Esperança sobre trilhos

Na viagem de trem rumo à Sérvia pelo interior da Macedônia, o vento da madrugada se insinua pelas portas sempre abertas. Não há assentos para todos

Ocaminho que separa Idomeni, no norte da Grécia, de Gevgelija, na Macedônia, vem sendo chamado de “terra de ninguém” pelas agências internacionais. Ghazi e Razan avançam sobre ele com os filhos no colo, ainda dormindo, no fim da noite desta terça-feira. Passam por um carro da polícia grega, que apenas observa a movimentação constante de ônibus chegando com novas levas de refugiados. Milhares de pessoas já estão em marcha à frente deles. No início de setembro, números divulgados por autoridades da Macedônia indicavam que até 5 mil pessoas chegavam à fronteira diariamente.

– É muita gente, muita gente! – espantam-se os rapazes do grupo.

Caminhamos 20 minutos até deparar com fileiras de migrantes sentados sobre os trilhos. A informação repassada boca a boca é de que a polícia de fronteira vai liberar a entrada aos poucos. O pai pede que todos se sentem juntos, para não se dispersarem. Mohammadd acorda no colo do pai e começa a brincar com as pedras do chão, o brinquedo possível no meio da jornada áspera.

Musa e Ammar se afastam do grupo para fazer as suas preces. Juntam as mãos em oração, depois se ajoelham e dobram o corpo sobre os trilhos, no cascalho. Agradecem por terem chegado até aqui e pedem proteção para os próximos passos. Ao voltar, Musa faz um sinal de positivo.

– Vamos em frente, vai dar tudo certo – confia.

Os mais jovens deitam sobre os trilhos, exauridos pela viagem.

Com a queda na temperatura e um vento gelado, o iraquiano Mohamed, que veste bermuda e chinelos, se encolhe com frio.

– Perdi todas as minhas roupas no mar – conta.

Diz que tudo o que lhe restou está na sacolinha plástica roxa que leva nas mãos. Pergunto sobre a mochila preta grande que carrega e ele explica que não é sua. Leva o peso nas costas como um favor para a família, para que os pais possam cuidar das crianças.

Uma hora depois, a fila começa a andar. Pouco antes da 1h da manhã, deixamos o território grego sem maior alarde, sem que alguém peça documentos. Na saída, voluntários distribuem roupas para as crianças. A mãe, que calçava sapatilha com meias de nylon preta, ganha botas de cano alto. Mohammad e Tala recebem roupas de inverno. Há muitos bebês de colo na fila. O choro das crianças embala a caminhada. Todos estão cansados e famintos, mas não é possível parar no meio da marcha.

Depois de concluir que seria incapaz de deter o fluxo de migrantes, a Macedônia mudou de estratégia e abandonou a tática do confronto: decidiu liberar a passagem e despachar os visitantes inconvenientes o mais rapidamente possível para o país vizinho, a Sérvia.

Aproveitando o tráfego constante de passageiros, ambulantes vendem cigarros e cartão telefônico. Uma banca montada na estrada diz que há wi-fi disponível para quem pagar por ele. No grupo ninguém quer fazer compras. Estão ansiosos para saber o que virá adiante.

À 1h20min, chegamos a um campo de refugiados da ONU. Sem qualquer conferência, todos entram. Recebem uma maçã, uma garrafa d’água e um pacote de biscoitos de “alta energia” na chegada. Em árabe, autoridades avisam que os refugiados serão colocados em um trem rumo à Sérvia. O preço será de 25 euros por pessoa. Dentro do campo, sentamos no chão sobre as mochilas e esperamos.

O trem chega 20 minutos depois, e as filas começam a se formar. Diante das portas do trem antigo e pouco iluminado, com pichacões em preto e branco manchando a tintura e janelas embaçadas por marcas de digitais, guardas recolhem o dinheiro e controlam a entrada aos berros, ríspidos:

– Em fila! Não saiam da fila! Parados!

Os refugiados são tratados como se fossem cargas a serem despachadas.

Os pais pegam as crianças no colo e entram na fila, com olhares tensos e um silêncio obediente. Todos pagam o mesmo valor de ingresso, mas não há lugar para todos. Ghazi vai na frente e consegue para os filhos um dos últimos assentos no vagão. Logo atrás, os rapazes não encontram mais lugar para se sentar. Já esbarram em gente sentada no corredor. O único espaço disponível é uma abertura entre os vagões. Somos nove pessoas comprimidas no piso frio. Não há como esticar as pernas. Sem casacos, os rapazes começam a tremer quando o trem parte, à 1h42min. As duas portas estão abertas, cruzadas pelo vento cortante. Serão quatro horas de viagem. Os meninos começam a apertar todos os botões e a forçar as portas, tentando fechá-las. Depois de cinco minutos, conseguem fechar uma delas. Quando a segunda se fecha, um barulho semelhante a um escapamento vazando perturba o ambiente. Ao tentarem resolver o problema, ela se abre outra vez. Ammar tira o Alcorão da mochila. Na escuridão e no frio, reza em silêncio. Por mais adversas que sejam as condições, eles celebram o fato de estarem seguindo em frente.

– Estou há 10 dias sem dormir, mas estou feliz por estar aqui – diz o iraquiano Mohamed.

Quinze minutos depois da partida, o trem faz uma parada e os meninos gritam:

– As portas não fecham!

São ignorados. Após várias tentativas, conseguem fechar parcialmente a segunda porta. O barulho persiste, mas preferem o ruído ao vento. Com o trem superlotado, não há como chegar ao banheiro. Alguns urinam pelo vão das portas. Ao longo da madrugada, começam a escorar a cabeça uns sobre os outros, entrelaçando braços e pernas. Dormem abraçados, à procura de calor humano.

 

Migrantes descansam na “terra de ninguém”, entre Idomeni, no norte da Grécia, e Gevgelija, na Macedônia