Do glamour

à violência

De charmoso restaurante panorâmico à área invadida com o decorrer das décadas

Hoje, observar Porto Alegre do alto do morro Santa Tereza, no Belvedere Ruy Ramos, é impensável por causa da insegurança. Mas, décadas atrás, o local já foi point de encontro na noite da Capital.

Ao lado do mirante, entre o final dos anos 1960 e o começo dos anos 1980, funcionou a badalada boate Beliscão, lugar decorado com paredes de pedras e capacidade para uma centena de pessoas, idealizado para atender ao público mais velho e endinheirado, diferente de outras danceterias de perfil jovem e onde a clientela gastava pouco.

Em junho de 1972, reportagem de Zero Hora, com o título “Nestas casas a noite ainda não morreu”, destacou que a Beliscão tinha uma peculiaridade: abria as portas às 18h e fechava mais cedo do que a concorrência.

Em cima da Beliscão, a agitação era no Restaurante Panorâmico, com terraço e janelões envidraçados, oferecendo uma paisagem inspiradora da cidade e culinária internacional no almoço e no jantar.

Eram tempos de criminalidade em menor escala, existiam poucos motéis, e os casais mais entusiasmados subiam o morro para juras de amor sob o olhar da Lua. Antes ou depois dos amassos nos carros, havia quem forrava o estômago no Panorâmico e gastava as energias na Beliscão. Nas tardes de finais de semanas, famílias inteiras lotavam o mirante.

– Durante muitos anos, quando recebia colegas de trabalho do Exterior ou de outros Estados, levava eles para conhecer Ipanema e subia ao morro para ver o pôr do sol. Era muito agradável – recorda o fotógrafo Flávio Del Mese, que foi sócio da Beliscão por um período.

– Era uma paz aquilo lá – concorda Dudu Alvares, 69 anos, empresário um dos donos da Beliscão.

Alvares lembra que naquela época turistas que vinham ao Estado para conhecer a serra gaúcha se hospedavam na Capital, por causa da rede hoteleira melhor estruturada. Os visitantes seguiam de ônibus para Gramado e Canela para passeios durante o dia e voltavam para curtir a vida noturna em Porto Alegre.

Morador há 17 anos do Santa Tereza, o senador Lasier Martins (PDT) lembra que frequentava o Panorâmico e muito visitou o mirante, apresentando a cidade a amigos de fora do Estado.

– Hoje em dia, não dá para ir mais lá. Aquilo tudo ficou no passado. E, sem segurança, não se pode viver no bairro – lamenta.

A violência já engatinhava no morro quando Dudu Alvares colocou um ponto final na Beliscão. Ele assegura que a decisão foi por questões de mercado, pois casas noturnas reúnem público à medida que são novas e atraentes. O restaurante cerrou as portas no início de 1984. Depois, o prédio passou a abrigar o SBT, emissora que, até hoje, funciona no local.

Em 1990, prefeitura mapeava início de invasões, como a do Buraco Quente

Essas regiões, sem a presença do Estado, sofrem com a dominação dos mercados ilegais, especialmente, o de drogas, que potencializam situações de violência, com presença de armas, disputa de territórios, prática de delitos dentro da economia do crime. Quem está ao redor dessas áreas sofre as consequências da omissão do poder público.

 

Rodrigo de Azevedo

Sociólogo, professor do programa de pós-graduação em ciências criminais da PUCRS

Moro no lugar mais lindo de Porto Alegre. O que ocorre aqui é um problema social, não só de segurança pública. Quando vim para cá, era um tiro por mês. Nos últimos dois, três anos, semanalmente tem disparos. É clara a presença dos traficantes na ausência do Estado. Vimos criança virar criminoso. Com um camburão da Brigada Militar no morro, tudo fica calmo.

 

Morador que prefere não ser identificado

Ônibus foram incendiados após morador ser morto por PMs no início do mês

 

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