Ao pé da letra

A literatura cinematográfica do Nobel Dylan na canção "Hurricane"

Verso a verso, os segredos e bastidores de uma das mais conhecidas composições do músico norte-americano

Por: Carlos André Moreira
14/10/2016 - 18h34min | Atualizada em 14/10/2016 - 19h52min
A literatura cinematográfica do Nobel Dylan na canção "Hurricane" Chris Hakkens/Wikicommons
Dylan toca em Rotterdam nos anos 1978, dois anos depois de compôr "Hurricane" Foto: Chris Hakkens / Wikicommons

Para quem estava viajando pelo cosmos sem gasolina, vale a recapitulação: Bob Dylan foi laureado com o Nobel. Foi um reconhecimento da Academia Sueca a um dos grandes letristas da música popular internacional, um artista com uma sólida formação que garimpa temas e tratamentos em leituras onívoras, em canções da tradição norte-americana, na poesia de vanguarda do século 20. Dylan também trata uma apresentação ao vivo como uma performance artística, mudando letras das composições, reescrevendo canções de improviso, corrigindo andamentos que transformam as músicas em outra coisa, não naquilo que o fã ouviu no disco.

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Dylan fez o mesmo ao longo do tempo com a sua persona e com a relação do público com sua obra. Boa parte de suas músicas são repletas de imagens surrealistas, cenas alusivas que focam em um detalhe de um quadro que apenas Dylan conhece em sua totalidade. E ele próprio nunca se sentiu satisfeito em explicar o que escreveu ou decifrar as misteriosas metáforas que povoam sua arte. Mas, como um autor também ligado a uma vertente crítica dos rumos políticos americanos, Dylan também escreveu canções que se assemelham a narrativas sobre pessoas reais, como as clássicas Joey,Blind Willie McTell e esta Hurricane, composta em parceria com o dramaturgo Jacques Levy.

"Canções de protesto são difíceis de escrever sem que o resultado seja maçante e unidimensional. Você tem que mostrar às pessoas um lado delas mesmo que elas não sabem que existe.", escreveu Dylan em seu livro de memórias Crônicas: Volume Um. Hurricane é uma dessas raras grandes canções de protesto, contra a injustiça cometida pelo sistema judiciário americano contra o boxeador peso-médio Rubin "Furacão" Carter, preso e condenado à prisão perpétua pela suposta autoria de três homicídios em um restaurante de Paterson, Nova Jersey. O júri, predominantemente branco, aceitou como testemunhas de acusação dois criminosos pés de chinelo que anos mais tarde diriam ter mentido em juízo, e depois voltaram atrás. Armas encontradas com Carter não foram ligadas por provas laboratoriais ao caso, e pesou em sua condenação sua personalidade incendiária e, para os brancos, ameaçadora. Essa é uma das letras em que Dylan se revela um trovador clássico, apresentando sua versão para uma história complexa.

Anos mais tarde, a história se tornaria um filme dirigido por Norman Jewison e protagonizado por Denzel Washington. Em Crônicas, Dylan escreveu: "No caminho de volta para casa, passei pelo cinema local na Prytania Street, onde O poderoso Quinn estava em cartaz. Anos antes eu havia escrito uma canção chamada The might Quinn, que foi sucesso na Inglaterra, e fiquei pensando sobre o que era o filme. No fim escapuli e fui vê-lo. Era um thriller jamaicano de mistério e suspense com Denzel Washington como o poderoso Xavier Quinn, um detetive que desvenda crimes. Engraçado, foi daquele jeito que eu o imaginei quando escrevi a canção The mighty Quinn. Denzel Washington. Deve ter sido meu fã... anos depois ele faria o papel do boxeador Hurricane Carter, outro sobre quem escrevi uma canção. Imaginei se Denzel poderia fazer Woody Guthrie. Em minha dimensão da realidade, certamente poderia"

Clique no infográfico a seguir para ler referências e bastidores de versos da canção:


 
 
 
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