Biênio simoniano

É possível mapear a localização geográfica dos contos de Simões Lopes Neto, diz biógrafo

Carlos Francisco Sica Diniz fala sobre a obra do escritor e adianta que prepara uma segunda edição de biografia

Por: Fábio Prikladnicki
18/10/2016 - 07h01min | Atualizada em 18/10/2016 - 07h01min

A exposição Simões Lopes Neto – Onde não chega o olhar prossegue o pensamentoserá aberta nesta terça-feira (18/10) no Santander Cultural, em Porto Alegre. Leia, abaixo, entrevista concedida por e-mail pelo biógrafo do autor, Carlos Francisco Sica Diniz.

Desde que publicaste João Simões Lopes Neto – Uma biografia, em 2003, que novas informações descobriste sobre Simões? Podes compartilhar aqui algumas das mais relevantes?

Tenho afirmado que uma biografia nunca é definitiva e que o biógrafo sempre terá de conviver com o impacto das novas descobertas que poderão alterar as interpretações até então vigentes, propondo-se novos enfoques para as discussões acadêmicas. Informações novas surgiram pela pesquisa de outros aficionados ou por obra do acaso. Entre as novidades, considero muito relevante a descoberta da Artinha de leitura. Quando seu conteúdo foi na íntegra editado, em 2013, viu-se que a Artinha e o livro escolar Terra gaúcha pertenciam ao mesmo projeto de João Simões Lopes Neto, destinados a diferentes receptores. Enquanto Terra gaúcha tinha como alvo os leitores em formação, a Artinha era uma cartilha para ensinar a ler, completando-se ambos pela grandeza de uma concepção que avançava no tempo.

Ressalto, ainda, duas descobertas. A mais recente e com riqueza de pormenores foi a comprovação de que o nosso escritor estudou no Colégio São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. Aportou na capital do Império em agosto de 1878. Prestou exames preparatórios e retornou ao sul em novembro de 1884. Esses dados, agora revelados sobre a escolaridade no Rio, ao mesmo tempo em que atestam a veracidade da datação que registrei no meu livro, preenchem uma lacuna importantíssima na biografia do escritor, pois até então só se sabia que Lopes Neto não tinha frequentado o Colégio Abílio. Essas valiosas informações me foram passadas primeiramente por Fausto Domingues e mais adiante por Luís Augusto Fischer, baseadas em farta documentação.

E a informação, não tão recente, de que Simões Lopes pertenceu comprovadamente aos quadros da maçonaria, corrigindo neste ponto uma afirmação que havia feito no meu trabalho.

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Preparas uma segunda edição da biografia?

Estou com o trabalho em progresso, mas ainda não tenho pronto o projeto para sua editoração. Posso afirmar que não demorará muito.

Estás informado sobre pesquisas que localizam os enredos de Simões geograficamente no Rio Grande do Sul. O que se sabe de mais interessante sobre esse assunto?

O que me pareceu mais interessante foi o levantamento que se fez, basicamente em cima de pesquisa do simoniano Mogar Xavier, sobre a localização tão exata quanto possível do espaço geográfico em que se passa o conto Trezentas onças. Um provável e verossímil mapa do conto. E também poderão ser apreciadas algumas questões sobre O mate de João Cardoso e desfazer certas informações que andam por aí. É possível, sim, mapear grande parte dos contos.

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Quais informações sobre Simões gostarias de descobrir e ainda não descobriste? Que aspectos de sua vida e obra ainda são um mistério para os estudiosos?

Para mim continua sendo um mistério o conteúdo do segundo volume da história do Rio Grande do Sul, cujo original passou pelas mãos de Alcides Maya. Todos sabem que a primeira parte do Terra gaúcha foi publicada pela Saraiva, em 1955. O texto do que seria o segundo volume desapareceu e dele nunca mais se teve notícia. Muitos ainda creem que será encontrado. Mais remota, porém estimulante, seria a descoberta dos originais do romance Jango Jorge, anunciado como estando no prelo pelo editor pelotense do Cancioneiro guasca. Especula-se sobre a origem do Jango Jorge que figurou nos Contos gauchescos. Poderia ser a síntese de um romance inacabado que o escritor preferiu transformar em conto ou até mesmo a reprodução, acabada para um conto, de um capítulo do texto em formação, ou nem uma coisa nem outra. A procura segue.

Penso que o verdadeiro mistério, quando os estudiosos já dissecaram praticamente tudo sobre o que ele escreveu, é o próprio escritor. Quem foi mesmo João Simões Lopes Neto? Até agora não se conseguiu decifrar este enigma.

 
 
 
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