Biênio simoniano

João Luis Pereira Ourique: "Simões Lopes Neto foi mais do que o regionalismo que o consagrou"

Professor de literatura da UFPEL fala sobre a organização da dramaturgia do escritor pelotense, cujo centenário de morte é lembrado neste ano

Por: Fábio Prikladnicki
18/10/2016 - 07h01min | Atualizada em 18/10/2016 - 07h01min

A exposição Simões Lopes Neto – Onde não chega o olhar prossegue o pensamentoserá aberta nesta terça-feira (18/10) no Santander Cultural, em Porto Alegre. Leia, abaixo, entrevista concedida por e-mail pelo professor de Literatura da UFPEL João Luis Pereira Ourique, que organiza com Luís Rubira uma nova edição, em dois volumes, do teatro de Simões Lopes Neto.

Estás se dedicando a uma nova edição do teatro de Simões Lopes Neto. Podes comentar sobre como está o trabalho e em que sentido é diferente da edição que saiu nos anos 1990 com organização de Cláudio Heemann?

Sim, estou trabalhando com a organização (juntamente com o professor Luís Rubira, também da UFPEL) da literatura dramática de João Simões Lopes Neto, cujo lançamento do primeiro tomo (a publicação será constituída de dois tomos: um abarcando as peças produzidas no século 19 e o outro as do século 20) está previsto para o final de 2016 (o segundo deverá ser lançado no primeiro semestre de 2017). Há várias diferenças e semelhanças entre o trabalho realizado pelo pesquisador Cláudio Heemann e o que estamos em fase de editoração.

As semelhanças se situam na preocupação em divulgar essa parte da produção do escritor pelotense, bem como disponibilizar acesso a essas obras pouco conhecidas e relegadas a um segundo plano por parte da crítica especializada. O que nos diferencia daquele trabalho é a elaboração de um texto crítico para cada peça, uma apresentação com uma linguagem mais fluida, destacando aspectos formais, históricos e culturais relevantes para o entendimento da dramaturgia simoniana. Além disso, Cláudio Heemann publicou apenas o primeiro do que deveriam ser dois livros, o que pretendemos retomar (aqui no sentido de reconhecimento do trabalho iniciado por ele também com o apoio do IEL) e acrescer das peças disponíveis naquela época e de outras que conseguimos acesso durante o período de pesquisa que levou mais de cinco anos (desde a realização do meu estágio de pós-doutorado junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011-2012, sob supervisão da professora doutora Márcia Ivana de Lima e Silva).

Acrescentamos a esse trabalho inicial peças ainda desconhecidas e também algumas imagens de material digitalizado a partir de primeiras edições e de manuscritos para que os leitores possam ter acesso a mais detalhes e informações.

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O teatro de Simões ainda é bem menos conhecido do que seus contos. Por que isso ocorre?

O principal argumento que defendo é que João Simões Lopes Neto foi mais do que o regionalismo que o consagrou. Sem argumentar contra o que é considerado até hoje como suas obras-primas (os Contos gauchescos e as Lendas do sul), é possível afirmar que encontramos em sua literatura dramática aspectos de uma urbanidade, de um cenário cultural complementar e inserido em um contexto histórico-social relevante. O teatro esteve presente durante toda a vida do escritor (foi uma peça de teatro – O boato – a primeira publicação literária em formato de livro de João Simões Lopes Neto, no ano de 1894) e até mesmo por isso que encontramos disparidades entre as peças – algumas com preocupações pontuais (como a crítica à hipocrisia da sociedade pelotense da época) e outras mais amplas que despertam a curiosidade dos diversos elementos que convergem para aquela produção.

O principal problema sobre o conhecimento do teatro ser menor do que o dos contos, acredito, foi a difusão e dependência de uma visão calcada em um viés regionalista (situando-se, muitas vezes, no aspecto tradicionalista) de valorização do tipo humano do gaúcho. A qualidade presente nos contos de certa forma ofuscou tudo aquilo que não vinha ao encontro daquela imagem produzida pelos leitores e também pela crítica. Tanto é palpável essa situação que o jurista e professor Mozart Victor Russomano (que doou os manuscritos das peças para Cláudio Heemann) menciona que o teatro é algo para atiçar a curiosidade, visto que não via nada ali que tivesse relevância. Por isso que nossa publicação leva um subtítulo: A literatura dramática de João Simões Lopes Neto: a face urbana do escritor gaúcho. Essa "face urbana" certamente dará um panorama importante para serem repensados certos paradigmas acerca da fortuna crítica de Simões Lopes Neto.

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Quais as principais diferenças em termos de conteúdo e forma entre os contos e as peças de Simões?

No que diz respeito à forma, encontramos no teatro de Simões Lopes Neto um conhecimento da estrutura cênica (da descrição dos espaços, da ambientação, do papel dos atores, etc). As rubricas e marcas evidenciam preocupações de como a obra deve ser encenada e não apenas um conto na forma de diálogo, visto que há elementos precisos na sua composição, atendendo ao que destacou Raymond Williams: "Quando um dramaturgo escreve uma peça, ele não escreve uma história para que outros a adaptem para a cena; ele escreve uma obra literária que, como tal, pode ser diretamente encenada".

Sobre o conteúdo, além de uma variação de temas, encontramos oscilações, fragmentos, incompletudes ao lado de ideias precisas de relatos pautados em uma articulação importante e relevante que exige uma leitura mais atenta sobre essa parte de sua produção. Essa variação e diversidade lança possibilidades de leitura ainda não exploradas (o que esperamos potencializar com a publicação das peças). Gostaria de salientar que essa pergunta não pode ser respondida em poucas linhas (nem em muitas páginas), o que somente reforça a importância da leitura da literatura dramática do escritor gaúcho e pelotense para além das limitações impostas a ele ao longo dos anos.

 
 
 
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