Crítica

Documentário brasileiro causa impacto ao denunciar massacre dos Guarani Kaiowá

"Martírio" estreia nesta quinta-feira nos cinemas

12/04/2017 - 15h32min | Atualizada em 12/04/2017 - 15h32min
Documentário brasileiro causa impacto ao denunciar massacre dos Guarani Kaiowá vitrine filmes/Divulgação
Foto: vitrine filmes / Divulgação  

Martírio é uma palavra forte, mas descreve à perfeição a trajetória dos Guarani Kaiowá, população indígena que vive no Centro-Oeste brasileiro, no Paraguai e na Argentina e que vem sendo sufocada ao longo dos séculos, conforme aponta o cineasta Vincent Carelli em seu novo longa-metragem, que estreia nesta quinta nos cinemas (em Porto Alegre, com sessões no CineBancários e no Espaço Itaú).

Trata-se do filme definitivo não apenas sobre o massacre dessa tribo, subgrupo contemporâneo dos índios Guarani, mas sobre a história de repressão que marca o convívio entre o homem branco e os povos nativos do continente americano.

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Brasileiro nascido na França, fotógrafo por formação, Carelli, 63 anos, é o principal nome por trás do projeto Vídeo nas Aldeias, cooperativa criada em 1986 que usa meios audiovisuais para documentar as atividades e preservar a memória indigenista no país. Seus documentários raramente conquistavam projeção para além dos festivais etnográficos, até que, em 2009, ele lançou Corumbiara, filme sobre a gleba homônima localizada em Rondônia que produziu uma das maiores epifanias coletivas vistas no Festival de Gramado nos últimos anos – a sensibilidade do retrato humanista de índios expulsos de suas terras e jogados na mata para viver isoladamente, alguns sem qualquer contato com outras pessoas, serviu como atestado de qualidade de seu trabalho para além dos guetos nos quais esse tipo de produção costuma ficar restrita.

Martírio, que foi premiado nos festivais de Brasília e Mar del Plata e na Mostra de São Paulo, é ainda melhor.

Trabalhando em conjunto com os codiretores Ernesto de Carvalho e Tita, Carelli apresenta imagens de arquivo, capturadas mais de cem anos atrás, e uma ampla pesquisa de informações que dão conta da vida dos Guarani Kaiowá desde o século 18 – quando, sublinha, relatos os classificavam como um povo amistoso e tolerante. A violência gradativa, praticada por jesuítas e bandeirantes no início, e por fazendeiros e suas milícias mais recentemente (conforme flagrantes apresentados já ao final dos 162 minutos de projeção) não foi suficiente para mudar por completo essas características. Mas ajudou a deixá-los mais, por assim dizer, na defensiva – o que só aumentou sua condição de fragilidade, de "lado mais fraco" no embate por território tantas vezes decidido pelo lobby nos gabinetes de Brasília.

Vêm da capital federal algumas das imagens mais impactantes de Martírio. O grande mapa histórico elaborado por Carelli inclui as políticas levadas a cabo pelo governo Getúlio Vargas e pela ditadura militar iniciada nos anos 1960, ambas com efeitos trágicos para os índios. Fundamentalmente, apresenta as consequências da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), que provocou uma reconfiguração dos mapas de Argentina, Brasil e Paraguai e deixou parte dos Guarani Kaiowá "desterritorializados". É particularmente vergonhoso ver os representantes do agronegócio no Congresso Nacional, alguns deles gaúchos, propagando discursos de ódio nas tribunas do parlamento apoiados em informações equivocadas sobre a origem dos índios. Eles não são "invasores paraguaios", como afirmam textualmente dois deputados. Agora, quando um parlamentar diz, revelando preconceitos generalizados, que "dessa gente (índios, negros, sem-terra, gays e lésbicas) não se pode esperar nada mesmo", qualquer possibilidade de contra-argumentação torna-se inócua.

O histórico de defesa da preservação da cultura das comunidades indígenas aproximou Carelli desses povos. Apesar disso, em Martírio, ao contrário do que as últimas frases podem sugerir, não fez um filme por princípio "a favor" dos Guarani Kaiowá. Concedeu, isso sim, a palavra a agricultores brancos e seus representantes, dando espaço para todos os lados exporem seus argumentos. É que se torna impossível, para o espectador minimamente sensível, defender esses argumentos quando eles se resumem à intolerância e à violência. São palavras proferidas por suas próprias bocas que denunciam alguns dos inimigos dos índios. Esse é um dos trunfos de Martírio: deixar falar. Dar voz.

O problema é que, nesta era de culto a extremos, até os discursos odiosos encontram ressonância.

MARTÍRIO
De Vincent Carelli
Documentário, Brasil, 2016, 162min.
Em exibição no CineBancários (diariamente) e no Espaço Itaú (em dias restritos; confira o site para saber quando assistir).
Cotação: ótimo.

 
 
 
 
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