Artemosfera

O artista fala: Vitorio Gheno cria uma das obras mais provocativas do Artemosfera

Aos 88 anos, artista gaúcho faz reflexão sobre as favelas brasileiras na Calçada da Fama, no Moinhos de Vento

04/12/2011 | 01h21
O artista fala: Vitorio Gheno cria uma das obras mais provocativas do Artemosfera Tadeu Vilani/Agencia RBS
Gheno em sua casa, que também serve de ateliê, no Centro Histórico da Capital Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS
Nos altos da Duque de Caxias, onde o vento não para de soprar nem nos dias mais cruéis do verão porto-alegrense, vive e trabalha um dos mais prolíficos artistas da cidade. O prédio tem dois blocos e 24 andares. É um dos maiores e mais movimentados de todo o Centro Histórico. Mas o repórter mal chega e já ouve do porteiro:

— Zero Hora, certo? Seu Vitorio está lá em cima, pode subir.

Vitorio Gheno tem 88 anos. É discreto, mas ativo como poucos companheiros de geração. Além do ateliê permanentemente em movimento, trabalha intensamente no resgate de gravuras e desenhos perdidos para compor um segundo livro biográfico, a ser lançado em 2012.

 
Pintura da série “Aldeias Urbanas” é um dos destaques da Artemosfera. A obra que remete às favelas brasileiras está instalada na Calçada da Fama do Moinhos de Vento - Foto: Adriana Franciosi, Agência RBS

O primeiro, Gheno – Artista Plástico, que saiu em 2006, apresentava predominantemente as suas pinturas. O próximo, Gheno – Artista Gráfico, trará, sobretudo, peças que ele compôs para revistas e campanhas publicitárias – embora também vá revelar velhas novidades em tinta óleo sobre tela.

– Há muitas coisas que encontramos por acaso – diz o artista, usando o plural em referência à fotógrafa e pesquisadora Nádia Raupp Meucci, que trabalha com Vitorio e assina a autoria dos dois livros.

– Em Buenos Aires, por exemplo: demos de cara, por acaso, com um exemplar do clássico infantil Heidi (da suíça Johanna Spyri), cuja capa tinha um desenho meu – conta, maravilhado.

Gheno morou fora do Brasil, primeiro na capital argentina, depois em Paris, entre as décadas de 1940 e 1950. Além de ilustrações para editoras locais, atuou como correspondente de revistas e jornais brasileiros, mandando “crônicas ilustradas” para o país. Foi nesse período que se firmou como um nome de relevância das artes gráficas.

Quando voltou ao país, fixou residência no Rio de Janeiro – sede das principais publicações nacionais à época. As pinturas para as quais se dedica atualmente, como as da série Aldeias Urbanas, que está em exposição na Rua Fernando Gomes dentro do projeto Artemosfera, pouco têm a ver com o que o artista fazia àquele tempo.

Desde os 14 anos, quando foi contratado como aprendiz da Seção de Impressão Litográfica da Livraria do Globo de Porto Alegre, sua trajetória apresenta tantas mudanças de foco em sua atuação que a pesquisa para os dois livros biográficos trouxe inúmeras revelações – para ele próprio.

– O que faço tem a ver com o contexto em que estou, com as motivações que o cotidiano me traz. As Aldeias Urbanas, por exemplo: comecei a produzi-las impressionado com a visão panorâmica das favelas formadas nos últimos anos, sobretudo aquelas que conheci nas re­giões Norte e Nordeste do país.

Gremista apaixonado, golfista inveterado, fã do ator argentino Ricardo Darín, Gheno integrava a turma que fundou o Clube de Cinema da Capital, em 1948. A participação ativa nos projetos que movimentam a cena cultural da cidade nunca foi totalmente deixada de lado, mas, quando voltou a fixar residência em Porto Alegre, no fim dos anos 1950, ele redirecionou parte de suas energias à decoração de interiores.

Além de vender suas pinturas para redes hoteleiras de todo o país, começou a trabalhar em projetos responsáveis por decorar, entre outros espaços, o Jockey Club do Rio Grande do Sul e a lendária casa noturna Encouraçado Butikin.

– Viver de pintura já era difícil 50 anos atrás, imagina atualmente – comenta. – Hoje as pinturas estão muito misturadas com outras técnicas, há muito de tudo. E muito é igual a pouco, tudo é igual a nada. Todas as coisas são para consumo rápido, acabam passando. Nada fica. A era atual é a da saturação do nada. Justamente por isso eu tenho esperança de que os trabalhos mais simples, puros, vão acabar voltando. As pessoas vão sentir falta. O caso das revistas é semelhante: no tempo da Sombra e da Rio (das quais Gheno foi colaborador) havia muitas publicações desse tipo, mas hoje há ainda mais. A diferença é que as revistas atuais a gente nem conhece ou, em alguns casos, quando conhece, despreza.

Leia esta matéria na íntegra na edição impressa de ZH deste domingo.

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