Polêmica

A Ospa é uma orquestra voltada para a educação

Diretor artístico da orquestra contesta Isaac Karabtchevsky, que, em entrevista publicada na edição passada, afirmou que a instituição gaúcha não se preocupa com a formação de músicos

17/09/2016 - 03h13min | Atualizada em 17/09/2016 - 03h13min
A Ospa é uma orquestra voltada para a educação Mateus Bruxel/Agencia RBS
Apresentação da Escola de Música da Ospa para internos da Fase, como parte do programa Ospa na Comunidade Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Evandro Matté
Maestro e diretor artístico da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre

Em 2016, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre comemora 66 anos. Desde 1950, a Ospa vem trilhando uma trajetória que a colocou entre as orquestras referenciais do Brasil, sendo a mais antiga em atividades ininterruptas. Entre suas mais importantes conquistas está a manutenção do Conservatório Pablo Komlós – Escola de Música da Ospa. Criada em 1972, a instituição é referência em formação musical no Rio Grande do Sul.

É uma pena que nem todas as pessoas que fizeram parte dessa história reconheçam a relevância do trabalho que a fundação vem desenvolvendo, e que nos últimos anos ganhou especial projeção. O maestro Isaac Karabtchevsky, diretor artístico da Ospa entre 2003 e 2010, fez declarações injustas e infundadas em entrevista para a Zero Hora publicada na última edição do caderno Doc. O regente demonstrou total desconhecimento da realidade da Ospa ao afirmar que falta à orquestra "um trabalho de ponta", e que a vida didática "nunca foi uma preocupação fundamental" para a instituição.

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A Escola de Música da Ospa fechou no início de 2007, durante a gestão de Karabtchevsky, e só foi reaberta em 2013, na gestão de Tiago Flores. Desde então, vem cumprindo um incomparável papel de educação musical no nosso Estado. Atualmente, atende mais de 200 crianças e jovens que recebem aulas gratuitas com os músicos da Ospa.

Os estudantes da Ospa recebem não apenas formação musical de altíssima qualidade, como também formação para a cidadania. Projetos como o Escola da Ospa na Comunidade, lançado no ano passado sob a coordenação de Diego Grendene de Souza, atual diretor da Escola de Música da Ospa, levam recitais dos alunos para instituições sociais de diferentes partes da cidade e da região metropolitana.

A Escola mantém grupos orquestrais e de música de câmara de alto nível, como a Banda Sinfônica, a Camerata de Cordas, o Quinteto de Metais, o Quinteto de Sopros e a sua prestigiosa Ospa Jovem. A orquestra sinfônica do conservatório promove uma intensa programação em Porto Alegre e no interior do Estado. Vencedora do Prêmio Funarte de Apoio a Orquestras 2015, no qual concorreu com orquestras do Brasil inteiro, a Ospa Jovem executa composições em formato original, não adaptadas. Devido ao seu elevado desempenho, a Ospa incluiu em sua Temporada 2016 uma série intitulada Ospa Jovem – ou seja, os concertos da orquestra da escola estão inseridos na programação oficial da Ospa.

Sendo gratuita, a Escola de Música da Ospa recebe estudantes de famílias de baixa renda. O caso do aluno de contrabaixo Weslei Felix Ajarda, da periferia de Canoas, tornou-se conhecido e ganhou visibilidade nacional. Ele é apenas um entre as duas centenas de beneficiados pelo conservatório.

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Não há dúvida de que o trabalho didático é, portanto, parte essencial da Fundação Ospa, e assim vem sendo tratado pela direção. Grande parte dos músicos da Ospa são oriundos dessa Escola de Música, inclusive eu mesmo. É frustrante que uma pessoa como Karabtchevsky, com sua rica trajetória, coloque em questionamento esse esforço e esse percurso. Ao contrário do que ele disse, a orquestra vem fazendo um trabalho de ponta, cumprindo com a programação lançada no início do ano, com a presença de regentes e solistas de destaque nacional e internacional. Grandes orquestras tiveram que fazer cancelar ou adiar apresentações em função de problemas econômicos.

Desde o ano passado, entre outras ações, lançamos novas séries de apresentações, montamos uma ópera encenada, ampliamos a gama de convidados e de repertório executado, criamos meios de valorizar artistas locais como seleção de solistas, fizemos concurso para jovens compositores e nos tornamos mais presentes no interior do Estado.

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Em função de tudo isso, lamentamos as injustas afirmações de Karabtchevsky. Elas prejudicam o esforço que a Secretaria de Estado da Cultura, através do Secretário Victor Hugo, e a Fundação Ospa, presidida por Ivo Nesralla e administrada por mim e por Araquém Idiart Gomes, têm feito com a comunidade e patrocinadores no sentido de fortalecer a música de concerto em nosso Estado, proporcionando mais educação e mais cultura.

Estamos sempre defendendo uma fundação pública, que entrega um serviço de qualidade, como a Ospa. Portanto, não deixaremos de fazer frente às inverdades ditas. Seguiremos desenvolvendo um trabalho que é, sim, de ponta, para que a Ospa comemore seus 70 anos fazendo jus ao carinho e ao apoio que a sociedade gaúcha lhe dá.


 
 
 
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