Na rota do hip hop

"A periferia se calou, e isso tem um preço", afirma rapper Ice Blue, integrante dos Racionais MC's

Grupo promete cantar hinos como "Diário de um detento", "Vida loka", "Negro drama" e "Um preto zica" em show nesta sexta,  no Pepsi on Stage

Por: Rafael Balsemão
06/10/2016 - 15h56min | Atualizada em 06/10/2016 - 16h20min
"A periferia se calou, e isso tem um preço", afirma rapper Ice Blue, integrante dos Racionais MC's Marcelo Pretto/Divulgação
Rapper Ice Blue, integrante dos Racionais MC's Foto: Marcelo Pretto / Divulgação

No final de 2014, os Racionais MC's lançaram Cores & valores, após 12 anos sem gravar material inédito. À época, o grupo, que se apresenta nesta sexta-feira no Pepsi on Stage, em Porto Alegre, chegou a ser acusado de "virar as costas para os fãs". Na entrevista a seguir, feita por telefone, Ice Blue, 47 anos, fala sobre o hiato e o disco, a nova geração do hip hop brasileiro e o momento político pelo qual passa o país.

Leia mais:
Apresentação dos Racionais MC's em Porto Alegre inaugura maratona de shows que celebra bom momento do rap nacional

Série "The get down", da Netflix, acompanha o surgimento do hip hop nos EUA
"Luke Cage" estreia ampliando o time de heróis da Marvel na Netflix e a representação das minorias

O lançamento de Cores & valores foi muito comentado, principalmente pelo tempo que passou desde o álbum anterior. Quase dois anos após o lançamento do disco, as pessoas entenderam a mensagem?
Em Nada como um dia após o outro dia, de 2002, a gente já vinha falando de uma evolução e de conquistas. O Cores & valores chancelou essas ideias. Não mudamos o discurso, e sim o atualizamos. A cada cinco anos se atualiza tudo: a favela, a periferia, os pretos, o movimento, o ser humano, em um contexto geral. Hoje, depois de dois anos, os caras entenderam que essas são as ideias atuais da rua. O Cores & valores passou por essa dificuldade, até por ser um disco de 32 minutos. As pessoas estavam acostumadas com músicas dos Racionais de sete, de oito, até 11 minutos. 

Como você avalia a fase atual do hip hop no Brasil?
Criamos uma geração mais próspera, que já conseguiu estudar mais, que veio com outra visão. Sem contar que mudou a cadeira de quem assina o cheque das grandes empresas. A gente tinha que falar com o pai, com avô desse cara, que nem sabia que o rap existia. O máximo que ele conhecia de música black era Tim Maia e Jorge Ben. Hoje isso mudou. O cara que está patrocinando o Emicida já o conhece, sabe o estilo, porque conhece os Racionais, conhece o Sabotage. O Projota, a Karol Conka, a Flora Matos e todos esses outros que estão fazendo comerciais e participando de festivais são uma vitória para o nosso movimento.

Como você vê o crescimento das mulheres nesse cenário?
A mulher está mais presente na família, no relacionamento – se ela gosta, gosta; se não gosta, tem o direito de falar que não quer mais. A mulher ganhou essa voz. Dentro do rap, não poderia ser diferente. Conquistaram esse espaço com talento e atitude. 

Como os Racionais veem as mudanças resultantes das novas tecnologias para o desenvolvimento do trabalho?
Para o rap, a tecnologia e as mídias sociais eram as ferramentas que faltavam. O movimento era totalmente underground, segmentado. As grandes gravadoras tinham o monopólio da distribuição e também da produção. Hoje, não precisa mais estar presente para fazer uma música. A distribuição se faz no YouTube. Da internet, da sua casa, você faz a música chegar no mundo todo.

O país passa por um período conturbado politicamente. Vocês se posicionaram a favor da ex-presidente Dilma e contra seu impeachment. Como avaliam este momento?
Costumo dizer que tudo de alguma forma traz uma evolução. A única coisa que não evolui no Brasil é a política. E o povo está cada vez mais desinteressado. É um momento delicado, o país deu uma volta para trás. A gente ainda não tem uma posição, uma análise sobre o que pode acontecer agora.

Vocês já declararam que a periferia, hoje, está melhor do que aquela que existia no surgimento da banda, em 1988. Continuam com a mesma opinião?
Nas últimas semanas, temos visto viaturas entrando na favela, dando tiro em inocentes. Já começamos a sentir o reflexo de tudo o que está rolando na política. A repressão voltou à favela. Quem vai sentir isso vai ser a favela. A periferia se calou, e isso tem um preço. O silêncio vai custar caro. Muitas pessoas deixaram de votar, votaram nulo, não quiseram participar.

Como está a produção do novo disco dos Racionais?
Estamos trabalhando full time em vários projetos. Tem disco dos Racionais previsto para o ano que vem, tem disco do (Mano) Brown para este ano ainda, tem disco meu para o começou de 2017... Estamos trabalhando em videoclipe, documentário.

Uma das músicas emblemáticas de vocês é Diário de um detento, relato de um ex-presidiário sobre o massacre do Carandiru. Como vocês receberam a notícia da anulação dos julgamentos que condenaram 74 policiais pelo ocorrido?Decepção. Imagina a família dessas pessoas. E qual foi a repercussão? Nenhuma. Você ouve as pessoas falarem disso? O Brasil está dessa forma, apático. Já está mais do que comprovado que não era necessário nada daquilo. Mais uma vez vão tapar o sol com a peneira. Mas você viu alguém fazer protesto sobre isso? Panelaço? Não teve nada. É um momento estranho, confuso. Está todo mundo no Facebook, cuidando da vida do outro e deixando as coisas importantes passarem.

Qual seria a resposta que os Racionais poderiam dar em relação a essa apatia?
A parte mais difícil, hoje, é sensibilizar as pessoas. Esse é o papel – difícil. As pessoas não têm sensibilidade. As pessoas veem um corpo, tiram uma selfie e postam. As pessoas não tratam mais o ser humano como humano. Os Racionais só continuam atuando porque a gente se sente útil ainda. A partir do momento em que isso mudar, será a hora de parar. Ainda dá para contribuir, para tentar sensibilizar. A gente tem que mostrar para as pessoas que o mundo virtual existe, mas que o mundo real também. A internet deu voz a quem não tinha, mas deu voz para uns caras que não querem acrescentar, que estão criticando e falando coisas nada a ver, não só no movimento musical. É o ratinho de internet.

Como vai ser este show em Porto Alegre?
Gostamos muito de ir a Porto Alegre. Sempre tentamos fazer um repertório para atender aos gostos das pessoas. É um público mesclado, de várias idades. O show tem 80 minutos de músicas antigas e 20 minutos do disco novo. Não tem como fazer show sem cantar Negro drama, Jesus chorou, Vida loka e A vida é um desafio...

Por que você acha que essas músicas antigas ainda fazem tanto sentido para as pessoas?
São músicas de esperança. Tocam mais as pessoas. As pessoas as têm como reza.


 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.