Debate polarizado

Cia. Rústica estreia peça que reflete sobre o antagonismo político atual

Espetáculo "Fala do Silêncio – Amor, Naufrágio e Rock'n'Rol" é uma releitura musical de peça de Harold Pinter

Por: Fábio Prikladnicki
14/04/2017 - 07h00min | Atualizada em 14/04/2017 - 07h00min
Cia. Rústica estreia peça que reflete sobre o antagonismo político atual Félix Zucco/Agencia RBS
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS  

Um espetáculo, um show ou uma performance? Para a Cia. Rústica, um dos grupos mais prestigiados da cena gaúcha, o teatro é assim mesmo: meio obsceno, meio erótico, insinuando-se promiscuamente por todas as linguagens. Um pouco como a obra de arte total de Wagner, com o rock¿n¿roll no lugar da música clássica. Só assim para tratar da realidade do Brasil e do mundo nos últimos anos, na visão da diretora Patrícia Fagundes:

– Poderia ser hip hop também, mas para mim o rock tem uma urgência, uma pegada. A situação não está para bossa nova.

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Com guitarra em punho, bateria e microfone vintage, o power trio de atores Leonardo Machado (que retorna ao teatro depois de nove anos dedicados principalmente ao cinema), Lisandro Bellotto e Priscilla Colombi vive personagens envolvidos em uma rede de traições que ecoam, como metáfora distante, acontecimentos da história recente, de 2016 a 2007 – encenados na ordem reversa.

Fala do Silêncio – Amor, Naufrágio e Rock¿n¿Roll, que estreia neste sábado na Sala Álvaro Moreyra, em Porto Alegre, é baseada em Traição, peça de 1978 de Harold Pinter (1930 – 2008), Nobel de Literatura e expoente, meio descolado, do teatro do absurdo. Uma adaptação cinematográfica veio em 1983, com Jeremy Irons, Ben Kingsley e Patricia Hodge. 

A montagem gaúcha aportuguesa os nomes dos personagens, que gravitam em torno do mercado de livros: Roberto (Lisandro Bellotto) é um editor casado com Lúcia (Priscilla Colombi), amante do melhor amigo do marido, o agente literário Alexandre (Leonardo Machado), que por sua vez também é casado, mas sua mulher não aparece em cena. Conforme os acontecimentos passados são expostos, novas informações vêm à tona sobre as relações pessoais, alterando constantemente a percepção do público. Projeções em vídeo trazem retrospectivas de eventos geopolíticos de cada ano em que se passam as cenas. É um ensaio sobre como o passado ganha novas camadas de sentido quando contemplado sob outro prisma.

Aqui, a peça de Pinter integra uma ¿composição dramatúrgica¿ tecida pela diretora Patrícia Fagundes com textos de sua própria autoria e canções – algumas delas compostas especialmente para o espetáculo – interpretadas ao vivo pelos atores, como é já é habitual nas produções da Cia. Rústica. Quem assistiu aos elogiados trabalhos anteriores do grupo poderá se surpreender com as soluções encontradas no novo espetáculo. Patrícia acredita que o teatro é a arte de encontrar novas respostas a inquietações recorrentes.

Com título retirado do vinho espanhol Habla del Silencio..., que a equipe certa vez bebeu durante o processo, Fala do Silêncio ergue um brinde ao diálogo entre posições opostas no espectro ideológico. Supondo uma relação nem sempre explícita, mas sempre presente entre os foros particular e público, o espetáculo propõe uma abertura à reflexão.

ENTREVISTA - Patrícia Fagundes, diretora

Qual é o contexto geopolítico em que o espetáculo está ambientado?
Há um processo de antagonismo que estourou em 2016, mas vinha talvez desde 2013. Sou professora da UFRGS e lembro de sentir uma tristeza com esse estado de ódio e essa polarização, mas a tristeza se modificou em 2016 a partir do encontro com alunos e outras pessoas que começaram a realizar manifestações, ocupações em escolas etc. Mesmo que se tente criminalizar esses movimentos de jovens, há um germe que é amoroso, uma energia para pensar que outra realidade é possível. Quero acreditar nessas palavras desgastadas: um mundo mais justo, igualitário, em que um se preocupe com o outro. Esses movimentos representaram, para mim, a possibilidade de pensar o mundo coletivamente, em uma perspectiva que seja um contraponto ao estado de ódio.

Isso não ocorre apenas no Brasil, mas também em outros países, correto?
Na Europa, o imigrante está sendo injustamente acusado. Esse ato de colocar a culpa no outro me parece uma orquestração feita por grandes poderes, e não algo que vem do cotidiano das pessoas. Para mim, o amor é uma possibilidade de navegar no naufrágio da tempestade que nos aguarda – essa é uma frase da peça. Acredito que os movimentos de ocupação têm muito a nos ensinar sobre a possibilidade do coletivo e da relação com o outro, com o diferente.

Esse movimento que você chama de amoroso está se fazendo ouvir ou está perdendo para o discurso do ódio?
O que importa é a resistência, essa insistência de continuar imaginando outras realidades. Se elas são realmente possíveis não importa. A história da humanidade é de sangue, exploração, violência com o outro. Se acredito em um mundo onde todas as pessoas são felizes? Não. Mas se acredito nessa insistência, nessa imaginação, potência? É a única coisa em que posso acreditar para continuar vivendo, fazendo teatro, rindo, brincando. Esses movimentos que operam em um nível micro interferem no macro. Não tenho a ilusão de que resolverão os problemas, mas acredito que esses movimentos valem por si. Não por causa de um resultado, mas por sua própria vibração e existência.

Como essas reflexões são traduzidas no espetáculo?
O espetáculo tem a proposta de sair da polarização. Queremos dialogar com diferentes pessoas, com cumplicidade. Essa binarização provoca um desencanto em mim, mas o teatro me traz essa alegria de existir, porque é um convívio que acaba sendo amoroso, intenso, de relação, de troca, confronto e briga, tudo junto. É importante para não entrar em um estado de letargia ou de ódio. Isso é de uma importância política decisiva.

FALA DO SILÊNCIO – AMOR, NAUFRÁGIO E ROCK´N´ROLL
Estreia neste sábado. De sextas a domingos, às 20h, até 30/4.
Sala Álvaro Moreyra (Avenida Erico Verissimo, 307), em Porto Alegre, fone (51) 3289-8066.
Ingressos: R$ 40. Venda antecipada pelo site entreatosdivulga.com.br/fala-do-silencio.

 
 
 
 
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