Biênio simoniano

Jocelito Zalla: "O gaúcho de Simões Lopes Neto pode mesmo nunca ter existido"

Historiador fala sobre a questão da história na obra do escritor pelotense e sobre as pesquisas a respeito de sua produção literária

Por: Fábio Prikladnicki
18/10/2016 - 07h00min | Atualizada em 18/10/2016 - 16h49min

A exposição Simões Lopes Neto – Onde não chega o olhar prossegue o pensamentoserá aberta nesta terça-feira (18/10) no Santander Cultural, em Porto Alegre. Leia, abaixo, entrevista concedida por e-mail pelo historiador Jocelito Zalla sobre a obra do autor. Zalla é doutorando em História Social na UFRJ e atualmente realiza estágio na Université Paris-Sorbonne. Também é professor do Colégio de Aplicação da UFRGS. 

Estás realizando a "biografia intelectual" de Simões? Podes compartilhar algumas das principais descobertas que estás fazendo sobre o assunto?

Não é uma biografia intelectual no sentido clássico. É um trabalho de História Cultural, que toma como objetos de estudo a vida e a obra do personagem, mas busca compreender um contexto mais amplo. No caso, a vida literária e a produção de memória histórica no Rio Grande do Sul. Como é sabido, a ficção simoniana ajudou a desenhar uma imagem do gaúcho fronteiriço que lentamente se consolidou como estereótipo regional, fundamentando uma identidade política para o estado.

Nesse sentido, minha pesquisa tem mostrado que sua literatura é um ponto chave do processo de positivação da palavra "gaúcho". No século 19, o termo era pejorativo, pois remetia a homens rudes do campo, sem nacionalidade definida, frequentemente envolvidos em crimes de fronteira. Os rio-grandenses não se identificavam com o gaúcho histórico. Por isso os primeiros escritores regionalistas do estado, incluindo membros da Sociedade Partenon Literário, evitavam o termo para designar o campesino local. Eles inventaram mitos alternativos, como o "monarca das coxilhas" e o "centauro da pampa".

Mas a proximidade do estado com o Uruguai e a Argentina, além de sua economia pecuária semelhante, fazia com que a elite política local fosse chamada de "gaúcha" nos embates com outras oligarquias regionais e com o poder central, o que era equivalente a identificá-la à "barbárie" rio-platense, com suas pequenas repúblicas "anárquicas", tão diversas da "civilizada" monarquia brasileira. Não é à toa que a primeira grande obra literária a empregar o termo para designar o campesino local e, de maneira geral, todo o habitante do estado, foi o romance O gaúcho, escrito por um autor que nunca pisou na região, José de Alencar, e se informava em fontes castelhanas. Mesmo com o advento da república no país, esse estigma gerava constrangimentos na elite local e impunha limites ao projeto de autorrepresentação positivista do Rio Grande do Sul.

Simões Lopes Neto tinha consciência do "problema". Sua literatura não é um desdobramento ingênuo do romantismo oitocentista, que buscava construir a nação a partir de tipos regionais. Em 1912, ano de lançamento dos Contos gauchescos, por exemplo, os redatores do jornal A Federação, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense, criticavam o escritor José Verissimo por ter publicado na capital federal um artigo falando dos gaúchos do Rio Grande do Sul. Segundo eles, a figura não podia ser encontrada no Estado senão como sintoma de uma realidade rural moribunda.

Como em outros escritores da época, a literatura simoniana também apresentava um trabalho de luto do universo gauchesco, mas ela ressignificou o estigma, o que acabou por dar novo impulso a esse tipo de representação do passado local. De certa forma, Simões Lopes Neto mesclou à imagem social do gaúcho os mitos literários positivos precedentes. Essa estratégia também seria adotada pelos literatos na década seguinte, que se somaram à historiografia tradicional para criar o mito do gaúcho heroico, ou gaúcho rio-grandense, no momento em que as facções políticas locais se uniam em torno da candidatura de Getúlio Vargas a presidente, sendo necessário contornar a suspeita histórica em relação ao estado no centro do país.

Vem daí a persistente atualidade temática da literatura simoniana, ainda que a linguagem seja de difícil acesso para o leitor contemporâneo. A vitória de uma imagem de Rio Grande gaúcho levou a constantes miradas sobre (e usos da) obra. Minha pesquisa de doutorado também busca entender esse processo. O grande problema que procuro responder, parafraseando o famoso livro de Stephan Greenblatt sobre Shakespeare, é como Simões Lopes Neto se tornou Simões Lopes Neto. Quer dizer, por que ele ainda é lido e como chegamos às maneiras como ele recorrentemente é lido e compreendido. Como ele se tornou o personagem que conhecemos hoje: um autor "pré-modernista", o "patriarca" das letras gaúchas, nosso melhor escritor regionalista e, ainda, um precursor do tradicionalismo gaúcho. Levou décadas para que isso acontecesse. Inclusive porque seus livros não tiveram grande repercussão no momento de publicação. Para resolver o problema, é importante estudar sua biografia, mas também sua "vida póstuma", ou seja, a construção de sua imagem pública e a recepção da obra ao longo do século 20.

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Quais os aspectos da obra de Simões que estão sendo descobertos pelos pesquisadores nesses últimos anos e que aspectos ainda precisam ser descobertos?

Atualmente, há um grande interesse pela obra de Simões Lopes Neto. Ele vem, em grande parte, da academia. Os estudos literários universitários recentes têm abordado principalmente os aspectos formais dos contos e das lendas, buscando compreender a "originalidade" simoniana. Quer dizer, o aproveitamento moderno da linguagem rural e o enfoque narrativo, que acompanha o ponto de vista de um personagem popular, Blau Nunes. Algo que só seria desenvolvido satisfatoriamente na literatura brasileira a partir de Guimarães Rosa. De certa maneira, eles reproduzem problemas e leituras dos primeiros críticos modernistas que se dedicaram ao autor, como José Lins do Rego, Augusto Meyer e Aurélio Buarque de Holanda.

Outros trabalhos buscam compreender os aspectos ideológicos da obra. Há, ainda, pesquisas recentes que se dedicam aos textos não publicados por Simões Lopes Neto em vida, como o romance de formação Terra gaúcha, ou sua "obra menor", como o teatro e a produção jornalística. Mas a fortuna crítica acadêmica simoniana também já conta com algumas décadas. Podemos citar entre seus pontos altos a tese de Flávio Loureiro Chaves, os ensaios de Ligia Chiappini e as edições comentadas de Luís Augusto Fischer. Apesar da consistência desses trabalhos e de todos os avanços dos últimos anos, acredito que uma obra diversa e complexa como a de Simões permite novos olhares, novas perguntas, e a exploração de elementos distintos.

No plano da visão de mundo do escritor, tenho apostado na reinserção dos textos nos debates de época, como o problema da representação do passado e da construção de uma identidade gaúcha para o Estado, de que falei anteriormente. Mas também procuro historicizar a composição da ficção a partir de fatores ainda pouco abordados, como as condições de produção e consumo de bens literários na Pelotas e no Rio Grande do Sul da virada do século 19 para o 20. 

Isso exige uma atenção à circulação de textos e às leituras não declaradas do autor, incluindo obras castelhanas que chegavam pelo Porto de Rio Grande ou pela via terrestre. A crítica modernista pré-universitária, que também era nacionalista, negligenciou as trocas literárias do regionalismo gaúcho — e de Simões Lopes Neto — com os gauchismos platinos. Em função disso, há, ainda hoje, uma tendência a explicar a obra do autor unicamente nos termos de "escolas" ou correntes literárias brasileiras; com poucas exceções notáveis, como Luís Augusto Fischer e Aldyr Garcia Schlee. Essa é uma frente de investimentos que merece ser enfrentada.

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Na sua visão, quais são os limites entre ficção e história na obra de Simões? Em que sentido podemos entender seus contos como relatos fidedignos de um mundo rural em declínio no Rio Grande do Sul?

São os mesmos limites de qualquer obra literária. A ficção não possui o mesmo pacto de referencialidade que os gêneros históricos, como a biografia e a historiografia propriamente dita. Claro que nenhum discurso pode ser considerado completamente "fidedigno" à realidade abordada. Todo texto é uma mediação. Mas as preocupações são diferentes. Por menos ingênua que seja a historiografia profissional atual quanto à possibilidade de neutralidade do discurso, o horizonte de prova e de verdade, que é dado pelo documento/fonte, não pode ser abandonado. Já a ficção opera com outros pressupostos, como o de verossimilhança, em que importa mais a coerência interna do texto do que a fidelidade da narração em relação ao mundo exterior.

Um dos grandes erros de abordagens históricas tradicionais da ficção (em que incorreram agentes do próprio campo literário, como críticos e historiadores da literatura) foi tomar o texto como reflexo direto do mundo social. A obra ficcional de Simões Lopes Neto não ficou livre disso. Há trabalhos que buscam correspondência entre os fatos narrados e os fatos históricos no Rio Grande do Sul. Daí a insatisfação dos críticos com equívocos simonianos, como se ele tivesse alguma obrigação com a História. Claro que a obra nos oferece um olhar sobre as transformações de seu tempo. Mas é o tratamento pessoal e literário de sintomas do processo social, como a liberação de mão de obra do campo para a cidade e a modernização das relações de trabalho no universo rural. Não é um retrato.

Tomar sua obra como documento fidedigno da realidade sulina na Primeira República também poderia nos levar a interpretações equivocadas, como a ideia de que houve uma grande decadência do mundo rural no período. Apesar dos primeiros surtos consideráveis de urbanização, a população rio-grandense continuou vivendo majoritariamente no campo por muitas décadas. Apesar da diversificação da economia, a pecuária continuou sendo a principal atividade produtiva do Estado para muito além da vida de Simões. O que houve de mais significativo no momento foi a alternância das bases sociais e geográficas do poder político, com a ascensão de um estrato novo da elite pecuária, oriunda do norte do Estado, em aliança com lideranças das regiões de colonização europeia mais recentes.

A obra simoniana dialoga com essas transformações. Suas inexatidões advêm daí. Não eram gratuitas. A idealização do universo gauchesco atendia às necessidades simbólicas da nova configuração política. Possuem, portanto, uma historicidade muito mais interessante de se abordar. Também são produto de um projeto individual de inserção no incipiente campo intelectual do Rio Grande do Sul. Dão testemunho do estágio da vida literária e intelectual na região e no país.

Enfim, o gaúcho de Simões Lopes Neto pode mesmo nunca ter existido. O que importa é que gerações inteiras, ao longo de décadas, acreditaram nele, encontraram nos contos e nas lendas uma verdade afetiva. Em outro sentido, a obra conseguiu dialogar com as predisposições dos leitores, com suas ideias a respeito do que seria o passado (e, para alguns, do presente) rio-grandense. Esse é um "fato" que merece a atenção dos historiadores. É aí que se situa a minha pesquisa.

 
 
 
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