocionava muito em ter duas músicas num disco coletivo. Mas, para o ambiente do RS, o interesse de uma major era revolucionário – lembra Humberto Gessinger. – O álbum nos levou ao Longe Demais das Capitais e nos mostrou para o pessoal de fora do Estado.
A gravação foi no Rio de Janeiro, com produção de Reinaldo Barriga. Em janeiro de 1986, o disco já estava nas lojas de todo o Brasil e faixas como Tô de Saco Cheio, dos Garotos da Rua, estavam entre os hits de verão. Sopa de Letrinhas, dos Engenheiros, além de tocar nas rádios, ganhou clipe, exibido até mesmo na MTV internacional. O sucesso impulsionou a carreira dos participantes – até 1987, todas as bandas já teriam lançado álbuns individuais.
Quase 30 anos depois, o álbum segue repercutindo: Claudinho Pereira planeja rodar um documentário sobre o bolachão em breve – ele vai submeter o projeto às comissões que selecionam trabalhos para financiamento via leis de incentivo.
– Foi o disco que tirou o rock gaúcho da garagem e o levou para o Brasil – opina Pereira.
As bandas
Engenheiros do Hawaii
Humberto Gessinger (guitarra e vocais), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Maltz (bateria) chamavam a atenção pela musicalidade ska e reggae, em alta na época com o sucesso do The Police.
Faixas: Sopa de Letrinhas e Segurança.
Os Replicantes
Com um som sujo, agressivo e despojado de qualquer virtuosismo, deixava claras suas influências do punk inglês. Com Wander Wildner (vocal), Cláudio Heinz (guitarra), Heron Heinz (baixo) e Carlos Gerbase (bateria), eram a grande aposta da coletânea.
Faixas: Surfista Calhorda e A Verdadeira Corrida Espacial.
Garotos da Rua
Com influências do rock clássico e do blues, era a banda mais experiente entre as selecionadas, formada em 1982. A banda era formada por Bebeco Garcia (guitarra e vocal), Justino Vasconcellos (guitarra), King Jim (sax), Geraldo Freitas (baixo) e Edinho Galhardi (bateria).
Faixas: Tô de Saco Cheio e Sozinho Outra Vez.
TNT
Também influenciada pelo rock clássico, era formada por Flávio Basso (conhecido depois como Jupiter Apple, na guitarra e vocal), Nei Van Sória (guitarra e vocal), Charles Master (baixo) e Felipe Jotz (bateria).
Faixas: Entra Nessa e Estou na Mão.
DeFalla
Com Edu K (vocal e guitarra), Carlo Pianta (baixo) e Biba Meira (bateria), o grupo quase não entrou na coletânea:
– Eles estavam fazendo um som muito à frente do que estávamos vivendo – explica Claudinho Pereira.
Faixas: Você me Disse e Instinto Sexual.