
Pontualmente, às 16h, um círculo de pessoas – que tinham em comum apenas as camisetas negras – formou-se entre o Memorial do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural, em pleno horário de pico da Feira do Livro no feriado de Finados. Com uma faixa estendida, os integrantes da roda deram início à récita dos 111 nomes completos de todas as vítimas do massacre da prisão paulistana do Carandiru, que ocorreu, também às 16h, em 2 de outubro de 1992. As reações no entorno da manifestação, disparada por um artigo assinado por Nuno Ramos na Folha de S.Paulo com o nome dos mortos, foram diversas. Muitos furtaram-se à observação curiosa, alguns aplaudiram e outros criticaram a realização de uma homenagem a criminosos mortos.
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A leitura do rol de mortos começou imediatamente depois do final de um ato similar em São Paulo, no qual 24 artistas leram a lista, por uma hora cada um, do alto de um prédio residencial na Alameda Barão de Limeira. Em Porto Alegre, o evento foi rápido: leram-se os nomes, cumprimentaram-se os participantes e dispersaram-se todos. Um dos organizadores da manifestação, o professor do Instituto de Psicologia da UFRGS Edson Sousa, comentou as motivações do grupo, formado majoritariamente por integrantes do coletivo Psicanalistas pela Democracia e por estudantes do laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Política da UFRGS:
– Esse evento também diz respeito ao julgamento (dos PMs acusados pelo massacre do Carandiru), que anulou as penas estabelecidas pelo relator do processo. Isso é uma amostra de como a Justiça brasileira lida com essas questões tão importantes – diz ele, referindo-se à decisão do desembargador Ivan Sartori que, em setembro, absolveu os 74 policiais ligados à chacina.
Sousa também analisou as reações opostas de quem assistiu ao ato e comentou o evento de São Paulo, transmitido ao vivo via Facebook:
– É fundamental o efeito que uma manifestação dessas produz, desde o apoio até comentários contra. Isso diz o quanto a sociedade avaliza esses atos públicos e seus efeitos, de anular uma pena como no caso do Carandiru. Na cabeça de muitas pessoas, a ideia é que, para resolver essa crise, é necessário responder com violência. E isso é o fim do que nos mantém vivos como humanos, do princípio básico de que existe uma lei e de que, se não nos regularmos por ela, estamos na barbárie – disse.