33

municípios

11,2%

da área do Matopiba

3,35

milhões de toneladas de grãos (10,2% do total de grãos colhido pelo RS em 2015)

1,42

milhão de hectares plantados (27,3% do total cultivado de soja no RS na safra deste ano)

Uruçuí

Bom Jesus

Raízes firmes após protestos

Migrantes do Sul superaram a rejeição e se consolidaram em terras férteis localizadas a mais de 600 metros de altitude

Pouco tempo depois da chegada dos primeiros produtores gaúchos a Bom Jesus, no sul do Piauí, moradores organizaram uma passeata para protestar contra a presença de ditos “forasteiros” e “destruidores do cerrado”. Na época, em 1997, 10 agricultores que antes haviam passado pela Bahia ou pelo Centro-Oeste tentavam desfazer a ideia dos nativos de que plantar soja no alto de chapadas era mito. Hoje, pouco mais de 15 anos depois, a cidade de 24 mil habitantes é considerada capital do agronegócio no Piauí.

Idemar Cover, natural de Sarandi, no norte do Rio Grande do Sul, foi o primeiro produtor a chegar a Bom Jesus, em 1994. Após seis anos em Água Boa (MT), o agricultor, apelidado de Gringo, decidiu buscar uma nova fronteira agrícola para expandir os negócios. Chegando na cidade, localizada a 630 quilômetros da capital Teresina, identificou potencial para lavouras na Serra do Quilombo, com chuva na dose certa e solo propício para o cultivo de grãos:

– Na época, quem tinha algum dinheiro comprava terra. Eram muito baratas.

Liderados pelo patriarca, família Manganeli desbravou as lavouras no Piauí

Dois anos depois do protesto nas ruas de Bom Jesus, a família gaúcha Manganeli chegou à cidade, vinda de Barreiras (BA), para onde tinha migrado em 1986. Com quatro filhos no Rio Grande do Sul, três homens e uma mulher, Valtério Manganeli cultivava pouco mais de cem hectares em São Luiz Gonzaga, nas Missões. Decidiu arriscar a sorte após conversar com um parente que já estava na Bahia.

– Comprei 500 hectares sem conhecer nada. Trouxemos trator, equipamentos, vacas, galinhas, tudo o que tínhamos no Sul – lembra Valtério, que migrou para a Bahia acompanhado da mulher, Cândida Flores, e dos três filhos homens.

Passados os primeiros anos em Barreiras, quando tiveram de dormir em barracas em áreas sem energia elétrica e abastecimento de água, os Manganeli perceberam que a saga não terminaria ali. Com área consolidada e condição financeira bem melhor, os filhos Vilson, Gilson e Nelson repetiram o instinto do pai e iniciaram a segunda migração da família, desta vez no Matopiba.

Vilson casou-se com a piauiense Mari dos Santos e é pai de Bianca, 4 anos, à qual costuma chamar carinhosamente de “piúcha”.

Ao conhecer a Serra do Quilombo, no alto de chapadões, o trio viu a chance de plantar uma área bem maior. Então, os irmãos compraram quase cinco mil hectares de cerrado, na época por 10 sacas de soja cada hectare. Em 2000, inspirados no trabalho feito na Bahia, abriram estradas e preparam o solo com arroz para receber soja e milho em seguida.

– Copiamos muitas coisas feitas na Bahia. A gente já conhecia o cerrado – lembra Vilson, 51 anos.

Hoje, o pequeno negócio se transformou no Grupo Manganeli. São cultivados 10 mil hectares de soja, milho e feijão em duas fazendas próprias e uma arrendada.

Na cidade, a família tem uma revenda de insumos agrícolas, administrada pela irmã Telma Manganeli, que também decidiu migrar para o Nordeste.

Há dois anos, os quatro irmãos começaram a investir em pecuária. São mais de mil cabeças da raça nelore que, recentemente, começaram a ser cruzadas com touros da raça angus, resultando em carne mais nobre. O rebanho tem ainda ovinos, suínos e cavalos crioulos. Provocado sobre a disposição de migrar outra vez em busca de novas fronteiras, Vilson acredita que a saga dos Manganeli será encerrada no Piauí.

– Já abrimos duas fronteiras. Agora não dá mais para encarar, só se for a nova geração – afirma o produtor, que casou-se com a piauiense Mari dos Santos e é pai de Bianca, 4 anos, à qual costuma chamar carinhosamente de “piúcha”.

Lavoura no alto de chapadas

Foi a mais de 600 metros de altitude que os migrantes e empresas do agronegócio encontraram terreno fértil para a agricultura. Quem vê os paredões da Serra do Quilombo pela BR-135, uma das principais rodovias do Matopiba, não imagina a topografia plana que encontrará lá em cima. A menos de 40 quilômetros de Bom Jesus, a área é uma das mais tecnificadas no sul do Piauí.

Na região, produtores dispõem de avançadas máquinas e equipamentos, além de sementes e insumos de ponta. As áreas, boa parte delas com agricultura de precisão (sistema de manejo integrado de informações e tecnologia), alcançam rendimentos de soja e milho por hectare 20% superiores à média brasileira.

DIÁRIO DE VIAGEM

Ao contrário da Região Sul, onde o associativismo representa boa parte da produção de grãos, nos Estados do Matopiba, a atuação de cooperativas é praticamente nula. Lá, a safra é vendida para grandes empresas de alimentos, como Bunge e Cargill.

Joana Colussi, repórter

Essa expansão fez com que grandes empresas do setor, como Bunge, Ceagro e CHS, instalassem silos e armazéns para receber as safras de soja e milho produzidas na região. A eficiência das lavouras e dos serviços de armazenagem em nada converge com as estradas – a logística é um entrave que desafia o Matopiba. Na Serra do Quilombo, as vias, abertas pelos próprios agricultores, até hoje precisam ser conservadas pelos donos das fazendas, já que os governos não cumprem seu papel.

A região é cortada pela Transcerrado, rodovia estadual que passa pelas principais chapadas produtoras de grãos no sul do Piauí. São cerca de 400 quilômetros, grande parte de chão batido, onde motoristas convivem com camadas de poeira na época de estiagem e com lama no período chuvoso. Boa parte da produção que sai dali é transportada em caminhões até o porto de Itaqui, em São Luís (MA), a 1,3 mil quilômetro de distância.

Fábrica de registros falsos

Aexpansão e valorização das áreas agrícolas fez crescer no Piauí uma indústria de fabricação de títulos de propriedade de terra, com ação fraudulenta de cartórios.

Em Bom Jesus, costuma-se dizer que, se todos os registros fossem sérios, seriam necessários cinco camadas de terra para dar conta de tantas escrituras.

A sobreposição de títulos, mediante o pagamento de propina, fez a Justiça afastar titulares de cartórios, além de bloquear matrículas de terrenos públicos com documentos de origem duvidosa. A incerteza sobre a posse da propriedade vem tirando o sono de agricultores que compraram legalmente áreas de cerrado e, agora, estão sendo questionados pelos “novos donos”.

– O governo estadual precisa intervir. Não é possível deixar famílias produtoras sem respaldo legal – aponta Almir Dalpasquale, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja).

O dirigente acompanhou casos de produtores que chegaram a ser confrontados até seis vezes pelo aparecimento de documentos falsos:

– Tem agricultor que chegou a perder áreas. Essas questões precisam ser resolvidas, para evitar conflitos e disputa ainda maiores pelas terras. Isso também é importante para garantir que os investimentos na região sigam crescendo.

A Santa Rosa do sul do Piauí

Aplaca informa que faltam 29 quilômetros até Nova Santa Rosa. A indicação é a primeira encontrada após 113 quilômetros rodados – mais da metade em estrada de chão batido – desde Bom Jesus. Para chegar, é preciso passar em meio a paredões da Serra da Palmeira, que impressionam pela exuberância da natureza e assustam pela subida íngreme e acidentada.

No alto das chapadas, uma estrada empoeirada e plana leva até a vila. Casas novas e bem cuidadas, canteiros floridos, caminhonetes do ano e crianças de cabelos e olhos claros brincando nas ruas dão ares de uma pequena cidade de origem alemã do interior gaúcho.

Povoada por mais de cem famílias do Rio Grande do Sul e do Paraná, a comunidade tem posto de saúde, escola, igreja, lojas, hotéis e revendas de insumos agrícolas com acesso à internet e telefone via rádio. Tudo gira em torno dos mais de 70 mil hectares de grãos cultivados na região, que fica localizada a 107 quilômetros do município-sede, Uruçuí (PI).

DIÁRIO DE VIAGEM

Quando deparamos com os paredões da Serra da Palmeira, pensei: nosso carro não conseguirá subir – a gente estava em um hatch 1.6. Mas o motorista, Chico, não titubeou. Segurou o pé no acelerador e, em poucos minutos, superamos o desafio. E fomos contemplados com uma visão espetacular lá de cima.

Joana Colussi, repórter

Há pouco mais de 15 anos, a descrição da localidade se resumiria a uma palavra: cerrado. A vila não existia, e a área era coberta por vegetação natural, sem energia elétrica, abastecimento de água nem infraestrutura.

Foi neste cenário que o casal Arnildo Schröder e Glaci Drews Schröder e os quatro filhos chegaram em março de 1999, após cinco dias de viagem em um Corcel 2, uma F-1000 e um caminhão de mudança. Um dos filhos, Sávio havia comprado as terras no ano anterior por meio do projeto da Cooperativa Tritícola Santa Rosa (Cotrirosa).

– Quando vi aquela subida (na Serra da Palmeira), tive um ataque de choro. Vim chorando durante 80 quilômetros, com minha filha de seis meses no colo, até chegar aqui – lembra Cristiane Fischer, 37 anos, mulher de Sávio.

Aos 21 anos e recém-casada, Cristiane trabalhava em um escritório de advocacia em Santa Rosa, noroeste gaúcho, onde usava salto alto e passava o dia no ar-condicionado. O contraste na chegada à vila foi inevitável. A família instalou-se em barracas de lona, onde os móveis foram acomodados. A água potável era buscada em pipas a 40 quilômetros de distância. Mais tarde, já com casas construídas, o gerador elétrico era ligado durante algumas horas do dia.

Mas todo o sacrifício tinha um ideal. Na Santa Rosa gaúcha, Sávio era dono de 21 hectares, e o pai, Arnildo, de outros 60. No Piauí, os dois começaram plantando 750. Passadas as dificuldades de adaptação nos primeiros anos, a família consolidou a lavoura e começou a ter certeza de que compensar o esforço seria questão de tempo. E foi. Hoje, com mais de mil hectares cultivados, os Schröder desfrutam de qualidade de vida, com casas bem equipadas, automóveis novos e poupança para o futuro dos filhos.

– Quando chegamos, nossa vida era trabalhar e dormir. Hoje, diversão não falta. Fazemos bailes no salão da comunidade, temos a festa da soja. Vivemos felizes – resume Sávio.

Após viver em barraca improvisada ao chegar, família de Sávio Schröder hoje mora em casa confortável

Do colégio de palha à faculdade

Com três filhas pequenas, Iraci Maria Engel sabia que deixar o noroeste gaúcho rumo ao Piauí não seria fácil. O mais árduo, porém, não foi dormir em barracas ou ter ficado quase 10 anos sem energia elétrica.

– Ao chegarmos aqui, não tinha escola para as crianças. As mães se organizaram e deram aulas em um galpão coberto com palha – lembra Iraci, hoje com 50 anos, natural de Santo Cristo, nas Missões.

Mesmo quando o município de Uruçuí criou uma escola regular, no ano seguinte à chegada, faltavam professores para lecionar na vila. Iraci não se importava em trabalhar dia e noite para dar conta de encomendas de pães e bolachas, enquanto o marido lidava na lavoura. Sua preocupação era que as filhas, na época com 10, nove e seis anos, tivessem uma boa educação:

– Não queria que a nossa vinda para cá prejudicasse o futuro delas.

Após concluírem o Ensino Básico na vila, as filhas não deixaram Iraci se arrepender da aventura.

– As três fizeram faculdade e intercâmbio na Europa – conta a mãe. Antes de se mudar para Teresina, onde cursou Enfermagem, Ana Paula Allebrandt, 26 anos, foi escolhida a Rainha da Soja em Uruçuí, na adolescência. Hoje, mora na Irlanda. Josiane, 27 anos, formou-se em Biologia em Santa Maria e mora no Rio de Janeiro. A mais jovem, Luana, 23, também morou na Europa durante um ano e, agora, irá graduar-se em Farmácia, em Teresina.

Pela internet, que chegou à vila há pouco mais de dois anos, a mãe não passa um dia sem falar com as filhas. Na vila Santa Rosa, Iraci é conhecida por criar o melhor gado da região. A qualidade da carne atrai compradores de cidades vizinhas e a estimula a investir em genética:

– O nosso futuro é aqui.

Filhas de Iraci, que estudaram em sala improvisada e precária, hoje estão formadas

Migração nasceu em cooperativa

Desanimados com perdas em safras frustradas pela seca e sem condições de ampliar áreas pelo preço alto das terras, no fim da década de 1990, associados pediram à Cooperativa Tritícola Santa Rosa (Cotrirosa) que localizasse terra barata em qualquer lugar do Brasil. Lourival Bublitz, então presidente da cooperativa, idealizou o projeto que criaria a vila Nova Santa Rosa – ele migrou ao Matopiba em 2005 e hoje vive em Luís Eduardo Magalhães (BA).

Após encontrar as áreas no sul do Piauí, Bublitz ofereceu aos produtores a possibilidade de financiamento pelo Banco do Nordeste, com 12 anos para pagar e quatro anos de carência. Cada hectare foi comprado por seis sacas de soja à vista ou 10 sacas a prazo.

Funcionário da Cotrirosa na época das migrações, Élder Pedó mudou-se com a família para o Piauí, onde vive até hoje

Com um hectare vendido no RS era possível comprar 50 no Piauí.

LOURIVAL BUBLITZ, então presidente da Cotrirosa e morador de Luís Eduardo Magalhães (BA) desde 2005

Para possibilitar a migração de 70 famílias de agricultores a uma área sem estrutura, a cooperativa instalou uma unidade no local, com armazéns de recebimento de grãos e loja de insumos. Hoje, parte da produção abastece o Nordeste, e o restante é exportado por meio do porto de Itaqui, em São Luís (MA), distante 820 quilômetros.

Funcionário da Cotrirosa na época, Élder Pedó migrou com a família para a vila, onde coordenava os negócios. Após dois anos, a unidade foi vendida à Bunge, que ampliou a estrutura à medida que a produção cresceu. Mas Pedó não voltou ao Sul. Com a mulher e dois filhos, foi viver em Bom Jesus (PI), onde é sócio de uma loja de insumos.

– E se você perguntar para a maioria, tenho certeza que todos fariam tudo de novo – garante.

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