Arte orgânica

Tinta, sangue e vísceras: Karin Lambrecht inaugura ampla exposição no Santander Cultural

Artista gaúcha abre nova fase do projeto Contemporâneo RS

14/03/2017 - 07h00min | Atualizada em 14/03/2017 - 07h00min


A artista Karin Lambrecht vive e trabalha em Porto Alegre Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

A partir desta terça-feira, quem entrar no Santander Cultural será recepcionado pelos azuis, verdes e vermelhos da pintura Sempre (2016, imagem abaixo), que envolve o visitante com seus 2m de altura por 3m54cm de largura. Instalada no acesso ao saguão do edifício, ela anuncia a exposição Nem Eu, nem Tu: Nós — A Obra de Karin Lambrecht e o Olhar do Colecionador. Ao ultrapassá-la, o visitante se encontrará com outros 102 trabalhos. São pinturas abstratas, na maioria, mas há também três instalações, desenhos e documentos. É a maior individual da artista gaúcha, expoente da chamada geração 80, que colocou a pintura em evidência no país, e também é conhecida por usar sangue de carneiro em algumas obras.

Tela "Sempre" (2016) recepciona os visitantes do Santander Cultural e foi inspiração para nome da exposição Foto: Del Re Viva Foto / Reprodução

O empresário, colecionador e atual diretor-presidente da Fundação Iberê Camargo Justo Werlang olha para a mostra e se sente em casa. Muitas das obras expostas estão guardadas na sua residência, na Capital. Lá, ficam dispostas da mesma forma como estão no Santander: espalhadas em alturas diferentes pelas paredes do centro cultural porto-alegrense.

— Casa de colecionador é assim. Trabalhos lá em cima, um em cima do outro. É como se alguém tivesse espichado a minha casa para cá — descreve Werlang.

As peças são uma parte de sua coleção, que possui mais de 150 trabalhos assinados por Karin. Talvez 70%, nos cálculos do artista e curador da mostra, André Venzon, que elegeu a relação entre o colecionador e a artista como o foco da exposição. Venzon quer revelar a "personalidade" incomum da coleção de Werlang, que acumula muitas obras de apenas oito artistas para poder aprofundar-se na produção de cada um deles. Karin foi o último nome a ingressar nesse seleto grupo, que ainda é formado por Iberê Camargo, Xico Stockinger, Siron Franco, Nelson Felix, Daniel Senise, Mauro Fuke e Felix Bressan.

— Trata-se da coleção de arte contemporânea mais importante do Rio Grande do Sul — avalia Venzon. — A gente não tem instituições públicas capazes de oferecer esse mergulho no trabalho de uma artista assim — acrescenta o curador, que dirigiu o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS) entre 2011 e 2014.

A mostra marca a estreia da nova fase do projeto RS Contemporâneo. Desde 2012, o programa do Santander Cultural promoveu 18 exposições de jovens artistas gaúchos. Em 2017, com o subtítulo Pensamentos Curatoriais, voltou-se à figura do curador.

Venzon afirma que a curadoria foi compartilhada com o colecionador, que nunca havia exposto sua coleção com esta magnitude.

— Uma coleção ampla oferece condições de perceber o vocabulário do artista, de entrar no seu pensamento e na própria gênese da obra — explica Werlang.

Buscando aprofundar-se no universo de Karin, o colecionador reuniu trabalhos que representam toda a sua trajetória, desde os anos 1970. Também adquiriu documentos, dos quais cerca de 80 estão na mostra. São anotações, estudos e aquarelas. Tudo joga luz sobre o processo de criação da artista.

Obras recentes de Karin apostam no contraste entre cores intensas Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

As obras mais recentes mostram como Karin, aos 60 anos, continua produzindo muito. São pinturas planas, porém com várias camadas de pigmento que tornam as cores vibrantes e luminosas. Os quadros mais antigos incorporam materiais orgânicos, como Terra Queimada (1989), que combina pigmento, terra, recortes de ferro e folhas de árvore. São referências à Arte Povera e a Joseph Beuys. Cada material tem sua carga simbólica e, somado a elementos como cruzes e palavras, onipresentes nas obras, levantam reflexões sobre morte, religiosidade e a relação entre o corpo e espírito. Algumas telas são queimadas, cortadas ou deixadas ao relento. 

Quadro "Terra Queimada" (1989), ao centro, tem materiais incomuns como terra, folha de árvore, saco plástico e ferro Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

O uso de sangue animal, entre 1997 e 2008, deu grande repercussão à artista, especialmente após a 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, quando expôs Eu e Você (2001). O trabalho traz quatro vestidos brancos de algodão, três deles com manchas de sangue de carneiros abatidos, além de imagens de cruzes com vísceras. Como ressalta o crítico Cauê Alves no catálogo da mostra, o sangue "não é tratado como tinta", mas como índice do corpo. Além dessa instalação, estão presentes outras duas marcadas pelo uso do sangue de ovinos, Pai (2008) e Morte: Eu Sou Teu (1997) – esta com o sangue da própria artista. 

– Não pinto com pincel; uso a mão. Então muitas vezes me cortava sem querer e acabava usando o meu sangue também – explica Karin, com naturalidade.

Morte: Eu Sou Teu (1997) foi o primeiro trabalho em que Karin usou sangue e tem como suporte uma toalha de mesa de sua avó. Foi também a primeira obra dela adquirida por Werlang, em 2002. Conforme Alves, o título "propõe o desapego de um 'eu' específico e possibilita a visão do todo, do entorno, do outro e do mundo".

Antes da sua mostra anterior na Capital, Pintura e Desenho (no Instituto Ling, em 2015), Karin ficou 13 anos sem expor na cidade. Ao vislumbrar a nova mostra, a artista se surpreendeu:

– Quando olhei para tudo, pensei: "Puxa, tem uma coerência". Considero essa a minha primeira individual monográfica de verdade, que teve um estudo por trás.

Veja mais fotos da exposição:

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