Glamour e prestígio

Barracos, polêmicas e números: começa nesta quinta a 70ª edição do Festival de Cannes

Um dos principais do cinema internacional será realizado até 28 de maio

Por: AFP
16/05/2017 - 19h13min | Atualizada em 16/05/2017 - 19h26min
Barracos, polêmicas e números: começa nesta quinta a 70ª edição do Festival de Cannes LOIC VENANCE/AFP
Foto: LOIC VENANCE / AFP  

A imagem de uma jovem e radiante atriz italiana Claudia Cardinale dá as boas-vindas a Cannes, que finaliza os preparativos para o maior festival de cinema do mundo, que, a partir desta quarta-feira, receberá grandes estrelas com um gigantesco dispositivo de segurança.

Outra diva italiana, Monica Bellucci, mestre de cerimônias da 70ª edição do festival, desembarcou na última segunda-feira na luxuosa cidade da costa sudeste da França. Nesta terça-feira foi a vez do presidente do júri, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

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Estrelas como Nicole Kidman – grande nome do evento com três filmes e uma série em exibição –, Colin Farrell, David Lynch, Sofia Coppola e Isabelle Huppert também desfilarão pelo tapete vermelho durante o festival que termina no dia 28.

Dez meses depois do atentado na cidade próxima de Nice, onde um extremista a bordo de um caminhão deixou 86 mortos, as autoridades mobilizaram um dispositivo de segurança inédito, com direito a 300 imponentes vasos de plantas para impedir este tipo de ataque, além de 550 câmeras de segurança.

A polêmica do Netflix

No total, 18 filmes disputarão a Palma de Ouro, incluindo quatro produções americanas e quatro de cineastas franceses, enquanto o austríaco Michael Haneke, duas vezes vencedor do maior prêmio do festival com A Fita Branca e Amor, pode se tornar o primeiro diretor a vencer três vezes Cannes, desta vez com Happy End.

A polêmica fica por conta de dois filmes selecionados para a mostra competitiva que foram produzidos pela plataforma americana de streaming Netflix. The Meyerovitz Stories, do americano Noah Baumbach, e Okja, do sul-coreano Bong Joon-Hom, não poderão ser exibidos nas salas francesas em consequência da legislação nacional que impõe um prazo de três anos entre a estreia nos cinemas e a disponibilidade na internet.

O Netflix se negou a aguardar este período e, diante dos protestos das salas francesas, o festival decidiu na semana passada que, a partir de 2018, todas os filmes em competição deverão assumir o compromisso prévio de uma distribuição nos cinemas do país.

O diretor de conteúdo do serviço de streaming, Ted Sarandos, pediu na última segunda que os festivais de cinema se adaptem aos novos tempos:

– O público está mudando, assim como os distribuidores, e os festivais... provavelmente também mudarão.

Séries e realidade virtual

Fora de competição, o mexicano Alejandro González Iñárritu apresentará um curta-metragem em realidade virtual, Carne e Areia, sobre a experiência de um imigrante que tenta atravessar a fronteira com os Estados Unidos.

Duas séries de TV, um formato que faz cada vez mais sucesso, foram incluídas no programa oficial. Uma delas é a terceira temporada de Twin Peaks, de David Lynch, sucesso de 1990 e que terá dois episódios exibidos em Cannes. A outra é a segunda temporada de Top of the Lake, da neozelandesa Jane Campion.

O Brasil será representado na Semana da Crítica com o filme Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa. 

Por ocasião do 70º aniversário de Cannes, o diretor brasileiro Fernando Meirelles opinou que o festival "perdeu um pouco de sua importância pelo volume de filmes e plataformas que existem hoje".

– A seleção de Cannes é apenas uma seleção interessante, mas já não se pode afirmar que está representando o mais estimulante ou o melhor do ano –  disse o cineasta.

Dezoito filmes disputam o prêmio Palma de Ouro que será entregue no 70º festival de cinema de Cannes em 28 de maio.

Veja a lista de filmes em competição:

- Loveless, de Andrey Zvyagintsev (França)
- Good Time, de Benny Safdie e Josh Safdie (EUA)
- You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay (EUA/França)
- L'Amant Double, de François Ozon (França)
- Jupiter's Moon, de Kornél Mandruczo (Hungria)
- A Gentle Creature, de Sergei Loznitsa (França)
- The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos (Reino Unido/EUA/Irlanda)
- Radiance, de Naomi Kawase (Japão/França)
Geu-hu, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
- Le Redoutable, de Michel Hazanavicius (França)
- Wonderstruck, de Todd Haynes (EUA)
- Happy End, de Michael Haneke (França/Áustria/Alemanha)
- Rodin, de Jacques Doillon (França/Bélgica)
- O Estranho que Nós Amamos, Sofia Coppola (EUA)
- 120 Battements par Minute, de Robin Campillo (França)
- Okja, de Bong Joon-Ho (Coreia do Sul/EUA)
- In the Fade, de Fatih Akin (Alemanha/França)
- The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach (EUA)

Veja alguns números da seleção oficial do Festival de Cannes 2017

- 49 longas-metragens de 29 países foram selecionados de um total de 1.930 propostos para o maior festival de cinema do mundo, contando com os trabalhos apresentados fora de competição, em sessões da meia-noite ou mostras especiais. O número de filmes inscritos foi de 1.869 em 2016.

- Deste total, 18 longas estão em competição e 16 serão exibidos na mostra paralela Un Certain Regard.

- Entre os diretores que disputam a Palma de Ouro, apenas o austríaco Michael Haneke já foi premiado, e em duas ocasiões, por A Fita Branca, em 2009, e Amor, em 2012.

- Dos 18 filmes que concorrem à Palma de Ouro, quatro são assinados por cineastas franceses, quatro por americanos, dois por coreanos, um por um húngaro, um por um britânico, um por um austríaco, um por um russo, um por um ucraniano, um por um grego, um por um alemão e um por um japonês.

- 3 mulheres cineastas estão disputando a Palma de Ouro, o mesmo número que no ano passado: a americana Sofia Coppola, a japonesa Naomi Kawase e a britânica Lynne Ramsay.

Os barracos do júri em Cannes

Nem tudo o que reluz é ouro, ainda que seja a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes. Ao longo da história da mostra, vazamentos sobre as deliberações do júri revelaram confusões e guerras viscerais.

Rossellini, a jogada perversa

Em 1977, Roberto Rossellini reina sobre o júri como um déspota ilustrado. O presidente do Festival, Robert Favre Le Bret, quer que a Palma de Ouro vá para Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola. Mas Rossellini prefere o filme dos irmãos Taviani, Pai Patrão, filmado em 16 mm para a televisão. Para dissipar as dúvidas de uma integrante do júri, Rossellini lhe dá de presente uma joia caríssima que põe na conta de Favre Le Bret. No dia da premiação, ao entregar a Palma aos irmãos Taviani, o diretor, em tom provocador, afirma: 

– Sem a televisão, o cinema morrerá. 

Indignado, Favre Le Bret promete que de a partir de então, o júri teria "mais profissionais de verdade e menos amadores".

O concurso "arranjado" de Françoise Sagan

Em 1979, a Palma de Ouro é atribuída aos filmes Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, e a O Tambor, de Volker Schlöndorff. Sete meses depois, a polêmica vem à tona: a presidente do júri, a escritora Françoise Sagan, diz à imprensa que a competição foi "arranjada" e acusa Favre Le Bret de ter pressionado o júri, que queria premiar apenas o filme do cineasta alemão. A escritora se queixa de que o hotel onde se hospedou, convidada pelo Festival, lhe exigiu pagar suas despesas de alojamento. Cannes reage publicando a conta astronômica de gastos "extras".

Polanski embriaga o júri

Em 1991, um único filme agrada o presidente do júri, Roman Polanski: Barton Fink: Delírios de Hollywood, dos irmãos Coen. O cineasta quer atribuir-lhe todos os prêmios. Na véspera da premiação, organiza uma deliberação privada, no qual serve álcool em abundância, aproveitando para convencer todos os membros do júri para atribuir a Palma de Ouro a Barton Fink. No dia seguinte, durante a deliberação oficial, a decisão é questionada, mas Polanski rejeita categoricamente que se vote de novo. O filme levou três prêmios: a Palma de Ouro e os prêmios de melhor diretor e melhor interpretação masculina para John Turturro. Esta concentração suscita tal polêmica que o Festival estabelece que a partir de então, um mesmo filme só pode levar um prêmio, com exceção da recompensa à melhor interpretação masculina/feminina.

A guerra Adjani-Moretti

Em 1997, a atriz francesa Isabelle Adjani presidiu o júri, do qual faz parte o cineasta italiano Nanni Moretti. No dia da última deliberação, a atriz quer atribuir a Palma de Ouro a O Doce Amanhã, de Atom Egoyan. Mas o restante dos jurados preferem claramente A Enguia, de Shohei Imamura. Moretti, que defende também Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami, sugere a Adjani pedir ao Festival que autorize que se premie com a Palma os dois filmes. A atriz francesa aceita, acreditando que o cineasta apoiará O Doce Amanhã. Mas ele vota em A Enguia e convence o restante dos jurados a escolherem também Gosto de Cereja. À imprensa, Adjani chamou Nanni Moretti de "Maquiavel".

* AFP

 
 
 
 
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