Por que tentar mudá-lo agora?

Vencedor do Nobel, Bob Dylan foi exatamente o mesmo no palco do festival Desert Trip

O cantor se apresentou na noite desta sexta-feira na Califórnia

Por: Marianne Scholze
15/10/2016 - 05h54min | Atualizada em 15/10/2016 - 05h58min

Não necessariamente apenas a 61: foram muitas as highways enfrentadas por boa parte do público que lotou o Empire Polo Club, em Indio, na Califórnia, para estar presente à primeira noite do segundo final de semana do festival Desert Trip. Se a escalação das três noites empilha pesos pesados da música como talvez nenhum festival até hoje, a noite desta sexta reservava ainda outra atração: a presença de um vencedor do prêmio Nobel de Literatura no palco.

Não que o público em geral fizesse questão de demonstrar qualquer empolgação especial para ver Bob Dylan abrir os trabalhos: talvez 90% levassem estampada na camiseta a verdadeira atração principal da noite, os Rolling Stones. Coube a eles, aliás, exaltar a conquista do colega de palco. Primeiro, Mick Jagger convocou palmas da plateia e comparou Dylan a Walt Whitman. Depois, no meio da apresentação, em seu set à frente dos vocais, Keith Richards repetiu os elogios e disse não conseguir pensar em ninguém mais merecedor do prêmio.

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Quanto a Dylan? Foi exatamente o mesmo que subiu ao palco do primeiro final de semana do Desert Trip, dia 7, reprisando a persona distante que destila as canções direto de seu mundo próprio a que os fãs já se acostumaram. Não faltaram hits - de Rainy Day Women #12 & 35 abrindo o set, seguida por Don¿t Think Twice, It¿s All Right, Highway 61 Revisited e It¿s All Over Now, Baby Blue, culminando com Like a Rolling Stone no bis -, ainda que a maioria em versões próximas do irreconhecível, em ritmos mais lentos, cantadas com a voz e a postura de quem mistura desleixo, impaciência e pura vontade de fazer o que der na telha com a própria canção.

Quanto à plateia, talvez já acostumada, talvez apenas esperando pelos Stones, passou pelo show quase inabalada: as filas para comprar camisetas ou cerveja seguiram, o vaivém em direção aos banheiros também. Quem estava sentado em cadeiras de praia ou cobertores espalhados pelo gramado também não se esforçou para levantar, ainda que batesse o pezinho e balançasse a cabeça ao som do blues coeso e entrosado executado pela excelente banda de apoio de Dylan.

Entre o cantor/poeta que se esquivava até mesmo das câmeras no palco e mal apareceu de frente nos telões e a plateia que mal reagiu a tudo isso, a impressão que ficou foi a de que todos prefeririam o contato com o Nobel de Literatura em casa, no máximo em um teatro, mas não em um festival desse porte. O recado final coube ao próprio Dylan, ao encerrar o show com o cover de Cy Coleman incluído em seu mais recente álbum, Shadows in the Night (2015): Why Try to Change Me Now — por que tentar me mudar agora?

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