Cinema entreverado

Chuí e Chuy assistiram em cima da fronteira Brasil-Uruguai à pré-estreia do filme "A Superfície da Sombra"

Filme do diretor Paulo Nascimento rodado na região da fronteira é baseado no livro do escritor Tailor Diniz

09/04/2017 - 13h43min | Atualizada em 09/04/2017 - 15h33min
Chuí e Chuy assistiram em cima da fronteira Brasil-Uruguai à pré-estreia do filme "A Superfície da Sombra" André Ávila/Agencia RBS
A tela foi instalada  no lado brasileiro, e  público sentou-se na parte uruguaia da fronteira Foto: André Ávila / Agencia RBS  

Chuí — Sentada na plateia montada no meio da avenida que divide Chuí do Chuy, a uruguaia Luciana Araujo esperava pelo início da sessão do filme ao lado da neta Bruna, menina brasileira de 10 anos.

— Aqui somos assim, todos entreverados — justificou a avó falando sobre a dupla nacionalidade da parentela.

A definição miscigenada pode se estender a toda aquela fronteira entre Brasil e Uruguai e também retrata com propriedade a pré-estreia do filme A Superfície da Sombra, realizada na sexta-feira à noite. Cerca de mil pessoas reuniram-se para assistir ao primeiro longa rodado na região, em uma estrutura ao ar livre binacional: a tela ficava no lado brasileiro da rua, o público sentava-se na parte uruguaia. O evento contou ainda com apresentações dos músicos uruguaios da Banda Municipal de Lascano e do grupo brasileiro de pop rock Kurtametragem.

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Anunciado como o primeiro filme totalmente falado em portunhol, a coprodução entre Brasil e Uruguai dirigida pelo gaúcho Paulo Nascimento é baseada no livro homônimo de Tailor Diniz. Na história, Tony (Leonardo Machado) é um sujeito solitário que viaja ao extremo sul do país para atender ao chamado de uma amiga que não vê há muitos anos e que precisa lhe contar algo importante. O produtor musical, porém, chega tarde demais: a mulher acaba de morrer — e a filha dela, a sensual jovem Blanca (Giovana Echeverria), é quem recebe o visitante em casa. Aos poucos, Tony vai tomando contato com os segredos e mistérios daquela comunidade cercada por um clima quase fantástico.

A première "doble chapa" contou com as presenças do diretor, de integrantes da equipe técnica, do autor do romance e do casal protagonista, além dos atores Nelson Diniz, Sirmar Antunes, Simone Telecchi e Mariana Catalane. Já a audiência misturava crianças e adultos, jovens e idosos, que circulavam entre os vendedores ambulantes de comida e bebida e dançavam na frente do palco ao som das músicas tocadas antes do filme. 

Quando A Superfície da Sombra começou, a dispersão descontraída deu lugar primeiro à atenção para a projeção luminosa e depois ao orgulho: todos aplaudiam em cena aberta ao reconhecer na tela locações, ruas, cidadãos e até estabelecimentos comerciais.

— A sessão foi incrível, essa união foi exatamente o que a gente queria e tem tudo a ver com o filme. Temos que ver a fronteira não como um lugar de divisão, mas de encontro. O filme fala dessa fronteira que experimentamos o tempo todo, entre certo e errado, sonho e realidade. A gente passa a vida inteira na fronteira. Qual é a diferença de estarmos neste ou naquele lado da fronteira? — questiona Nascimento, que anuncia para maio a estreia de A Superfície da Sombra nos cinemas e adianta que em junho o filme deve chegar à TV e aos serviços de streaming.

Especialista em rodar com pouco tempo e com orçamentos enxutos, o diretor do filme Em Teu Nome (2010) e da minissérie Animal (2014) se superou em A Superfície da Sombra: o longa foi filmado em apenas 10 dias, ao custo de R$ 1,3 milhão. Para o ator Leonardo Machado, que foi produtor executivo de A Oeste do Fim do Mundo (2013) — produção dirigida por Nascimento na fronteira da Argentina com o Chile, com elenco e equipe reunindo brasileiros, argentinos, uruguaios e chilenos —, o intercâmbio com os vizinhos é um caminho artístico e financeiro ainda a ser desbravado pelo cinema nacional.

— São poucos os filmes latino-americanos que chegam aos nossos cinemas, da mesma forma que são raros os filmes brasileiros exibidos nesses países. Esse diálogo tem um universo a ser explorado. Para nós que estamos no garrão do Brasil, essa coprodução é natural — argumenta o artista, que vai encarnar Leonel Brizola no filme Legalidade, a ser dirigido por Zeca Brito e estrelado por Cleo Pires.

O livro

O escritor e roteirista de cinema e televisão Tailor Diniz lançou o romance A Superfície da Sombra em 2012. O autor nascido em Júlio de Castilhos tem 15 livros publicados, boa parte deles flertando com o gênero policial e o suspense — os recentes Crime na Feira do Livro (2010) e Mistério no Centro Histórico (2016), por exemplo, giram em torno das investigações de assassinatos cometidos em Porto Alegre. Antes do longa-metragem dirigido por Paulo Nascimento, Diniz já fora adaptado para as telas nos premiados curtas Terra Prometida (2006), de Guilherme Castro, e Rolex de Ouro (2007), de Beto Rodrigues.

A Superfície da Sombra é ambientado em duas cidades gêmeas fronteiriças fictícias — Poblado Oriental, no Uruguai, e Passo do Cati, no Brasil —, separadas apenas por uma avenida. A chegada ao local do escritor Antônio, vindo da Capital, põe em marcha forças obscuras latentes que parecem conspirar contra o estrangeiro. Circulando de um lado e outro do limite geográfico — mas também entre a tênue divisa entre realidade e imaginação, sanidade e delírio —, o protagonista depara com figuras dúbias e misteriosas como um zelador de cemitério.

— No filme, o grande ator uruguaio Cesar Troncoso está ótimo caracterizado como dublê de coveiro e cantor de tango — elogia Diniz.

* O repórter viajou a convite da produção do filme

 
 
 
 
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