Só sucesso

De "Dona" a "Lua de cristal": compositores falam sobre processo criativo na Festa Nacional da Música

Nomes como Michael Sullivan e Paulo Massadas estiveram na Capital e comentaram sobre as origens de seus sucessos

18/10/2016 - 09h06min | Atualizada em 18/10/2016 - 11h16min

— Isto que é música! — grita uma senhora de 70 anos, após Marcos Sabino apresentar Reluz, sucesso dos anos 1980, no painel Ninho da Criação, na segunda-feira, no Centro de Eventos do Hotel Plaza São Rafael. O evento faz parte da programação da 12ª Festa Nacional da Música, que pela primeira vez é realizada em Porto Alegre. 

Na mostra, compositores brasileiros de sucesso falaram sobre seus processos criativos e as origens de seus hits, além de tocá-los para o público presente. Além de Sabino, participaram do evento Nano Cordel, Sá (da dupla Sá & Guarabyra) e a dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas.

Em sua quarta edição, foi a primeira vez que o Ninho da Criação foi aberto ao público — formado, em sua maioria, por senhoras que integram a Associação Nacional dos Aposentados e Pensionistas da Previdência Social (ANAPPS). Durante as performances dos compositores, que revisitavam sucessos de décadas passadas, elas atuaram como a segunda voz.

Sullivan e Massadas abriram os trabalhos com Me dê motivo, canção que eles escreveram para Tim Maia. Foi o cantor, aliás, que ensinou Sullivan a tocar violão.

Também contaram histórias do Síndico, como quando ele ligou de madrugada, chorando, implorando para gravar Leva — que era um jingle composto para a Rádio Bandeirantes, de São Paulo. No telefone, Tim alegou que sua mulher o havia abandonado e que ele precisava muito cantar essa música. Sullivan, que era a voz do comercial, estava relutante:

— Tim, tem cantar em outro tom, porque este é mais alto. Você tem certeza disto?

O tom choroso da voz do Síndico tornou-se grave.

— Meu irmão, eu te ensinei a cantar, e você está me falando que eu não consigo cantar no seu tom? Ivanilton (nome verdeiro de Michael Sullivan), você não canta mais que o Tim Maia! — disparou o cantor, que conseguiu gravar uma nova versão de Leva.

Compositores explicaram como criam suas músicas Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Massadas relatou a história de como compôs Ursinho Blau Blau, do grupo Abshyntho, processo que levou 15 dias. Ele recebeu uma música cheia de onomatopeias para escrever a letra em cima e estava com dificuldade para lidar com "blau blau".

— Lembrei de um documentário que assisti sobre pessoas que dormem com ursinhos e se confessam com eles. Aí imaginei o Sylvinho Blau-Blau se confessando sobre uma garota — explicou.

Nando Cordel contou sobre a vez que Sullivan lhe incentivou a escrever músicas para as massas e, para isso, o hospedou em um hotel cinco estrelas. O compositor pernambucano tinha a missão de escrever 12 músicas populares em um mês. Deslumbrado com a comida e o conforto do estabelecimento, após um banho na piscina, Nando compôs 14 canções em uma tarde. Mas não avisou o colega.

— Fiquei com medo de ligar para ele, vai que me tirasse do hotel — divertiu-se.

— Ele ficou seis meses! — brincou Sullivan.

Leia mais:
EXCLUSIVO: MC Guimê e Lexa falam sobre pânico em voo para Porto Alegre
VÍDEO: Gilberto Gil compõe música inspirada em tratamento médico
Phil Collins anuncia retorno aos palcos com turnê chamada "Ainda não morri"

No evento, Nando tocou sucessos como Isso aqui tá bom demais, De volta ao meu aconchego e Gostoso demais — hits interpretados por nomes como Dominguinhos e Elba Ramalho. Porém, quando recitou um trecho de É só você querer ("O meu amor é seu / É só você querer / Eu faço qualquer coisa / Pra ficar com você"), provocou uma reação mais excitada da plateia.

— Ai, que delícia! — exclamou uma mulher da plateia, que, em seguida, passou uma cantada no compositor, o convidando para sua casa.

Sá tocou clássicos de sua parceria com Guarabyra, como Sobradinho e Roque Santeiro (tema da novela homônima da Globo, exibida em 1985). Aliás, ele também explanou sobre outra música de autoria da dupla que era trilha sonora do folhetim: Dona, tema da viúva Porcina (Regina Duarte).

— Uma vez estávamos em um hotel, em Goiânia. De repente, ouvi umas no chão, vindas do andar de baixo. Fui ver e era o Guarabyra. "Ficou maluco? Vai ficar socando o teto?". Ele disse que estava terminando uma música e que eu precisava vê-la. Na época, o Guarabyra tinha uma namorada poderossíma, no caso, que mandava nele — lembra o cantor.

Como a dupla já estava com duas faixas na novela, a produção do folhetim achou melhor que a canção inspirada em uma amante arbitrária fosse executada por outro grupo, que acabou sendo o Roupa Nova.

Sullivan e Massadas encerraram o painel no melhor clima de final de festa de casamento tocando Whisky a go go e levantando a plateia. Mas teve bis: um medley de Uni duni tê e É de chocolate, sucessos do Trem da Alegria e da Xuxa, respectivamente. Só faltou Lua de cristal, outro clássico da dupla. Durante as canções infantis, as senhoras de faixa etária acima dos 60 anos, em média, cantaram e dançaram os sucessos direcionados para as crianças no anos 1980, época em que já eram bem adultas.

— É a terceira infância — definiu Massadas ao encerrar.

— São músicas infantis trabalhadas como se fossem para adultos, com arranjos e melodias muito bem feitas. Só a letra que dava uma mudada no discurso. Por isso que até hoje tanto a juventude quanto pessoas de 60 ou 70 anos curtem — analisa Sullivan.

Ou seja, isto que é música.

 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.