Literatura

Moacyr Scliar, 80 anos. O que fica de sua obra

Pesquisa com leitores qualificados arrisca a definir os livros mais importantes na prolífica trajetória de Moacyr Scliar como escritor

Por: Luis Augusto Fischer e Gabriel Renner - Ilustrações
18/03/2017 - 03h00min | Atualizada em 18/03/2017 - 03h00min
Moacyr Scliar, 80 anos. O que fica de sua obra /
 

A pergunta que me ocorreu foi bem singela: da ampla obra de Moacyr Scliar, mais de 70 livros publicados em mais de 40 anos de carreira como escritor, o que ficou? O que permanece na memória dos leitores?

A pergunta pode nem ser muito boa, e isso por vários motivos. Na minha memória pessoal, o livro de Scliar que mais me volta à mente é A Majestade do Xingu, romance meio biográfico, envolvendo um personagem frustrado, o narrador, que está em seus últimos dias, e um grande vulto histórico do Brasil, o médico Noel Nutels, figura inspiradora para o escritor por mais de um motivo – Nutels era imigrante, era judeu, era médico sanitarista, era um humanista de matiz socialista, ou socialdemocrata (esses adjetivos, em seu tempo de vida, tinham espinha dorsal e nitidez pública, não tinham ainda sido alcançados pela lama geral de nosso pobre tempo).

Mas a pergunta tem um cabimento para quem olha para a vida e para a arte de uma altura panorâmica – no caso presente, estamos falando de um já ausente: alguém que foi muito querido, que se consagrou de variadas maneiras (prêmios nacionais e internacionais, traduções para as principais línguas ocidentais, eleição significativa para a Academia Brasileira de Letras, e mais que tudo um leitorado amplo) e é lembrado facilmente como um sujeito acessível, mas que faleceu em 2011, começo do ano, aos 73 anos de idade. Alguém que, portanto, completou sua obra, embora tivesse ainda muita lenha literária para queimar.

Na verdade, há tempos eu pensava sobre a mesma questão, quando se tratava do Scliar. Todo escritor, ainda mais um de obra vasta, que alcança milhares de páginas publicadas e lidas Brasil e mundo afora – há obras suas vertidas para 15 idiomas –, terá atingido picos, pontos altos, momentos em que sua mais profunda verve encontrou sua melhor forma.

Sem forçar nenhuma comparação em matéria de qualidade agora, pensemos em dois casos brasileiros. Machado de Assis deixou 10 romances, mais de 200 contos, centenas de crônicas, alguns livros de poesia e teatro, mais correspondência e crítica literária. Mas o tempo se encarregou de nos ensinar que, tirando preferências mais ou menos excêntricas, há dois pontos luminosos em sua trajetória – em primeiro lugar, sobre todas as outras realizações, Dom Casmurro, e em segundo, Memórias Póstumas de Brás Cubas. (Pessoalmente eu levaria dois livros de contos para uma Copa do Mundo de literatura, os Papéis Avulsos e as Histórias sem Data. Mas sei que sou minoria.)

Erico Verissimo também legou um conjunto vasto de obras, em outras milhares de páginas. Seu foco claro foi o romance, com mais de 10 narrativas, mas praticou o ensaio, a memória e mesmo o conto. Mas pergunte a qualquer leitor sobre seu monte Everest, e ele dirá que foi o conjunto O Tempo e o Vento, romance caudaloso, em sete volumes, cuja primeira parte, O Continente, é das grandes realizações da língua portuguesa.

Aqui está o ponto de referência: tendo também obra ampla, no domínio de quatro gêneros de texto – conto, romance, crônica e ensaios ou estudos – , qual o pico de Scliar? Minha opinião já expressei. Mas me ocorreu estender a pergunta.

Nasceu assim, algumas semanas atrás, o levantamento que agora se publica. Bolei um pequeno questionário, com quatro perguntas mais ou menos óbvias:

1 – Em qual gênero de texto o Scliar foi melhor: conto, romance, crônica ou ensaio?
2 – Se fosse para ler pela primeira vez um texto dele agora, qual seria o livro?
3 – Se fosse para reler um texto dele agora, qual deles seria?
4 – Qual o livro mais importante da carreira dele, na tua opinião?

Em seguida, enviei as perguntas para conhecidos e amigos acessíveis por e-mail. Ia olhando a lista e considerando que para aquele ali cabia enviar. Não quis fazer um levantamento entre especialistas ou acadêmicos, mas entre leitores em geral, dentro de meu círculo de relações. Nunca supus que algum deles houvesse lido tudo, naturalmente.

O Centauro no Jardim

Fui selecionando e afinal alcancei escritores, editores, jornalistas, professores de Literatura e de Humanidades, tradutores, estudantes de Letras, psicanalistas, cineastas, músicos e alguns outros extraviados (economista, artista plástico, filósofo), do RS, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Minas Gerais e outros Estados, e um que outro do Exterior. Foram 160 e-mails enviados (não deliberei antes, apenas fui fazendo o envio), e obtive 95 retornos. Depois disso fiz a tabulação dos resultados.

Só que aí fui me dando conta de que as respostas nem sempre eram diretas e simples. Foi bastante comum respostas dubitativas, por exemplo dizer, na primeira, que Scliar foi igualmente ótimo em conto e romance. Muitos deixaram de responder alguma das perguntas, e outros se espalhavam e citavam mais de um título para alguma dela.

Para piorar, me dei conta de que a segunda questão tinha dois sentidos diversos. Eu tinha pensado que o respondente diria de sua vontade de ler algum livro já lido, mas como se pela primeira vez – sentido confuso, admito. Mas muitos responderam explicitando um título que aconselhariam que fosse lido incialmente por um leitor que ainda desconhecesse a obra de Scliar. Faz muito mais sentido, admito lisamente.

O que fiz, então: mobilizando meus escassos dotes estatísticos, reuni numa tabela todas as menções a qualquer livro do Scliar, mesmo aqueles casos em que o respondente mencionava mais de um título numa mesma resposta.

O que temos, como resultado geral?

O Exército de Um Homem Só

Creio que um conjunto de dados de algum valor para falar sobre a permanência de sua obra, sobre a força de sua obra, sobre o significado duradouro do que produziu na percepção de quase cem pessoas, aqui em 2017. A eles!

Declararam-se sem condições de responder e não responderam mesmo oito dos consultados que retornaram. Declararam modéstia (tipo "Não sou lá grande leitor dele", "Não li tudo"), até sugerindo que nem deveriam participar da consulta porque não eram especialistas e tal, mas finalmente disseram alguma coisa outros 95.

A primeira pergunta era mais objetiva, e as respostas dão uma notícia firme: o gênero de excelência, entre os praticados por Scliar (leve em conta que houve alguns casos de resposta dupla), foi o romance, claramente. Esses percentuais se alteram, a favor de ainda maior preeminência do romance, quando se computam os títulos mencionados em qualquer das respostas.

Esses percentuais escondem uma manha ligada à natureza dos diversos gêneros: livros de contos e de crônicas em geral são coletâneas, trazendo material de desigual interesse por sua própria natureza. São raríssimos os casos de notoriedade de um livro de contos ou de crônicas, em qualquer época. Outro aspecto encoberto pelos números é a transitoriedade da crônica, coisa sabida por todos que aqui aparece, por assim dizer, em negativo.

Por outro lado, os romances se destacam mesmo, por sua natureza, como capazes de portar uma memória mais forte, concentrando em suas páginas, como concentram, toda uma trajetória, uma história, um mundo de algum modo autossuficiente, enquanto o conto, com seu fôlego curto, talvez perca com o tempo o encanto que pode provocar na primeira hora.

Nota histórica: Scliar fez parte da geração do conto no Brasil. Estreou e se tornou conhecido nacionalmente na mesma geração de grandes contistas, como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, estes mais velhos, e Sérgio Faraco, Caio Fernando Abreu, Luiz Vilela, Sérgio Sant'Anna, Ivan Ângelo e outros. Apenas Dalton, o Vampiro de Curitiba, porém, se manteve exclusivamente no texto curto.

E o que Scliar fez para merecer essa preferência? Uma resposta genérica será o simples reconhecimento de que seus romances cativaram os leitores por saberem manejar a forma da narrativa longa. Mas há aspectos específicos. No começo de sua carreira, por certo essa simpatia do leitor vem do fato de que suas histórias são ambientadas em Porto Alegre: na sua geração, Scliar foi o mais dedicado a falar da cidade, enquanto por exemplo Assis Brasil, Tabajara Ruas e Alcy Cheuiche dirigiram sua energia para repassar a história do Estado. Também foram marcantes sua vontade de discutir a condição judaica e, mais amplamente, as angústias de época (lutar pela transformação do mundo ou se acomodar?).

Scliar mesmo parece ter fixado seu melhor empenho, ao longo do tempo, justamente no romance. Não parou de escrever contos, como aqueles que escrevia, com temperamento de crônica, sobre assuntos tirados diretamente de notícias de jornal, para a Folha de S. Paulo. Mas investiu muito maior energia nos romances do final de sua carreira.

A Guerra no Bom Fim

***

Agora vejamos a tabela toda. Fizemos uma divisão relativamente artificial em duas fases cronológicas – mas há um bom cabimento na divisão, reforçada por vários dos leitores consultados. De fato, há uma importante convergência no reconhecimento de que O Centauro no Jardim, de 1980, é um ponto alto da carreira do escritor, com 28% de todas as menções a livros, consideradas as duas fases. (Em segundo lugar, como livro isolado, está A Guerra no Bonfim, com 10% das lembranças, e em terceiro O Exército de um Homem Só, com 9%.)

Não apenas por ser o mais indicado, individualmente, dado que já por si merece atenção, mas porque é visto como sendo um marco mesmo, uma síntese alta dos temas e procedimentos de Scliar. Além disso, logo no ano seguinte é publicada a novela Max e os Felinos, que muitos anos depois seria objeto de uma quase inacreditável controvérsia: um escritor canadense, Yann Martel, venceu importante prêmio literário mundial com A Vida de Pi, que virou um filme de grande sucesso, nomeado em 11 categorias ao Oscar. Detalhe: o livro e o filme contam uma história claramente calcada no enredo inventado por Scliar, de um sobrevivente a naufrágio que se vê sozinho com um animal selvagem num bote. O autor admitiu lisamente ter lido o livro de Scliar, em sua versão ao inglês, e Scliar não cogitou processá-lo, embora, creio, tivesse boas razões para tal.

Tomando os grandes números, é clara a preferência dos leitores pelo que chamamos aqui de primeira fase. Somando as duas, temos 241 menções a títulos (157 na primeira, 84 na segunda): assim, temos 61% das preferências para o primeiro tempo da trajetória de Scliar. Entre os respondentes, três críticos literários e professores de Letras explicitaram ainda que os primeiros romances são superiores aos demais. Como diz Orna Levin, professora da Literatura da Unicamp:

"Não apontaria um livro, mas o conjunto que ele produziu ao longo da década de 1970, sobretudo A Guerra no Bom Fim, O Exército de um Homem Só, Os Deuses de Raquel, O Ciclo das Águas e Mês de Cães Danados. Acaba-se a década e acaba-se o ciclo de produções mais significativas, justamente em 1980, com O Centauro no Jardim. Depois disso a voz narrativa se dilui em produtos mais comerciais do que experimentais".

A Mulher que Escreveu a Bíblia

Curiosamente, em todas essas narrativas há um elemento comum, ou dois: a condição judaica (com exceção do Mês...), e o cenário de Porto Alegre, ou do Rio Grande do Sul. Na segunda fase, há um conjunto de romances que, mesmo tendo aqui aparecido com pouco destaque, compõem uma faceta de grande interesse – são histórias que romanceiam cenas, episódios ou estruturas narrativas da grande tradição bíblica. Estão neste caso A Mulher que Escreveu a Bíblia, Os Vendilhões do Templo e Manual da Paixão Solitária, romances de história mais claramente "universal", no sentido de que importam menos os condicionantes locais e mais o tratamento criativo dado a histórias ou situações compartilhadas em todo o Ocidente, a partir da Bíblia.

Finalizando, vale dar voz a dois depoimentos. Jackson Raymundo, doutorando de Literatura na UFRGS e professor, comentou: "Se eu tivesse 13 anos, iria reler o mesmo que tanto me encantou à época: Um Sonho no Caroço do Abacate, altamente recomendado para a formação de valores plurais. Com 31, O Exército de um Homem Só, pela genialidade da representação do Capitão Birobidjan diante de um mundo fragmentado e carente de novas utopias".

E Pedro M. Garcez, professor de Sociolinguística da UFRGS, contou de sua experiência com formação de leitores: "Acho que as minhas respostas para as tuas perguntas numeradas seriam postiças e furadas, mas me ocorreu que um canto da obra, como tradutor e contista infanto-juvenil, talvez fosse alguma contribuição. Sobre isso, lembro ainda de te contar que por ocasião da oficina regional de crônica da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro (Olpef) em 2014, com as 150 duplas aluno/profe dos semifinalistas hospedados no centro de Porto Alegre, acompanhei vários grupos visitando a exposição sobre o Scliar que estava no Santander. Eles adoraram conhecer mais sobre o cronista Scliar, que eles já conheciam ao menos de Cobrança, que está no material das sequências didáticas da Olpef, entre as mais lembradas".

Esse comentário, aliás, pode ser ampliado para abarcar um traço importante da obra e da trajetória de Scliar. Tendo publicado muitos textos para leitura de adolescentes e jovens, assim como coletâneas de crônicas de leitura acessível, nosso escritor fez um claro movimento na direção do leitor iniciante, da escola – e acompanhou esse empenho com uma atitude francamente aberta para o contato com esse público, atitude que em sua geração é relativa raridade. Scliar se pensava como um profissional da literatura e se dispôs a enfrentar as consequências práticas disso. Vários dos depoentes nessa pesquisa lembraram a franqueza do acesso que ele permitia e mesmo desejava.

Por esse lado e por outros, ligados ao destino da literatura em fixar a experiência humana de seu tempo e lugar, o texto de Moacyr Scliar anda por aí, na memória e portanto vivo, despertando interesse e fazendo leitores. 

A LISTA DOS VOTANTES:
Adriano Naves de Brito, Alcino Leite Neto, Alcy Cheuiche, Alexandre Lucchese, Amalia Sato, Ana Crélia Dias,André Bueno, Antônio Carlos Neis, Antonio Carlos Secchin, Antônio Dimas, Arthur de Faria, Beatriz Daudt Fischer, Ben Berardi, Carlos Francisco Sicca Diniz, Carlos Gerbase, Carol Abreu, Caroline Chang, Celso Gutfreind, César Guazzeli, Cíntia Moscovich, Clara Pechansky, Cláudia Lorena Fonseca,Cláudia Tajes, Cristiano Bernardes, Débora Mutter, Demétrio Alves Paz, Denise Weinreb, Diego Garcia, Diego Grando, Elisa Henkin, Escobar Nogueira, Eunice Piazza Gai, Fabiano Grendene de Souza, Fábio Prikladnicki, Fabrício Carpinejar, Flávio Aguiar, Flávio Azevedo, Francisco Marshall, Giba Assis Brasil, Gilberto Kaplan, Giuseppe Zani, Guto Leite, Heloísa Jahn, Heloísa Netto, Homero Vizeu Araújo, Humberto Gessinger, Ildo Carbonera, Iuri Abreu, Jackson Raymundo, Jacques Fux, Jane Tutikian, Janine Mogendorff, Jefferson Tenório, João Luiz Ourique, João Pombo Barile, José Mário Pereira, Juarez Fonseca, Juliane Welter, Leandro Sarmatz, Léo Gerchmann, Leonardo Antunes, Letícia Wierzchowski, Lívio Amaral, Lourenço Cazarré, Luciana Coronel, Luis Artur Borges Pereira, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Rebinski Junior, Luiz Ruffato, Márcia Ivana Lima e Silva, Márcio Renato dos Santos, Maria da Glória Bordini, Mária Duarte, Mário Corso, Mário Pinheiro, Martha Medeiros, Mauro Póvoas, Michel Laub, Miguel da Costa Franco, Orlando Fonseca, Orna Levin, Paulo Scott, Pedro Garcez, Regina Zilberman, Rinaldo de Fernandes,Rita Lenira Bittencourt, Roberta Flores Pedroso, Rodrigo Rosp, Ruben Daniel Castiglioni, Ruben Oliven, Sérgio Bandeira Karam, Sérgio Faraco, Sergius Gonzaga, Thales Nicoletti e Tiago Pedruzzi

 
 
 
 
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