Refugiados

Uma História

Publicado em 10 de outubro de 2015

Da ilha grega de Kos até o sul da Alemanha, ao longo de 2.590 quilômetros, sete países e oito dias, Zero Hora acompanhou a jornada de uma família síria rumo a um novo amanhecer

TEXTOS E FOTOS

Letícia Duarte

leticia.duarte@zerohora.com.br

A pequena grande travessia

Ghazi

Razan

Tala

Mohammad

Ghazi, Razan, Tala e Mohammad: pai, mãe e um casal de filhos partiram de Raqqa, primeira capital de província síria a cair nas mãos do Estado Islâmico, rumo a uma vida nova na Alemanha. Zero Hora os acompanhou nessa moderna odisseia

Mohammad vê as lágrimas escorrendo no rosto do pai e se aproxima, como a consolá-lo.

– Baba, baba!

O menino de três anos ainda não compreende os motivos do choro. Sentado aos pés de uma cama de solteiro, no quarto onde a família foi hospedada por voluntários, na Ilha de Kos, na Grécia, o pai examina a foto do pequeno compatriota sírio Aylan Kurdi na tela do meu celular. A foto que corre o mundo desde 2 de setembro, e que até aquele momento, 18 dias depois, ele não conhecia. Olha para o filho caçula, que tem a mesma idade do garoto da imagem, transformado em símbolo do drama dos refugiados depois de ser vítima de um naufrágio. Olha para a primogênita Tala, de cinco, que brinca com o celular ao lado da cama.

Foi por causa dos dois que Ghazi Alissa, 32 anos, começou essa jornada. A mesma travessia que Aylan não conseguiu completar.

– Ele morreu… morreu no mar? – indaga, inclinando-se para ver melhor a foto.

No dia anterior, eu havia estado na praia onde o corpo de Aylan foi encontrado, na Turquia, e comentei com o pai sobre a história, imaginando que lhe fosse familiar. Ao ver a imagem, começou a chorar. Para Ghazi, ela não era apenas um símbolo. Era a encarnação de seus maiores temores. Apenas 48 horas antes, ele, a mulher e as duas crianças haviam sacolejado nos mesmos botes infláveis superlotados, expondo-se aos mesmos riscos no Mar Egeu para fugir da guerra na Síria. Haviam embarcado na mesma praia turca, Bodrum, rumo a Kos, uma das principais portas de entrada dos refugiados na Europa. O lugar onde Aylan queria chegar, onde outros tantos nunca pisaram. Dos 300 mil que já cruzaram o Mediterrâneo rumo à Europa neste ano, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) calcula que 2,5 mil morreram ou desapareceram pelo caminho.

– Estou fazendo tudo isso pelos meus filhos. Eles são a minha vida, a minha alma – repete Ghazi com voz embargada, enxugando os olhos.

 

Lá fora, a temperatura beira os 30°C, nesta tarde de fim de verão na Europa. São pelo menos 800 refugiados acampados neste domingo, 20 de setembro, em Kos, destino turístico de águas cristalinas que viu o tradicional vaivém de barcos e iates luxuosos suplantado pelo afluxo de botes de borracha. Embarcações improvisadas que transportam aqueles que já abandonaram quase tudo, menos a esperança. De longe, a praia parece um acampamento de verão, com barracas coloridas lado a lado, de frente para o mar. Chegando mais perto, a paisagem é tomada por semblantes cansados, coletes salva-vidas de adultos e crianças espalhados pela areia, roupas estiradas para secar, mães trocando as roupas das crianças sobre tapetes, grupos se ensaboando e fazendo a barba sob o sol, voluntários correndo de um lado a outro para providenciar água, comida, roupas para quem chega. E todo dia chega mais gente, pelo menos centenas de pessoas. Por causa das crianças, Ghazi e a mulher conseguiram um teto provisório, enquanto aguardam a emissão dos documentos que lhes permitam seguir viagem. O sonho é chegar à Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel, apelidada de “Mamãe Merkel”, declarou semanas antes que os refugiados seriam bem-vindos.

Físico de formação, ex-professor de uma escola secundária, Ghazi planejava a fuga havia cerca de um ano, depois de concluir seu mestrado em meteorologia pela Universidade do Cairo, no Egito. Ao retornar à Síria após quatro anos morando fora, encontrou uma cidade sem trabalho para ele, sem escola para os filhos, explosões por todo lado, cabeças cortadas em represália a qualquer desobediência ao código radical imposto por fundamentalistas religiosos. Morador de Raqqa, a primeira capital de província dominada pelos rebeldes, em 2013, e pelo Estado Islâmico, em 2014, e alvo de bombardeios na luta entre as forças governistas e de oposição para retomá-la, resume com poucas palavras tudo o que deixou para trás.

– A Síria está morta. Não há futuro para meus filhos, não há futuro para ninguém.

A família partiu da cidade natal em 4 de setembro, mesmo dia em que o corpo de Aylan era enterrado, em Kobani. Juntou economias e ganhou ajuda de parentes para fazer a viagem. Pagou a traficantes US$ 3,6 mil (R$ 13,8 mil) para fazer a travessia da família de barco de Bodrum a Kos. O valor era cobrado por pessoa: US$ 1,2 mil para ele e a mulher e metade do preço para cada filho. Viajaram num bote de 4X5 metros, somando nove adultos e as duas crianças. Só na terceira tentativa conseguiram vencer os 20 quilômetros que separam Bodrum de Kos. Na primeira, o bote onde estavam foi apreendido pela guarda costeira turca. Na segunda, chegaram atrasados para a partida. O pai está aliviado por todos terem sobrevivido à travessia, mas a tensão da viagem ainda está impregnada em sua alma.

– Foram 30 minutos, mas pareceram 30 anos. A vida parou entre Bodrum e Kos – suspira.

Ghazi lembra o choro das crianças, assustadas com as ondas que se agigantavam sobre o barco. Tala toda encolhida num canto. Mohammad agarrado em seu colo. Ele e a mulher na proa, com a roupa encharcada, tentando proteger os filhos do imponderável. Ghazi não sabe nadar, mas diz que não temia pela própria vida. Só pensava nos pequenos. Durante toda a viagem, os tripulantes recitavam o Alcorão, pedindo proteção a Alá para chegar ao destino. Acreditavam não ter outra opção. Ficar na Síria seria morte certa. Arriscar-se no mar era uma tentativa de sobreviver.

– Na Síria estão matando todo mundo: crianças, mulheres, idosos. Estar na Síria é morrer – diz Ghazi.

 

Na orla da ilha grega de Kos, refugiados recebem roupas e acessórios e acomodam-se em barracas doadas

Viagem uniu 11 migrantes

A fé é o seu amparo. Conta que, por duas vezes, quando pararam de rezar dentro do bote, as ondas se avolumaram. Retomaram as preces, conseguiram chegar do outro lado. Extasiados, ao desembarcar, ajoelharam-se na areia para reverenciar seu Deus protetor.

Enquanto o pai me narra a epopeia, no inglês que aprendeu enquanto fazia seu mestrado no Egito, a mãe das crianças, Razan Assad, 30 anos, formada em Letras Árabes, aproxima-se com um sorriso nos lábios, servindo chá e biscoitos para a visita inesperada. Ficam surpresos ao saber que há uma jornalista brasileira interessada em conhecer a sua história. Ela oferece biscoitos amanteigados que ganhou de voluntários na chegada. Aceito a cortesia constrangida, pensando se a comida faria falta à família. Mas ali começo a aprender uma das primeiras lições da viagem: repartir a comida é um valor para os sírios. Eles não aceitam recusas. Dividem sempre o alimento e, frequentemente, esperam que você coma primeiro.

– Pegue, pegue! – insistem.

Entre goles de chá, Ghazi fala da expectativa da viagem. Ele tem acompanhado as notícias, sabe que a Europa tem imposto obstáculos nas fronteiras, mas nenhuma barreira parece intransponível depois de vencer o mar que já engoliu tantos compatriotas. Ainda não tem ideia de como vai chegar ao destino final. Diz que descobrirá no meio do caminho. Sonha em ver os filhos estudando, em cursar seu doutorado na Alemanha.

Ghazi com os filhos, Tala e Mohammad, na Ilha de Kos

No meio da conversa, outro sírio, Musa Amohammed, 23 anos, sai do banheiro de banho tomado. Ele estava no mesmo barco que a família, e assim como os outros integrantes do grupo, quase todos jovens, passou a ser considerado parte da família – a família que a travessia uniu. Na Síria, Musa era estudante de educação física. Passou dois meses na Turquia, trabalhando como carpinteiro, mas diz que desistiu de permanecer lá porque os patrões não pagavam seu salário. Os calos do trabalho pesado ainda são visíveis nas suas mãos. Como está acampado na praia, aproveita a oportunidade de banho no quarto de hotel. Quando me vê tirando fotos, diz que não pode aparecer no Facebook. Tem medo de ser encontrado e perseguido pelas forças de guerra. Cruza a mão repetidas vezes sobre o pescoço, indicando o que fazem na Síria com quem afronta as restrições impostas pelo Estado Islâmico. É o gesto que remete à decapitação.

– Daesh, Daesh – diz, referindo-se com a sigla em árabe para o Estado Islâmico.

Foi Musa quem me levou até ali. Encontrei-o na beira da praia no fim da manhã, brincando na areia com Mohammad e Tala. Sorridente e afetivo com as crianças, foi eleito por elas como  principal amigo. No trajeto de pelo menos 10 quadras até a pensão, aponta para uma refugiada pedindo esmola na calçada.

– Essa gente não é da Síria. Agora todos querem ser sírios – diz, surpreso com a quantidade de migrantes vindos de países como Paquistão e Bangladesh, onde não há guerra, em busca de uma oportunidade de asilo na Europa.

No hotel, o assunto volta à roda. Ghazi diz que não se importa que outros povos usem o nome da Síria para buscar melhores condições de vida. Desde que os direitos sírios sejam respeitados.

– Gostamos de todo mundo – minimiza.

Depois de vencer o mar, a maior preocupação do pai é saber quando poderão seguir viagem. Aguardam os papéis que dão direito a uma estada de 30 dias na Grécia e são uma espécie de passaporte para o início da viagem rumo à Macedônia, primeira fronteira a ser cruzada a fim de chegar à Alemanha. Ghazi acredita que a famíia receberá os documentos até a manhã do dia seguinte, e assim que conseguir pretende retomar a viagem. Não tem tempo a perder.

Horas depois, ele descobre que os documentos ficarão prontos antes do esperado. A polícia publica em seu mural um comunicado informando que haverá uma remessa de autorizações no final desta tarde. Às 18h daquele domingo, 20 de setembro, as filas começam a se formar diante da sede da polícia, uma construção com grandes arcos na entrada, que ocupa metade da quadra na avenida à beira-mar.

Quase duas horas depois, Ghazi, Razan e a prole também saem de lá com o tão sonhado papel. Estão felizes, mas apressados. Sentam-se em um tapete verde estendido na beira da praia com os outros integrantes da “família do barco”, planejando os próximos passos da viagem. Seguirão todos juntos. Enquanto conversam, o pequeno Mohammad come arroz com ervilhas, a refeição distribuída pelos voluntários, embalada em papel alumínio. Entre uma garfada e outra, abre um sorriso, expondo as covinhas das bochechas. Os adultos tentam comprar passagem de barco para Atenas no mesmo dia, mas não há vaga no próximo embarque. Será preciso esperar uma noite. Pagam 54 euros por pessoa e adquirem bilhetes para o dia seguinte, segunda-feira, às 19h45min, no navio da companhia Blue Star Ferries. A próxima etapa da viagem já tem dia e hora para começar.

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