Crítica

Em cartaz nos cinemas, "Poesia Sem Fim" lembra juventude do cultuado cineasta Alejandro Jodorowsky

Segundo filme da pentalogia autobiográfica do diretor de "El Topo" e "A Montanha Sagrada" é um exercício de liberdade por meio da memória

12/07/2017 - 14h00min | Atualizada em 12/07/2017 - 15h04min


Adam Jodorowsky, filho do cineasta, em "Poesia Sem Fim" Foto: Pascale Montandon / Divulgação

Onde termina a lembrança e começa a fantasia? Memória também pode ser delírio – varia conforme a imaginação de cada um. A do diretor franco-chileno Alejandro Jodorowsky parece não ter limites, como este nome histórico do cinema de vanguarda das décadas de 1960 e 1970 já indicou com filmes como Fando & Lis, El Topo e A Montanha Sagrada (os três lançados entre 1968 e 1973).

Jodorowsky, 88 anos, é um cineasta bissexto. Tem menos de 10 longas-metragens no currículo. Mas chegou à maturidade com um projeto extenso – e pretensioso: uma pentalogia que vai narrar a sua biografia desde o nascimento, na cidadezinha de Tocopilla, região litorânea entre Antofagasta e Iquique (norte do Chile), filho de imigrantes vindos da região que hoje compreende a Ucrânia.

O primeiro dos cinco títulos (A Dança da Realidade, de 2013) passou com discrição pelo circuito brasileiro, mas o segundo, Poesia Sem Fim (2016), que estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre, parece ter recebido mais atenção de distribuidores e exibidores. No Festival de Cannes do ano passado, foi aplaudido de pé, por vários minutos, pelo público da Quinzena dos Realizadores.

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O novo filme narra a transição entre a infância e a vida adulta, quando Alejandrito, como era chamado, rebela-se contra o conservadorismo do pai, decide ser poeta, foge de casa, descobre a arte e o amor, muda-se para Santiago, onde conhece parceiros como Enrique Lihn, e, depois de trabalhar como palhaço e artista de marionetes, resolve navegar até Paris.

Há alguma desordem nesses movimentos – ao menos é assim, embaralhados, que parte deles aparece em A Dança da Realidade e Poesia Sem Fim. É interessante também a confusão geracional que se estabelece pelo fato de que o filho mais velho do diretor, Brontis, interpreta o pai de Jodorowsky, e o mais novo, Adam, encarna o jovem Alejandro. Sob certo aspecto, o caos é um propósito do cineasta, que se afasta do circo referenciado no primeiro longa mas segue com o espírito felliniano, tanto pela composição exagerada, muitas vezes artificializada de certas pessoas e lugares, quanto pela maneira lúdica e babélica (a la Amarcord) com a qual as rememorações são encadeadas.

Este segundo filme parece mais orgânico nesse encadeamento, na comparação com o primeiro, talvez porque agora, com a consciência mais desenvolvida, Alejandro já vive como um poeta. Vive, aqui, é literal: em vez de apenas produzir poemas escritos, ele atua socialmente de modo poético – é como, incorporando um princípio de liberdade irrestrita, consegue demarcar seu lugar no mundo.

Os cenários artificiais e os personagens clownescos, com suas máscaras a escancarar a falsidade das aparências, fazem sentido porque é assim que Jodorowsky lembra deles. E a lembrança é, em si, o próprio ato de libertação, pois permite uma reinterpretação do real, mais ou menos fiel a este, conforme se desenvolvem, ou são superadas, as repressões psíquicas de cada um – os recalques, na definição freudiana.

O próprio Jodorowsky do presente aparece como uma voz da consciência do jovem Alejandro, em diálogos de alta potência dramática, sobretudo, porque expõem o artista em momentos-chave de sua trajetória. Não há a intenção de se justificar – nem haveria por que fazê-lo –, mas sim de refletir sobre o significado desses instantes. De forma livre, quem sabe fantasiosa – é dessa maneira que se moldou, subjetivamente, a memória do artista.

Imagens lúdicas: as lembranças de Jodorowsky Foto: Pascale Montandon / Divulgação

Estranho, exótico, delirante – Poesia Sem Fim é como o seu autor. É um filme belíssimo, que além de tudo faz vislumbrar a riqueza dos três títulos que estão por vir – imagine como serão as lembranças de Jodorowsky de suas descobertas na França, por meio de parcerias com Luis Buñuel e Andre Breton, dos bastidores da produção de A Montanha Sagrada, viabilizado quando El Topo se tornou uma febre e ele angariou apoiadores como John Lennon e Andy Warhol, ou ainda do trabalho com Fernando Arrabal e Roland Torpor que originou o movimento surrealista Pânico.

A organicidade poética da memória só tende a aumentar.

POESIA SEM FIM
De Alejandro Jodorowsky
Drama, Chile/França, 2016, 120min.
Em cartaz a partir desta quinta no Espaço Itaú, em Porto Alegre.
Cotação: ótimo.

 
 
 
 
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