The New York Times

Retratos da vida dos transgêneros 

06/10/2016 - 18h10min | Atualizada em 06/10/2016 - 18h10min

Nova York – Tony Zosherafatain mostra as axilas e o peito peludos, nu em um apartamento de Nova York a não ser pelas cuecas apertadas. Jamilla Braxton está parada em uma esquina usando um top canelado de alças e exibindo suas longas unhas pintadas de branco.

Os dois figuram entre as mais de 70 pessoas transgênero fotografadas por Mark Seliger em ¿On Christopher Street: Transgender Stories¿, o novo livro de 160 páginas em preto e branco que será lançado pela Rizzoli em 11 de outubro com prefácio da escritora e ativista transgênero Janet Mock.

Com base puramente nos detalhes de sua biografia, Seliger não seria o candidato óbvio para criar um livro sobre o momento transgênero atual.

Primeiro, ele é heterossexual e até muito recentemente não era um especialista nos últimos acontecimentos do movimento LGBT. Depois, seu foco principal é o retrato de celebridades, e ele passou as últimas três décadas fotografando Bruce Springsteen, Julia Roberts e Sean Penn para revistas como a Vanity Fair, a GQ e a Rolling Stone.

Mas Seliger também vive e trabalha em um armazém de três andares convertido na esquina da rua Charles com a rodovia West Side, a poucos quarteirões da rua Christopher, uma via sinuosa do West Village que há décadas tem sido uma Ilha Ellis para gerações de gays, lésbicas e transgêneros.

Para citar sua editora, Susan White, diretora de fotografia da Vanity Fair, Seliger também gosta de buscar coisas novas e fotografa de presidentes professorais a deuses do rock usando delineador.

¿Ele está sempre a vontade, não importa a situação¿, conta ela, chamando-o de herdeiro espiritual de Annie Leibovitz.

E assim, cerca de três anos atrás, com mais e mais espaços na vizinhança sendo substituídos por hotéis butique e lojas de artigos de luxo, Seliger decidiu começar a documentá-la.

Armado com uma câmera de filme estilo Diane Arbus de médio formato (e por vezes um assistente, iluminação extra e aerossol), passou a fazer amizade com desconhecidos e pedir para tirar fotos.

Rapidamente, percebeu que as pessoas trans eram as que mais o interessavam.

Alguns ficavam desconfiados, contou Seliger em uma tarde recente enquanto caminhava para o leste, passando pelo que um dia foi uma sex shop e que hoje abriga um restaurante mediterrâneo de frutos do mar.

Uma mulher trans, Tay Tay, que foi fotografada para o livro usando um top de alças e brincos de argolas e carregando uma sacola com sobras para levar, estava remoendo sobre o assunto, na esquina da rua Washington com a Christopher, com os braços cruzados e o rosto carrancudo quando ele a encontrou em 2014.

¿Ela nos deu cerca de três segundos¿, disse Seliger, que usava uma camisa Lanvin preta, jeans Prada escuros e um colete preto Rag & Bone. (A presença da Rag & Bone no quarteirão é outro exemplo do desaparecimento do antigo bairro decadente.)

Mas, esmagadoramente, os personagens de Seliger ficaram satisfeitos com a perspectiva de serem finalmente reconhecidos e terem sua existência validada.

O que foi um alívio para um fotógrafo acostumado a interagir com celebridades cansadas (e pressionadas pela falta de tempo).

¿Muitas vezes para eles foi a primeira vez que foram fotografados como seus novos `eus¿¿, contou Seliger, que quase não conseguia andar meio metro sem tropeçar em uma memória de uma fotografia que fez.

A esquina das ruas Gay e Christopher foi o local onde ele fotografou Bree Benz, pai de dois filhos cujo casamento acabou logo depois que ela se revelou trans.

A caminho da 7th Ave., onde o bar gay Boots & Saddle está sendo convertido em um bar japonês de saquê, Seliger se lembra de encontrar Egyptt La¿Beija, uma mulher trans que se apresentava do outro lado da rua na igreja luterana de St. John.

¿Você assistiu `Paris em Chamas¿?¿, perguntou ele, referindo-se ao documentário icônico de 1990, que apresenta em destaque Pepper LaBeija, a matriarca da então na moda casa de LaBeija.

Foi complicado encontrar homens transgêneros para fotografar, contou Seliger, em parte porque normalmente é mais difícil identificá-los em público. ¿É impossível. Em geral não dá para ter ideia.¿

Ou pelo menos foi assim até que Seliger saiu uma noite procurando personagens e descobriu um encontro para pessoas transgênero na igreja.

Rapidamente, alguns participantes começaram a agir como recrutadores de celebridades, apresentando Seliger e sua equipe a pessoas como Benjamin Melzer, um modelo masculino em ascensão que tem aparecido em revistas de fitness em todo o mundo.

Seja homem ou mulher trans, a maioria dos personagens de Seliger teve modelos em quem se basear para moldar sua existência.

M. David Soliven, terapeuta clínico de Midtown, gosta de camisas de botão, gravatas listradas e cardigãs, o tipo que lembra Christopher Reeve nos filmes do ¿Super-Homen¿ quando ele virava o nerd desconhecido Clark Kent.

Barbie Kardashian quer ser a mulher de Kanye West até mesmo nas jaquetas de couro preto estilo bombardeiro, meias pretas e bolsas imensas adornadas com zíperes pelas quais a famosa rainha mundial das selfies é conhecida.

Uma surpresa ainda maior foi Zosherafatain.

¿A pessoa que ele nomeou foi Yanni¿, contou Seliger, logo antes de entrar no parque da rua Christopher, que nessa tarde recente tinha como frequentadores principalmente tipos corporativos em pausas para o café.

Olhar para esse grupo deixou Seliger um pouco triste.

¿Para onde vão todos aqueles garotos? O cais está fechando, estão introduzindo toques de recolher e restrições. É assustador. Lembra desespero e isolamento.¿

Mas La¿Beija, que para o livro foi fotografada aqui perto usando um vestido brilhante e uma peruca estilo Marilyn Monroe, acha que Seliger apenas escolheu a hora errada para a visita.

¿Não importa quanta gentrificação aconteça, não podem tirar isso aqui da gente¿, contou ela em uma entrevista mais tarde. ¿Este é o nosso espaço. Não vamos sair.¿

 
 
 
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