Tributo em verso

Escritor Luiz de Miranda homenageia Paulo Sant'Ana com poema; leia "Balada do Amante Exilado"

Amigos desde 1971 dividiam o gosto pela literatura e pela música

20/07/2017 - 14h13min | Atualizada em 20/07/2017 - 14h25min
Escritor Luiz de Miranda homenageia Paulo Sant'Ana com poema; leia "Balada do Amante Exilado" Acervo pessoal de Luiz de Miranda / Reprodução/Reprodução
Luiz de Miranda e Paulo Sant'Ana, em 2013 Foto: Acervo pessoal de Luiz de Miranda / Reprodução / Reprodução  

Emocionado com a morte do amigo Paula Sant'Ana, o poeta Luiz de Miranda encaminhou para ZH um poema em homenagem ao cronista.

– Escrevi três poemas para Sant'Ana em livros meus. O que mando agora é o mais afetivo e vitorioso – explica Miranda.

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O poeta e o cronista se tornaram amigos em 1971, quando Miranda era redator no programa Sala de Redação, da Rádio Gaúcha. Ao longo dos anos, fortaleceram o laço fraterno, tendo em comum o gosto pela música e pela literatura. Em alguns bares em que se encontravam, Sant'Ana costumava subir ao palco e cantar:

– Ele cantava e era característico nisso. Todos o aplaudiam. Tinha bom repertório e uma memória imensa para poemas e músicas - lembra o poeta.

Ambos autografaram lado a lado na Feira do Livro de Porto Alegre de 1992, quando Sant'Ana lançou O Gênio Idiota, e Miranda, sua Poesia Reunida.

– Entreguei meu livro, e ele me devolveu o seu, dizendo: "Eu sou o gênio idiota, e tu és o o gênio com esse livrão" – conta Miranda

Leia o poema de Luiz de Miranda em homenagem a Paulo Sant'Ana:

Balada do Amante Exilado
                       a Paulo Sant'Ana

As horas pesam no coração que ama
mas está só na amplidão do tempo,
                  no varejo noturno do meses,
                  no desequilíbrio azul dos minutos.
Tudo se perde como quanto Deus nos abandona.

O cristal do silêncio ilumina as palavras,
           e em fatias nos dá a nau dos dias,
           onde prosseguimos como um rio
                   que não corre para o mar,
e na superfície vai nossa alma,
                                                desolada
fantasma que sacode o pó dos caminhos
                            sobre nossos ossos.

As asperezas pesam
                     em nossas frágeis mãos,
                     que arquitetam,
                                inúteis,
                           a solidez do poema.

O rumor da solidão
     se mistura ao vazio
           de nossas roupas,

onde o amor esteve,
     vestindo-as com o esplendor
           do sangue e do desejo.

Exilado na cinza do cigarro,
                                           na agonia
que varre os anos,
                    tudo é ontem.

Mas nos resta uma luz bravia,
que resplandece em pequenos luares,
e nos diz que há um novo amor
onde acaba o dia e nascem outros lugares.

                  Porto Alegre, 24 de dezembro de 1996.

 
 
 
 
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