Morro

do medo

Nos idos de 1850, a mata fechada era tão assustadora para quem se arriscava a escalar o Morro Santa Tereza que a região era conhecida como Emboscadas. Passados quase dois séculos, subir àquela área é tão perigoso quanto naqueles tempos. Só que por motivo bem diferente.

REPORTAGEM

José Luís Costa

DeSIGN

Leandro Maciel e Michel Fontes

EDIçÃO

Lúcio Charão

 

FOTOGRAFIA

Ronaldo Bernardi e Diego Vara

Fulminada pela explosão demográfica desordenada que espalhou a criminalidade, uma das mais belas paisagens de Porto Alegre, onde o sol ilumina o Guaíba beijando as curvas da cidade, perdeu o encantamento.

Diante da complacência do poder público e do pavor de moradores, o tráfico de drogas se apropriou do morro nas últimas três décadas. Enraizado como erva daninha, semeou quadrilhas em meio a comunidades pobres na mesma velocidade com que elas ocuparam a região – significativa parcela do local é formada por áreas invadidas.

A proliferação das bocas de fumo conflagrou o Santa Tereza com intensidade que lembra favelas do Rio de Janeiro. No lado sul do morro, no vértice menos glamouroso, conhecido como complexo de vilas da Cruzeiro, a população é refém da bandidagem e sofre em silêncio. Há relatos de pequenos comerciantes extorquidos por criminosos em troca de proteção contra assaltos. Além disso, a região abriga uma das maiores concentrações de usuários de droga a céu aberto na Capital.

Soldados do tráfico exibem pistola à luz do dia e negociam até fuzil. Tiroteios acontecem a qualquer hora, em uma sangrenta disputa de gangues pelo controle dos pontos de venda de entorpecentes entre becos. Temerosos de virarem alvo de confrontos de quadrilheiros armados, moradores do entorno se protegem como podem.

– Aqui, ninguém sai de casa a pé – diz uma mulher no portão de um confortável residencial na Rua Gilberto Laste, na face mais elegante do Santa Tereza.

Na mesma via, outro condomínio protege as casas com segurança privada, chapas de aço, grades no muro, cerca elétrica e câmeras de vigilância.

A barreira fica de costas para a Rua Correia Lima, que, assim como a Rua Silveiro, está transformada em “passarela de zumbis” – viciados em crack se esgueirando como baratas tontas em busca da droga.

– Tive escritório na Silveiro durante oito anos. Neste período, vi sempre as mesmas pessoas subindo e descendo a rua – recorda o advogado criminalista Jader Marques, que recentemente se mudou do bairro.

Bem perto dali, uma casa vazia e um terreno baldio são usados para consumo de crack e prostituição.

– Assistimos à proliferação da droga e o que fazem para comprá-la. Já me ofereceram celular por R$ 5. Além da cracolândia, à noite, tem a “sexolândia”. Tiram a roupa na rua e defecam. Cansamos – conta um morador.

No final da Rua Correia Lima, aos pés do mirante Belvedere, a Vila Gaúcha é um amontoado de 600 casebres pendurados no morro de uma área que pertence à Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), ainda com trechos de mata não devastada. O lugar ganhou apelido de Buraco Quente por ter as bocas de fumo mais cobiçadas da região. Privilegiada pela geografia, vielas estreitas, onde entra um só carro por vez, a área tem barracos e mocós que servem de esconderijo para criminosos, armas e drogas.

– Posso garantir que 99% são trabalhadores, mas 1% esculhamba tudo – relata um morador.

As condições de vida são precárias. Não há rede de esgoto e, no verão, torneiras secam. Mesmo assim, há moradia com piscina. No começo do mês, dois ônibus e um lotação foram incendiados por criminosos após PMs matarem com um tiro nas costas um morador do Buraco Quente, suspeito de estar armado. O serviço de transporte foi interrompido, a BM montou uma base no alto do morro e, nos dias seguintes, não houve incidentes.

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