Luto

à beira da estrada

REPORTAGEM

Marcelo Monteiro

 

Itamar Melo

DeSIGN

Leandro Maciel

EDIçÃO

Ticiano Osório

 

FOTOGRAFIA

Carlos Macedo

Lauro Alves

Por trás de uma cruz na estrada, há sempre uma história dolorosa. Cicatrizes à beira do asfalto, os singelos memoriais em homenagem aos mortos nas rodovias são símbolos da dor e da saudade de quem ficou, acentuadas em datas como o Dia dos Finados, celebrado nesta segunda-feira.

As partidas são, invariavelmente, inesperadas e trágicas. Segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), mais de mil pessoas morrem a cada ano nas estradas do Rio Grande do Sul, vítimas de acidentes e atropelamentos. Não raro, familiares e amigos decidem prestar tributo, seja para apenas manifestar o luto, seja como um pedido de justiça. O chefe da comunicação

da Polícia Rodoviária Federal, Alessandro Castro, afirma que as cruzes, as capelas e os memoriais assustam, mas não conscientizam:

– Elas não ajudam, nem atrapalham. Quem está passando fica sabendo que alguém morreu ali, mas desconhece as circunstâncias. Fica faltando a parte educativa, de que é preciso dirigir com cuidado.

Para o psicanalista Mário Corso, esse tipo de homenagem cumpre uma variedade de funções: mostra respeito pela vítima, alerta sobre a finitude e a fragilidade da vida, chama a atenção para a necessidade de cautela na direção e ajuda os parentes e amigos a superar a tristeza:

– Cada um se defende do luto como pode. Inventa rituais e coloca marcos. A vantagem de pôr um marco é que isso te permite esquecer. Tu homenageias, mas podes tirar da cabeça. Essa exterioridade do luto ajuda no trabalho psíquico interno.

Os dois irmãos da RS-240

Doce, meiga, inteligente e dedicada, Giovana Brisch, sete anos, tinha um espírito de liderança muito forte. Por vezes, era até brava. Planejava ser chef de cozinha. Seu irmão, Luciano, cinco anos, era protetor, bondoso, apaixonado por cachorros e cavalos. Queria ser veterinário, "o doutor dos bichinhos". Em 23 de fevereiro do ano passado, o Vectra em que viajavam com o pai, Carlos Alexandre Brisch, cruzou o canteiro central da RS-240, em Portão, no Vale do Sinos, chocando-se com uma Zafira que seguia no sentido contrário. Os pequenos irmãos morreram na hora. Carlos Alexandre precisou ser hospitalizado, mas sobreviveu.

Os pais de Giovana e Luciano estavam separados havia mais de três anos. Os dois filhos moravam com a mãe, Veridiana de Aguirres, hoje com 30 anos, e o padrasto, Adílson dos Reis, 39 anos, em Novo Hamburgo. Naquele fim de semana, estavam com Carlos Alexandre. Na manhã de domingo, quando aconteceu a tragédia, os três seguiam para o 26º Rodeio de Portão, onde o pai participaria de uma prova de laço.

Veridiana não se consola:

– É um vazio imenso, que vai ficar para sempre. É uma alegria pela metade, uma conquista pela metade. Mesmo uma frustração é pela metade, porque em tudo na minha vida eles estavam juntos. Este vazio vai ser eterno.

 

Giovana e Luciano tinham sete e cinco anos quando morreram, no canteiro central da RS-240, em Portão

A ideia de colocar as cruzes no local do acidente, um trecho movimentado da RS-240, foi uma forma de conscientizar outras famílias para que não passem pelo mesmo sofrimento.

Dias depois da tragédia, Veridiana e Adílson estiveram no local do acidente, acompanhados por dezenas de familiares e amigos, para a colocação das cruzes, em um ato simbólico pedindo paz no trânsito. Depois disso, os dois não conseguiram mais retornar. Hoje, a manutenção dos canteiros é feita por amigos do Facebook, pessoas que se sensibilizaram com a história e ajudam a preservar o memorial em boas condições.

– Não consigo mais ir lá. Fico muito mal quando vou. Não tenho condições psicológicas de ir. Vou ao cemitério sempre. Mas lá, não consigo ir. Para mim, é o pior lugar do mundo. Infelizmente. É uma carga muito forte, uma dor muito forte. Não dá para suportar – afirma Veridiana.

Adílson, que mantinha uma relação de pai e filho com os enteados, também sente a falta da dupla com suas constantes brincadeiras dentro da casa:

– Aquele alegria, aquela energia, aquela luz deles correndo, ficou tudo muito vazio. Todos os lugares que a gente ia, uma pracinha, um bosque, um balneário, era porque eles queriam ir. Hoje, a gente não vai mais a esses lugares. Não tem mais aquele sentido.

Veridiana com os brinquedos dos filhos, Luciano e Giovana: mãe não suporta visitar o local              da morte

Um ano e oito meses após o acidente, o casal finalmente decidiu se desfazer das roupas e dos brinquedos de Giovana e Luciano, hoje amontoados dentro de caixas no quarto das crianças. Para amenizar a saudade, Giovana pretende guardar apenas algumas poucas peças, entre elas roupas de passeio nas quais costuma borrifar o perfume dos filhos.

– Eu passo o perfume deles nas roupas, nos brinquedos. A gente procura sentir o cheirinho deles – diz, sem conter as lágrimas.

As índias da BR-386

Toda vez que vai pegar o ônibus, Claudete de Melo, 29 anos, vê a cruz em homenagem à filha. Ela está cravada junto à parada onde Maria Eduarda Melo, dois anos, sofreu um acidente em 25 de março de 2014.

Claudete e o marido, João Luís dos Santos, estavam à espera no ponto de embarque, situado no km 359 da BR-386, em Estrela, para levar a menina ao hospital. Ela estava doente. Em dado momento, sem que percebessem, a roda de um Gol que trafegava pela rodovia se soltou e avançou em direção à família. Atingiu Maria Eduarda na cabeça e a arremessou para longe.

A garota foi sepultada na aldeia indígena onde vivia com os pais, na beira da estrada. Claudete resolveu posicionar uma cruz no local do acidente para que, quando os carros passassem, as pessoas soubessem que alguém morreu ali. Com frequência, vai até a área para limpar o marco.

Maria Eduarda, dois anos, foi golpeada pela roda que se soltara de um Gol

Claudete tem outros dois filhos, que procura manter afastados da via.

– Tenho medo de levá-los junto quando vou à venda – conta.

A mulher tinha Maria Eduarda nos braços quando o pneu voou sobre elas. Também sofreu ferimentos, mas foram leves. Os indígenas protestaram contra a imprudência dos motoristas, mas nem isso, nem a cruz avisando que alguém morreu ali parecem ter tido qualquer efeito. No último dia 19, o rodado de um caminhão se soltou no mesmo ponto e atingiu quatro meninas da aldeia. Elas aguardavam pelo transporte escolar. Três morreram. Chamavam-se Chaiane, Thaís e Franciele. Tinham idades entre os 11 e os 15 anos.

Índios colocaram cruzes para homenagear Chaiane, Thaís e Franciele, mortas dia 19

Memorial na RS-401

Écomo se Luciano Azambuja Falleiro tivesse duas sepulturas. Uma delas fica no cemitério, em General Câmara. A outra está à margem da RS-401, a caminho de Charqueadas, no ponto onde a moto que ele pilotava foi atingida por uma caminhonete, em fevereiro de 2007. À beira do asfalto se veem uma cruz, um painel impresso com a imagem de Luciano e coroas de flores sempre renovadas. Passados oito anos, as peregrinações da família ao local do acidente são constantes.

– Para mim, este lugar é como o cemitério. Se eu não limpar, arrumar e trazer flores, sinto que estou deixando o Luciano de lado. Tem gente que diz que isso não resolve, mas, para mim, resolve – conta a mãe, Iara Azambuja Falleiro.

Alguns destroços da moto do rapaz, morto aos 27 anos, ainda estão no local. A família não quis tirá-los. O pequeno santuário à memoria de Luciano foi uma iniciativa da sua irmã, Dayane Azambuja Falleiro.

– No dia do enterro, diante do caixão, fiz a promessa de que não deixaria ninguém esquecê-lo, até o dia em que eu morrer – revela.

Luciano trabalhava para os Correios, em Charqueadas. No dia em que morreu, voltou para casa, em General Câmara, ao meio-dia, para almoçar com a mulher e os filhos, Gabriel, de três anos, e Eduardo, de sete anos.

– O papai já volta – disse ao menor, ao sair novamente para o trabalho.

Na hora em que foi atingido pela caminhonete, Luciano voltava a sua cidade com a moto dos Correios. O dia tinha sido de sol, mas uma forte chuva desabara subitamente. Quando a precipitação começou, por volta das 17h30min, seu pai, sua mãe e sua mulher estavam do lado de casa, ao ar livre, e tiveram de correr para se abrigar. Pouco depois apareceu um amigo.

– Luciano sofreu um acidente – contou.

Família de Luciano cuida do local do acidente como se fosse a sepultura do motociclista

A chaga aberta naquele momento ainda não cicatrizou para a família – todos tomam medicação por causa do abalo.

– A nossa família acabou quase que a metade. Ficamos destruídos. Eu vivo doente, meu marido vive doente. Minha filha está sempre com depressão. A gente ficou com uma tristeza que nunca vai passar. A gente era feliz, mas hoje não tem como – descreve Iara.

O servidor estadual Luiz Paulo, pai de Luciano, foi o primeiro familiar a chegar ao local do acidente, onde viu o corpo desfigurado do filho. Apesar das más recordações, faz questão de visitar o santuário à beira da estrada.

– Eu venho com frequência. Isso aqui machuca muito e traz lembranças daquele dia, mas foi o último lugar em que o vi. Para nós, vir aqui é importante, é um momento especial. O Luciano tinha um poder de comandar a família, de remediar a família. Era como se ele fosse o pai e eu fosse o filho – afirma Luiz Paulo.

Militante político, Luciano planejava candidatar-se à Câmara de Vereadores de General Câmara. Para dar continuidade a esse legado, Dayane resolveu concorrer na última eleição. Também batizou o próprio filho com o nome do irmão:

– Fiz isso só pelo prazer de poder chamar o nome “Luciano”, de ter esse nome presente na nossa família.

As Alines da BR-386

Iara traz tatuado no braço nome do filho que morreu

Dois nomes estão gravados nos braços da cruz, no quilômetro 343 da BR-386, em Lajeado. De um lado, a homenagem a Aline Schuster, morta aos 21 anos. Do outro, a Aline Fabrim Teixeira da Silva, 25 anos. As duas amigas morreram depois de uma caminhonete colidir de frente com o carro em que viajavam, pouco depois do meio-dia de 14 de junho de 2008.

As mães das jovens, que mal se conheciam na época, tomaram a iniciativa de assinalar o local do acidente com um marco. Hoje, são amigas.

– Fizemos para chamar a atenção dos motoristas imprudentes – conta Fátima Helena Fabrim Teixeira da Silva, 61 anos, mãe de Aline Teixeira da Silva.

Fátima visita a cruz de duas a três vezes por ano. Procura ir sempre no Dia de Finados e também em datas especiais, como o aniversário da filha. Renova as flores e troca as fitas. É dolorido, mas não mais não muito diferente da rotina:

– No dia a dia já é duro. Porque quem perde não esquece. A gente pode até aceitar que não vai ter volta. Mas sofrer a gente sofre igual.

Mães das duas amigas colocaram a cruz para chamar a atenção de motoristas imprudentes

Moradora de Lajeado, Aline Teixeira da Silva era formanda em Direito na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). No momento do acidente, ela e a xará iam buscar uma amiga, para preparar uma festa surpresa. Aline Schuster morreu no local. A filha de Fátima ainda passou oito dias em coma no hospital.

Vizinho do local do acidente, o aposentado Ricieli Carlos Salvi, 78 anos, saía de casa quando ouviu o estrondo da colisão.

– Botei uma mão na guria. Ela suspirou, como quem diz “me socorre”, mas não pude fazer nada – relata.

Salvi testemunhou muitas mortes na estrada, mas se sente especialmente comovido toda vez que passa pela cruz das duas Alines:

– Quando volto à cruz, tenho um sentimento muito forte. Parece que as estou vendo ali. O sentimento desses pais é meu também. A dor que eles sofrem, eu também sofro. Quando os familiares chegam para colocar flores ou homenagear as meninas, eu me compadeço.

Quando a filha morreu, Fátima tinha apenas o sobrenome Fabrim. No sábado passado, depois de quatro décadas de união, formalizou o casamento com o pai da jovem. Virou Fabrim Teixeira da Silva, o mesmo sobrenome da filha. O dia de festa foi, também, de choro e tristeza:

– Lembrei muito da Aline. Queria que ela estivesse conosco.

 

Ricieli Carlos Salvi, 78 anos, saía de casa quando ouviu o estrondo da colisão que matou as duas Alines. Ele testemunhou muitas mortes na beira da BR-386

Sete santuários

Matheus Uhmann

Quando: 2/10/2010

Onde: BR-290 /

Km 700 (Uruguaiana)

Como: O jovem de 24 anos pilotava uma moto Suzuki 750 CC. Às 19h35min, a 25 quilômetros do centro de Uruguaiana, ele colidiu com a traseira de uma caminhonete Ford 100.

João Carlos Severo  de Severo

Quando: 14/10/2010

Onde: BR-290 / Km 571 (Rosário do Sul)

Como: Segundo o relato de testemunhas à Polícia Rodoviária Federal (PRF), Severo trafegava sua motocicleta no sentido Rosário-Alegrete quando foi ultrapassar um caminhão e perdeu o controle do veículo. O capacete teria se desprendido da cabeça da vítima. Com o choque, ele morreu na hora.

 

Teresita Fagundez Bueno e José João Bueno

Quando: 20/4/2008

Onde: BR-290 / Km 679 (Uruguaiana)

Como: José João Bueno, 73 anos, e Teresita Fagundez Bueno, 65, morreram quando o Prisma em que viajavam saiu da pista e capotou.

Diego Maicon Bélte Cavalheiro

Quando: 2/12/2007

Onde: RS-239 (Sapiranga)

Como: O motociclista, de 21 anos, colidiu com uma caminhonete. Ele chegou a ser levado para o hospital da cidade, mas não resistiu aos ferimentos.

Dionata Pacheco Kroth

Quando: 30/8/2014

Onde: RS-239 / km 41 (Parobé)

Como: Por volta das 15h45min, duas motocicletas se chocaram na rodovia. Dionata chegou a ser encaminhado para atendimento médico na cidade, mas não resistiu aos ferimentos. O condutor da outra moto sofreu apenas ferimentos leves

Diliane, Enzo e Eduarda da Silva

Quando: 2/7/2013

Onde: ERS-115 / Km 2 (Taquara)

Como: Diliane, de 27 anos, e os filhos Enzo, um ano e 11 meses, e Eduarda (recém-nascida) morreram no choque entre um Corsa e um caminhão.

Adriano José Kurmann

Quando: 4/10/2008

Onde: ERS-115 / Km 5 (Igrejinha)

Como: O acidente envolveu a motocicleta na qual Kurmann viajava, um automóvel Fiesta, e uma camioneta Ford Courrier, que fugiu do local. O motociclista morreu na hora. A passageira da moto, Scheila Franciele Engelmann, 19 anos, sofreu escoriações leves.

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