Memória

Celso Loureiro Chaves: As verdades tropicais de Bob Dylan

Em texto publicado em Zero Hora no dia 4 de dezembro de 2004, colunista escreveu sobre o livro "Chronicles, volume one"

Por: Celso Loureiro Chaves
13/10/2016 - 14h01min | Atualizada em 13/10/2016 - 16h09min
Celso Loureiro Chaves: As verdades tropicais de Bob Dylan Adriana Franciosi/Agencia RBS
Bob Dylan em Porto Alegre em 1998 Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Vamos supor que seja tudo verdade. Que tudo tenha se passado assim. Que Chronicles, volume one reflita a ordem das coisas. E que se trate mesmo de uma autobiografia de Bob Dylan. A tradição norte-americana não é essa, pois sempre pareceu mais fácil lançar mão de um ghost-writer quando se fosse falar da própria vida. Ali é raro alguém escrever, ainda mais em tempos recentes, um livro assim como o de Bob Dylan, chamando-o de Crônicas e anunciando desde logo que se trata de um primeiro (de quantos?) volume. Se o relato for de fato autobiográfico, mas disso desconfiam os críticos norte-americanos, o feito não é pequeno, pois de um extremo a outro Bob Dylan vai da desconexão mental à clareza absoluta, do amargor do ídolo prisioneiro de suas próprias inseguranças ao eco de tempos já passados há tempos. Tão poucos têm sido os relatos autobiográficos que os críticos norte-americanos desnortearam-se e se puseram a criticar acidamente Bob Dylan desde o primeiro dia do lançamento de Chronicles, volume one, como se ele tivesse usurpado direitos alheios ao deixar a manufatura de canções para reatar o fio literário de Tarantula, seu primeiro — e único — romance.

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Na tradição norte-americana, cancionistas raramente ultrapassam os limites da canção, deixando para trás melodias e harmonias e ousando o território da palavra sem som. Ficcionistas são raros. Memorialistas, incomuns. Numa entrevista recente, Bob Dylan reconhece-se como uma das últimas pessoas que ele próprio pensaria poder se transformar em autobiógrafo. No Brasil, a tradição seria outra. Chico Buarque escreve livros desde sempre. Aldir Blanc fez nome na crônica como fez na letra de canções. Vitor Ramil escreve e teoriza. A tradição brasileira é diferente e as relações entre a canção urbana e a literatura parecem mais amigáveis, a não ser que já sejam incestuosas. Quem transita entre o livro e a canção não leva em seus deslocamentos os preconceitos de um e de outro lado. Os que ouvem e os que leem também abrem mão de preconceitos. Ou pelo menos é o que parece a olhos e a ouvidos nus, sem adentrar as minúcias de seminários acadêmicos que, de tanto esquadrinhar o objeto estudado, destroçam-no. A canção norte-americana é bastante compartimentada e poucos são os críticos de lá que se dão conta que deixar de julgar letra de música como poesia é vantajoso, pois evita que a compreensão da estranha simbiose entre palavra e melodia seja comprometida, invalidando a análise do que diferencia a página da pauta.

Dos modelos brasileiros recentes, o ponto de comparação mais palpável de Chronicles, volume one é com Verdade tropical, de Caetano Veloso, outro exercício autobiográfico há muito aguardado para que se pudesse ouvir da boca do mestre as suas próprias verdades. Mas onde Verdade tropical é caudaloso, Chronicles, volume one é objetivo ao ponto da avareza. Onde Caetano é sistemático na cronologia, Bob Dylan é aleatório, errático. Os dois relatos se intersectam num ponto comum, no entanto: ambos são autobiografias construídas ao redor de nomes e de referências. Nomes dos que estavam à volta dos fatos recuperados e que muitas vezes são a sua própria essência; referências que construíram modos particulares de pensar a canção e de pensar-se a si mesmo como cancionista. Ultrapassado o ponto-de-contato, Caetano e Dylan novamente se afastam. Em Caetano, reconhecemos a realidade, ou pelo menos a memória da realidade, tal como se passou. Em Dylan, já não há tanta certeza. A desorganização cronológica, a ausência das datas indispensáveis para que desvendássemos o relato, a alternância quase psicótica de tom, tudo faz com que se duvide que, em Chronicles, volume one, tenha sido assim que as coisas se passaram.

O exercício de Bob Dylan sempre foi o de dissimulação, o de reinventar-se sempre, restando como um único ponto sólido de verdade o seu repertório de canções. Ele mesmo admite isto: "A verdade era a última coisa no meu pensamento e mesmo se ela existisse, não a quereria na minha casa. Édipo saiu a buscar a verdade e quando a encontrou, arruinou-se. Chega de verdade. Eu falaria com um e com outro lado da minha boca e o que se ouvisse dependeria do lado em que se estivesse". A explicação para isto? "O que eu devia para o resto do mundo? Nada. Absolutamente nada. A imprensa? Descobri que era para mentir para ela. Para consumo público, mergulhei o mais possível no bucólico e no mundano. Na minha vida real, continuei fazendo as coisas que mais amava e era só isto o que importava. Na realidade ela era imperceptível, a minha imagem, quero dizer." Por isso os críticos literários americanos, nestes dois meses que se passaram desde o lançamento de Chronicles, volume one, debatem-se entre acreditar no que está escrito ali ou supor que se trata de mais uma dissimulação, mais uma construção do Bob Dylan "da vida real" como tática de sobrevivência na esfera pública. Essa desconfiança tem gerado reações explosivas, corrosivas em ironia. Mas isto não nos diz respeito. Suponhamos que Chronicles, volume one reflita a ordem das coisas, que tudo tenha se passado assim. Suponhamos que seja tudo verdade.

Os cinco capítulos da autobiografia de Bob Dylan vão por ruas tortuosas, não apenas no tempo mas também no percurso emocional e, portanto, narrativo. O primeiro e o último se complementam, mas não porque os capítulos intermediários fossem um imenso flashback cinematográfico. Não há flashback. A descontinuidade é quase um denotativo de estilo, deixando histórias pela metade para retomá-las, um pouco aqui, um pouco ali, 200 páginas depois. No primeiro capítulo, Bob Dylan está prestes a assinar o seu contrato com a Columbia Records no início (supõe-se) dos 1960. A Columbia foi sua gravadora desde então e nos últimos meses a hoje Sony Records tem relançado em CD boa parte da discografia de Dylan em versões surround, hiper-realistas, detalhando o que uma vez estivera escondido em vinil e que assim deveria ficar. O segundo capítulo recupera a vida nova-iorquina antes do contrato — Bob Dylan recém-chegado, olhos bem abertos, perspectivas ainda não previstas. O terceiro e o quarto capítulos são os do amargor, do desgosto e da instabilidade mental, e gravitam em torno de discos mais ou menos obscuros: New morning, de 1970, e Oh mercy, de 1989. Mas não é só isso.

Chronicles, volume one, ultrapassadas todas as dúvidas e desconfianças, fornece um retrato precioso do cancionista, seja ele Bob Dylan ou seja ele o personagem inventado por Bob Dylan. Acima de tudo, ali está a canção. Mesmo falando dela sem parar, é só em pleno capítulo do amargor mais profundo que Dylan deixa entrever o seu processo de tomada de decisões. Ao dizer "compus uma canção", ele quer nos deixar ver que é à letra que ele se refere, a letra do que virá a ser uma canção se tudo der certo. Mais importante: ele jamais se refere à letra como se fosse poesia. Quando muito, ele admite ser um poet-musician. A letra é o molde para algo que adquirirá concretude num estúdio de gravação e que, como Dylan também revela, talvez nunca mais seja cantada por ele depois daquela oportunidade em que letra e música, unidas, foram transformadas em registro gravado. A música, esta pode ser criada no momento mesmo da gravação, seguindo o contorno semântico do texto, seguindo um contorno melódico que o texto mesmo já poderá ter pressuposto. O músico Bob Dylan, quem é? Certamente, não um roqueiro. Nem um jazzista. "Na realidade, nunca fui mais do que fui — um músico folk que olhava através da neblina cinza com olhos cheios de lágrimas e que fez canções que flutuavam numa névoa luminosa. Não fui um pregador fazendo milagres." A construção desse músico folk é pormenorizada, a cada caco de cronologia de Chronicles, volume one, através de um sem número de nomes os mais imprevistos. De João Gilberto a Judy Garland, de Elton John a Joan Baez, de Woody Guthrie a Bono, estão todos ali. E Goya, Berlioz, Malcolm X, Walt Whitman, Freud, Balzac, Beethoven, Voltaire, Rosseau e Lutero. E Jack Kerouac, cujo On the road tinha sido "como uma bíblia" mas "já não era mais", mesmo já nos dias anteriores ao contrato com a Columbia Records.

Bob Dylan, mais de quatro décadas de canções depois, quem é? No momento mais amargo de Chronicles, volume one, ao autobiografar a crise que gerou a gravação de Oh mercy, confidencia ao leitor de hoje: "Onde quer que eu esteja, sou um trovador dos anos 60, um remanescente do folk-rock, um forjador de palavras de tempos já vividos, um chefe-de-estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Habito o poço sem fundo do esquecimento cultural." Diante de tanta autocomiseração, talvez seja possível acreditar que Chronicles, volume one seja verdade. Tal como na Verdade tropical, de Caetano Veloso, também aqui a selva de nomes, referências e descaminhos dá lugar, de quando em vez, às reflexões que servem à perfeição para a pintura de uma época, o desenho de uma personalidade. Bob Dylan vem renascendo nestes últimos tempos. Se quisermos saber por que viveu os anos 1960, por que morreu temporariamente, por que vem ressurgindo, Chronicles, volume one dá bons indícios, mas é necessário ter paciência para procurar.

* Celso Loureiro Chaves é músico


 
 
 
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