Teatro

Com grande elenco, "Os realistas" aborda vida, amor, casamento e morte no Theatro São Pedro

Espetáculo que integra o 23º Porto Alegre Em Cena terá sessões desta sexta-feira a domingo

Por: Fábio Prikladnicki
23/09/2016 - 07h00min | Atualizada em 23/09/2016 - 07h00min
Com grande elenco, "Os realistas" aborda vida, amor, casamento e morte no Theatro São Pedro Leo Aversa/Divulgação
Mariana Lima e Fernando Eiras estão no elenco da montagem Foto: Leo Aversa / Divulgação

O casal Silva, que mora em um lugarejo, recebe como novos vizinhos um casal também de sobrenome Silva, que acaba se instalando em uma casa igual à do primeiro. Na relação entre esses quatro personagens, por vezes engraçada e por vezes pungente, desenvolvem-se reflexões sobre a vida, o amor, o casamento e a morte. Mas também está em jogo o limite da linguagem em tratar dessas grandes questões, uma característica das peças do dramaturgo americano contemporâneo Will Eno.

Assim é o espetáculo Os realistas, um dos destaques da programação do 23º Porto Alegre Em Cena, com sessões desta sexta-feira (23/9) a domingo (25/9) no Theatro São Pedro. Quem dirige a montagem é um especialista em Will Eno, o diretor Guilherme Weber, que trabalhou anteriormente com cinco peças do autor. Os espectadores gaúchos poderão prestigiar outro talento de Weber: será sua estreia como ator da montagem, substituindo Emilio de Mello, que está gravando a série Psi, da HBO. O diretor e ator estará ao lado de um elenco repleto de grandes nomes do teatro nacional, assim como ele: seu personagem, José, é marido de Pônei, vivido por Debora Bloch, idealizadora e produtora do projeto. O outro casal é representado por Fernando Eiras (João) e Mariana Lima (Julia).

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Weber relaciona a obra de Eno à de dois grandes mestres da dramaturgia moderna: Samuel Beckett (1906 – 1989) e Edward Albee, que morreu na última sexta-feira, aos 88 anos:

– Quando Thom Pain (peça de Eno) estreou em Nova York, o crítico do New York Times (Charles Isherwood) o definiu como "o Samuel Beckett da geração Jon Stewart", em referência ao apresentador do Daily Show por 16 anos. Ou seja, uma espécie de Beckett contemporâneo. Ele é diretamente influenciado pelo Beckett e pelo Albee. Frequentou uma oficina de dramaturgia que o Albee promoveu, então herdou alguns elementos, especialmente o espelhamento de casais.

Aqui, explica Weber, o dramaturgo pratica uma "digressão" do gênero dramático realista, que herda e, ao mesmo tempo, subverte:

– Will opta por escrever uma dramaturgia realista seguindo alguns capítulos dessa cartilha, como a substituição do homem épico pelo homem comum, o que talvez seja a grande herança do realismo. Mas, ao mesmo tempo, faz uma digressão do gênero, pois não traz a epifania que se espera do realismo.

Ou seja, se há algo que os espectadores não devem esperar é uma mensagem fechada e empacotada. As conclusões caberão a cada um. Há, na verdade, "múltiplas mensagens", como aponta Mariana:

– Mas eu ressaltaria a questão da nossa fragilidade diante do inexorável: vida, morte, doença, paixão, amizade. Tudo nos atravessa sem que tenhamos controle de nada, tudo nos escapa.

OS REALISTAS
Nesta sexta (23/9) e sábado (24/9), às 21h, e domingo (25/9), às 18h.
Theatro São Pedro (Praça Marechal Deodoro, s/nº), fone (51) 3227-5100, em Porto Alegre.
Ingressos: R$ 80.
Desconto de 50% para sócio e acompanhante do Clube do Assinante.
Ponto de venda sem taxa: loja Myticket (Rua Padre Chagas, 327, loja 6): nesta sexta, das 9h às 18h; e sábado, das 10h às 15h. Pontos de venda com taxa de 20% sobre o total da compra: site ingressospoaemcena.com.br e telefone (51) 3030-1500, ramal 512, nesta sexta, das 9 às 18h. Se ainda houver ingressos, serão vendidos no teatro, uma hora antes das sessões (pagamento apenas em dinheiro).

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Confira entrevistas com os quatro atores de Os realistas:

Guilherme Weber (José)

Na sua visão, sobre o que trata Os realistas?
Acho que essa é uma peça sobre alguns temas arquetípicos da humanidade, como amor, liberdade, relacionamento e morte. A sociedade ocidental não lida com esse tema de se preparar para a morte. E também é sobre falência de linguagem, um dos temas mais caros à obra do Will Eno. Identifico que aqui a falência de linguagem também é dos personagens, não é só da relação entre cena e plateia.

Qual a sua frase preferida do seu personagem?
"A natureza não passa de algumas regras diferentes. Leis, eu acho."

Qual é a maior qualidade e o maior defeito de seu personagem?
A maior qualidade é a incrível capacidade de ser atento para o outro. É um personagem humanista nesse sentido do desenvolvimento da fraternidade. É uma qualidade linda. É difícil achar um defeito no personagem. Talvez uma certa descrença, mas não sei se é defeito, talvez seja a maturidade.

Na sua visão, de que outro dramaturgo Will Eno mais se aproxima?
Beckett. Quando Thom Pain estreou em Nova York, o crítico do New York Times (Charles Isherwood) o definiu como "o Samuel Beckett da geração Jon Stewart", em referência ao apresentador do Daily Show por 16 anos. Ou seja, uma espécie de Beckett contemporâneo. Ele é diretamente influenciado pelo Beckett e pelo (Edward) Albee, que acabamos de perder. Frequentou uma oficina de dramaturgia que o Albee promoveu, então herdou alguns elementos, especialmente o espelhamento de casais.

Se há uma "mensagem" em Os realistas, qual é?
Acho que não tem uma mensagem padrão definida. Os personagens ecoam múltiplas mensagens nas suas idiossincrasias. Estão o tempo todo jogando essa boia de identificação para a plateia. Algumas pessoas viajam mais em determinado personagem; outras, em outro.

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Debora Bloch (Pônei)

Na sua visão, sobre o que trata Os realistas?
Os realistas trata das pessoas tentando se salvar. Se salvar do casamento, da solidão, do medo. Se salvar da doença, da morte.

Qual a sua frase preferida da sua personagem?
"As pessoas são salvas por pessoas, sabe? Mesmo!"

Qual é a maior qualidade e o maior defeito de sua personagem?
A maior qualidade da Pônei é a alegria. E o maior defeito é não lidar com a sua tristeza, os seus medos.

Na sua visão, de que outro dramaturgo Will Eno mais se aproxima?
Will Eno se aproxima de Beckett e de Albee, de quem ele foi discípulo, do teatro do absurdo, com seus diálogos típicos dessa linguagem. Mas em Os realistas, como ele mesmo disse, ele tenta escrever uma peça realista e se aproxima também de Tchékhov, com seus personagens ordinários, anti-heróis, vivendo a vida que passa.

Se há uma "mensagem" aos espectadores em Os realistas, qual é?
Acho que cada espectador é tocado pela peça de um jeito próprio. Não há uma mensagem. A peça toca em vários assuntos comuns a todos nós, e cada espectador sai tocado por um deles.

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Fernando Eiras (João)

Na sua visão, sobre o que trata "Os realistas"?
Não se trata de um texto previsível, e sim de algo surpreendente que é viver, sobre-viver. Se trata de cura por meio da aproximação do outro. São várias questões sem resposta, porque às vezes a resposta está misteriosamente intrínseca na questão. Então, só nos resta aceitar o mistério e seguir adiante, como a música. O teatro acontece em Os realistas por meio do espelhamento que o autor revela na humanidade de seus personagens com a intenção de devolver a vida para a platéia. Na levada sutil de um quarteto de jazz.

Qual a sua frase preferida de seu personagem?
Minha frase preferida não é de meu personagem, e sim da personagem Julia, interpretada por Mariana Lima (minha esposa na peça): "Eu queria ter mais gratidão. Mais gratidão pelo que eu tenho. Quando você pensa em todos os milagres necessários apenas para se sentar em uma cadeira.(ELA SE SENTA EM UMA CADEIRA) Bilhões de coisas dando certo, só para ficar aqui sentada. Milagres!"

Qual é a maior qualidade e o maior defeito de seu personagem?
Não se trata de qualidades e defeitos, simplesmente. São personagens movidos por suas vontades, que os levam além de si mesmos. No entanto, sem perder suas patologias demasiadamente humanas.

Na sua visão, de que outro dramaturgo Will Eno mais se aproxima?
Você pode pensar em Tchékhov. Ou nas tramas de Albee. Talvez um traço em Samuel Beckett. Que engendraram um estilo em Will Eno, um estilo de dramaturgia muito seu. Porque você não consegue explicar a peça, por mais que você tenha entendido "tudo".

Se há uma "mensagem" aos espectadores em "Os realistas", qual é?
A peça não pretende simplesmente passar uma mensagem. O que ela faz é ligar um ventilador dentro da sua cabeça.

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Mariana Lima (Julia)

Na sua visão, sobre o que trata Os realistas?
A peça trata do encontro de dois casais e também do desencontro no interior dos casamentos. Trata da relação que cada um estabelece com a doença e com a linguagem. Aparentemente diferentes, os duplos são espelhos um do outro.

Qual a sua frase preferida da sua personagem?
"Eu queria ter mais gratidão. Mais gratidão pelo que eu tenho. Pensar em todos os milagres necessários só pra você se sentar numa cadeira. Milhões de coisas acontecendo só pra você ficar sentada aqui."

Qual é a maior qualidade e o maior defeito de sua personagem?
A Julia é resiliente, dedicada aos cuidados com o outro, mas é dentro desse aspecto positivo que está seu lado negativo: perde sua identidade de tanto que se identifica com o marido, o vizinho, a doença.

Na sua visão, de que outro dramaturgo Will Eno mais se aproxima?
Com Beckett. Pela contenção na linguagem, pelo ritmo e temática: seres humanos em suspensão diante das incertezas da vida.

Se há uma "mensagem" aos espectadores em Os realistas, qual é?
Não acredito que haja uma mensagem. São múltiplas mensagens. Mas eu ressaltaria a questão da nossa fragilidade diante do inexorável: vida, morte, doença paixão, amizade. Tudo nos atravessa sem que tenhamos controle de nada, tudo nos escapa. Aproveitar a vulnerabilidade como condição humana.

 
 
 
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