Ausência sentida

para sempre

Ocasal Sara e Vítor Lima há oito meses curte o filho apenas pelos dois celulares que pertenciam ao garoto. Quando bate saudade, a mãe diarista e o pai pedreiro rebuscam nos aparelhos os vídeos em que Maicon Douglas aparece sorridente e festivo. As imagens são dele entre grupos de adolescentes de torcida organizada do Novo Hamburgo no entorno do Estádio do Vale. Dão gritos de guerra e pulam com toda a energia e se jogam uns contra os outros e se chocam no ar com os peitos numa demonstração de força ao som de uma pequena charanga.

Os vídeos são a única forma de os pais rever a vivacidade do filho de 16 anos, que planejava fazer Direito na Ulbra e tinha a tatuagem de Jesus Cristo no peito.

Maicon foi morto em 1º de fevereiro. Depois de um tumulto de organizadas ao final de Aimoré e NH em São Leopoldo, o garoto foi alvejado nas costas. Oito PMs estão indiciados pelo crime. Não bastasse a perda, Sara e Vítor com frequência são afetados por tremores quando avistam uma viatura ou um policial fardado na rua.

– Chega a dar um troço. Quando a gente vê uma viatura e um policial, o coração dispara, está louco, é horrível... Não dá para generalizar, mas a gente vê uma viatura, a gente fica assim... meus Deus. É muito cruel – conta Sara.

 

 

 

Sara e Vítor perderam o filho Maicon, de 16 anos. Restaram os dois celulares do garoto, com imagens de sua torcida organizada

Há outro agravante. Os policiais acusados do crime também são suspeitos de trocar o projetil no momento em que Maicon foi atendido no hospital. Flagrada pelas câmeras internas, a trama só reforçou  o sentimento de insegurança da família:

– Ai, nossa (choro)... Eu nunca vou esquecer ele (o marido, Vítor) chegando sozinho. Com aquele saco de roupa na mão... Eu perguntei: Cadê o Maicon? Ele só dizia: vamos na tua mãe. Perguntei de novo. Aí ele disse, o Maicon morreu. Não acreditei.

Aos 37 anos, Sara é uma pessoa permanentemente comovida com a perda do filho.

– Eu não tenho ódio, não consigo. Mas quero um pouco de paz, além de justiça. Não desejo este sofrimento para ninguém – diz Sara.

Ao casal restou a filha Vitória, 12 anos. É ela quem esquadrinha os celulares do mano e repassa aos pais em momentos estratégicos.

– Ao ver os vídeos, tento procurar uma alegria, mas a dor supera tudo – confessa a mãe.

Também em Novo Hamburgo, quase todos os dias Maria Inês conversa com o filho Gabriel. Ela senta com ele à mesa na hora do almoço e fala providências de casa,  no bairro Jardim Mauá. A cama do rapaz está estendida, com a colcha vermelha e branca abaixo de um quadro com o símbolo do Inter pendurado à parede.

Maria Inês trata do filho como se ele estivesse vivo. Gabriel Elói de Oliveira, o Feijão, foi morto em junho de 2008, aos 23 anos. Ele e o amigo Jeferson Alves Ferreira, 21, caíram executados em São Leopoldo, vítimas de velhas rixas de torcidas organizadas no Vale do Sinos. As duas mortes são parte das 15 tragédias registradas com torcedores gaúchos nos últimos 15 anos.

Caçula e único homem de três filhos, Gabriel vivia com a mãe, viúva há quase 30 anos e funcionária aposentada da biblioteca da escola Ana Neri. Passados sete anos, a mãe de Gabriel convive com um filho imaginário, recurso que ela encontrou para abrandar a dor da ausência que ainda hoje a faz chorar pelos de canto da casa.

Por isso, aos 65 anos, Maria Inês dirige palavras ao filho inexistente. Já se submeteu a tratamento psiquiátrico, viveu debaixo de forte medicação e acostumou-se à relação com a ideia do filho. É reconfortante. As filhas condenam, mas ela tem a aprovação médica.

– Eu falo com ele todos os dias. Se está me fazendo bem, se me permite esquecer a dor, vou continuar convivendo assim com o meu filho – diz a aposentada. – Aquilo não é idade de se perder um filho, ninguém merece isso.

Passados 12 anos da morte do pai de Bonow uma organizada em Pelotas, Gimena ainda vive a sensação de estar próxima ao pai

Desde 2008, Maria Inês mantém intacto o quarto do filho Gabriel: a cama com o lençol do Inter e os tênis estão no mesmo lugar

Por isso o quarto de Gabriel é o mesmo de 28 de junho de 2008, o dia da morte. À esquerda da porta de entrada, sobre uma máquina de costura que serve de cômoda, estão uma velha chuteira de futsal e um tênis que recém havia ganho de presente. A toalha é um manto colorado. Abaixo da máquina estão um chinelo de dedo, empoeirado, e uma chuteira com a sola descolada. A cama se mantém encostada à parede vermelha com espelho quadros com um salmo bíblico, a foto do Inter campeão do mundo e dois símbolos do clube. Sobre um rack há recortes de jornais e caixas de correspondências trocadas com torcidas de outros clubes. O DVD do título mundial está junto a troféus, medalhas e roupas.

O que identifica Feijão com as organizadas do Inter são decalques estampados nas portas do guarda-roupa. Entre eles, está um recorte rasgado de uma organizada colorada acusada de ter eliminado um dos seus melhores amigos, o torcedor gremista Tadeu Junges, da Super Raça tricolor. É neste ambiente que a mãe passa a maior parte do tempo. Hoje a rotina é menos traumática:

– Deixei de assistir ao futebol por muito tempo e só voltei nos últimos anos. Vejo os jogos do Inter pela televisão e peço: "Ah, Gabi, ajuda eles a fazer um golzinho!"

Gabriel fez parte de organizadas desde cedo. Quando as brigas no Trensurb engrossaram, ele organizou excursões de ônibus que conduziam torcedores de São Leopoldo e Novo Hamburgo ao Beira-Rio. O ponto de encontro em São Leopoldo era o bar e a casa do colega colorado Jeferson Ferreira, no centro da cidade. Em 2004, Feijão foi acusado de estar envolvido na morte do adolescente gremista Tadeu Junges. Que era seu amigo. Quando soube da morte, ficou transtornado. De madrugada, acordava aos gritos:

– Não, Tadeu! Não Tadeu!

Gabriel ficou três meses no Presídio Central e mais tarde foi inocentado. Mas restou marcado.

Em agosto de 2007, ele e Jeferson foram baleados por Taquara, da Super Raça do Grêmio, que acabou depois condenado no processo por tentativa de homicídio.

O tiro nas nádegas se alojou no intestino. Os agressores prometeram mais: na próxima vez, seria na cabeça. Em junho do ano seguinte, aconteceu a execução no mesmo bar de São Leopoldo de onde partiam as excursões para o Beira-Rio.

– Eu não queria acreditar que o Gabriel estava envolvido neste mundo. Ele fazia faculdade de Educação Física na Feevale, tinha todo o amor em casa e trabalhava na empresa da irmã. Como imaginar uma tragédia dessas? – conta Maria Inês.

Corroída pela culpa, cobrando-se pela falta de atenção ao filho, a mãe logo tentou o suicídio.

A dor dos Oliveira é um espelho do trauma vivido por famílias assoladas pela violência fatal no futebol.

 

Como aconteceu com os Bonow, em Pelotas. Há momentos em que Gimena sente que o pai Gilberto, empresário e torcedor do Pelotas, morto em 2003, ainda está presente.

Até hoje é complicado relembrar o momento em que soube o que aconteceu. O irmão Dimitri acompanhava o pai na volta de um clássico Bra-Pel. Estavam próximos ao centro da cidade quando depararam com um grupo de violentos torcedores xavantes. Não houve como escapar: foram espancados, e o coração do empresário não aguentou. O infarto provocado pelo incidente o levou à morte.

Primogênita, Gimena administra a joalheria da família em uma galeria no centro da cidade. Do outro lado do mesmo centro comercial, o irmão Dimitri cuida da relojoaria, local onde o pai trabalhava. Gimena chora ao contar que, até hoje, tem a impressão de que vai levantar o telefone e falar com Gilberto pela linha interna que conecta os dois estabelecimentos.

– Foi muito difícil, até porque não tive a chance de me despedir dele. É algo ainda surreal, parece mentira. Sinto falta do conselheiro, do amigo. Minha mãe sempre foi a educadora, que nos impunha os limites – afirma.

Do outro lado da galeria, Dimitri mostra-se mais fechado ao falar do incidente em que também foi vítima. Não deixa que a emoção transpareça em seu relato, mas orgulha-se de ter mantido um dos hábitos preferidos do pai. Três dias após a tragédia, o Pelotas enfrentaria o São José-RS pela primeira fase da Série C do Brasileirão. Perguntava-se nos círculos próximos a Dimitri se ele continuaria a frequentar a Boca do Lobo.

– Eu fui justamente para mostrar que não ia abandonar. Meu pai era quem mais incentivava a ir aos jogos, quem me levava desde pequeno até em treinos. Pensei que ele não ia querer que eu me afastasse – lembra.

Dimitri frequenta a Boca do Lobo até hoje, embora com menos assiduidade do que na época do pai. Só deixou de frequentar clássicos.