Com a palavra

Zuza Homem de Mello: "O público está hipnotizado" 

Musicólogo, jornalista, pesquisador e escritor, José Eduardo Homem de Mello compartilha a memória prodigiosa e o conhecimento enciclopédico sobre a música brasileira em entrevista a ZH

04/05/2017 - 11h00min | Atualizada em 04/05/2017 - 11h00min
Zuza Homem de Mello: "O público está hipnotizado"  Carlos Macedo/Agencia RBS
Aos 83 anos,  Zuza exibe enorme vitalidade criativa e física e está com novos projetos a caminho Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS  

José Eduardo Homem de Mello viu e ouviu de muito perto artistas que revolucionaram a música no século 20. Quando morou em Nova York, nos anos 1950, frequentou clubes de jazz onde batiam ponto com mestres como John Coltrane, Miles Davis e Duke Ellington. Testemunhou a bossa nova conquistar o mundo com João Gilberto e Tom Jobim. Nos anos 1960, acompanhou o nascimento da geração de gigantes nos palcos dos festivais que mobilizaram o Brasil: Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. E foi ainda um dos primeiros brasileiros a ouvir o antológico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Musicólogo, jornalista, pesquisador e escritor que faz da paixão inspiração para o contínuo trabalho, José Eduardo ficou consagrado como Zuza. Aos 83 anos, insistindo para ser tratado por "você¿ e exibindo enorme vitalidade criativa e física, está sempre com novos projetos a caminho. Até o final do ano, apresentará, junto aos livros referenciais que já escreveu, como A Era dos Festivais e Música com Z, um volume sobre a história do samba-canção.

Zuza compartilha a memória prodigiosa, o conhecimento enciclopédico e o vasto acervo reunido ao longo de décadas em um programa de rádio e nos cursos que ministra pelo Brasil. O mais recente, sobre Elis, o trouxe a Porto Alegre em abril. Ainda em Nova York, onde gravava um documentário sobre jazz, reforçou a ZH por que Elis segue eternizada como a maior cantora do país:

– Sua musicalidade é imbatível. Elis canta como um músico e tem a qualidade de voz de uma cantora. Era de uma bravura sem par. E viveu intensamente como quem pudesse imaginar que sua vida seria breve. Deixou uma obra sem paralelo. Quem viu, viu. Quem não viu tem os discos. Continua no pedestal.

Já na Capital, Zuza deu sequência à conversa. E, depois, ainda enviou um breve comentário a respeito da morte de Belchior. Leia a seguir.

Em junho, celebram-se 50 anos de um marco simbólico da história da música, com o qual você teve relação muito próxima: o lançamento do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Qual o impacto de Sgt. Pepper's à época e o legado desse álbum?

Na verdade, o primeiro disco dos Beatles que me atraiu foi o anterior: Revolver (1966). Ali percebi que eles não eram apenas um grupo de rock. Tinham uma abrangência mais ampla e profundas raízes inglesas. Isso é importante porque quase todos os grupos de rock britânicos da época seguiam influências norte-americanas, de Chubby Checker. O Sgt. Pepper's sedimentou o que eu tinha percebido em Revolver. Fiquei deslumbrado com uma série de novidades, os arranjos, era um disco de conceito, para ser ouvido do começo ao fim seguindo a evolução das canções naquela ordem específica. É como um concerto, que você não pode começar a ouvir a partir do segundo movimento. Isso deu uma elevada na carreira dos Beatles acima dos outros grupos. Os Beach Boys tinham no Brian Wilson um fenômeno no jogo da harmonia, nas vocalizações, mas o conceito que se tem em Sgt Pepper's ainda não existia. Músicos de formação erudita costumavam ter rejeição à música pop, vista como superficial. Em Sgt. Pepper's não havia superficialidade. Mostrou inovações técnicas, intervenções de instrumentos que jamais tinham sido usados na música pop. A ideia de trabalhar com gravações de trás para frente, aliás, vinha da música concreta do Pierre Schaeffer (nos anos 1940), mas dentro do rock não havia sido usada e provocou um grande estranhamento.

Em seu livro A Era dos Festivais, você lembra que trouxe o disco ao Brasil em julho de 1967 e o mostrou a Caetano Veloso, que ficou muito entusiasmado com a audição.

Eu tinha viajado aos EUA na época em que o disco foi lançado e o trouxe na volta. Estava com ele um dia no Teatro Record, onde trabalhava como técnico de som, e o (produtor) Solano Ribeiro subiu na minha sala junto com o Caetano para ouvi-lo. Caetano saiu de lá deslumbrado. Ele tem uma percepção rápida daquilo que é bom. A influência que o disco teve logo depois no tropicalismo foi uma decorrência natural junto a maestros e arranjadores que não pertenciam ao universo pop, como Rogério Duprat e Júlio Medaglia, e que tiveram a percepção de que o buraco era mais embaixo (risos).

Outro evento importante a completar 50 anos em 2017 (em outubro), é o Festival da Record, marcado pelo alto nível das canções e dos artistas envolvidos, todos eles ainda na ativa, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Foi na edição de 1967 que os compositores saíram da sombra dos intérpretes. O que representou essa mudança de curso na música brasileira?

Isso ocorreu devido à percepção que esses autores tiveram de que, embora fossem eles os autores de músicas em festivais anteriores, eram os cantores que ficavam com os louros. Ninguém fala de Arrastão por causa do Edu Lobo e do Vinicius de Moraes, mas sim da Elis Regina. Quando veio Disparada, era o Jair Rodrigues. Ninguém falava do Geraldo Vandré (coautor com Téo de Barros). No caso de A Banda, a intérprete era a Nara Leão. O Chico acabou entrando no Festival da Record de 1966 por causa da deficiência de volume da voz da Nara, que ficava encoberta pela orquestra. O Chico aproveitou a oportunidade. E todos os compositores tiveram essa percepção ao mesmo tempo: "Na próxima vez, quem sabe a gente cante as nossas músicas". Tenho a impressão muito clara de que a canção cantada por seu próprio autor pode até não ser rigorosamente perfeita em termos de interpretação, mas ele canta a sua verdade. É a verdade que o Caetano canta em Alegria, Alegria, e Gil em Domingo no Parque, ou Edu Lobo em Ponteio, Chico em Roda Vida. Essa verdade surgiu nesse festival de 1967.

Na era dos festivais musicais dos anos 1960 surgiu o que conhecemos como MPB, que você já disse não ser uma abreviação de música popular brasileira, mas sim a sigla de uma escola específica surgida no ambiente universitário da época. A MPB hoje parece um conceito vago. No que ela se transformou?

Você usou a palavra certa. MPB é um conceito vago. Surgiu com tamanha força que as lojas de discos passaram a considerá-la uma espécie de setor nas prateleiras para facilitar a localização para os compradores, separando-a, por exemplo, da jovem guarda e do sertanejo. Esse universo que se denominou MPB incorporou uma característica comum sem nunca ser sido um gênero musical. Gênero é outra coisa, tem um ritmo próprio, uma harmonia característica. MPB é um rótulo em que cabem vários gêneros e, com o tempo, foi ficando mais abrangente em relação a esse núcleo inicial.

Muitos artistas de ponta da música brasileira são os mesmos há mais de 50 anos. A que você atribui essa longevidade, que, presumo, tornou complicada a projeção de músicos das gerações seguintes ao mesmo patamar, por mais talentosos que sejam?

É muito difícil competir com essa gente (risos). Talvez seja produto do DNA que tem heróis como Caetano, Chico, Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, que é o DNA da bossa nova, ou melhor, de João Gilberto. Esse DNA é muito forte e foi desenvolvido em função do talento dessa gente, que prolongou suas carreiras até os dias em que os artistas normalmente penduram as chuteiras. E isso foi muito bom. Eles continuam à frente. Os últimos discos do Chico, do Caetano e do Gil mostram isso. Mesmo na canção norte-americana, muitos compositores pararam aos 60 anos. Os brasileiros continuam até hoje, com mais de 70. Essa longevidade também conta. Certa vez vi um show da Carole King, extraordinária compositora que admiro, em Nova York. Depois de tocar vários de seus clássicos, ela avisou que ia mostrar, em primeira mão, uma nova canção. Lá pela metade da música, cutuquei o crítico do New York Times, que estava ao meu lado, e disse: "Aí você vê a grande compositora". O grande compositor continua sendo grande. Lembro que quando Tom Jobim lançou Matita Perê (1973): começaram a falar que ele tinha acabado. Sim, foi dito isso! Do Matita Peré! Faltou percepção para o novo. Esses artistas geniais estão na frente, é você é que tem que chegar até eles.

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No processo de renovação da música brasileira, quem lhe chama a atenção?

Tenho a percepção de que a música instrumental evoluiu mais do que a área de compositores e cantores, e por um motivo: as escolas de música. Os instrumentistas brasileiros hoje, aos 20 anos, estão prontos para tocar em qualquer lugar, dominam seus instrumentos, sabem fazer arranjos. Embora não seja novo, vejo uma grande novidade no Luis Tatit. Artistas como ele trabalham com um nível de sofisticação que ainda não tem penetração no grande público. O público está hipnotizado diante de algo que a mídia empurra goela abaixo e deixa aquele que é pouco exigente satisfeito com a mediocridade.

Esses nomes da MPB citados nunca foram grandes vendedores dos discos, mas costumavam marcar presença no rádio e na televisão e se consagraram como figuras perenes. Hoje a música tem como ídolos celebridades onipresentes na mídia, mas que logo se mostram efêmeras. Você concorda?

Nenhum desses grandes nomes era grande vendedor de discos. Francisco Carlos vendia discos às pampas e era um cantor medíocre. A Xuxa foi recordista de vendas de discos. A Xuxa! Aqui no Brasil, o Julio Iglesias foi considerado o novo Frank Sinatra, e o Menudo foi comparado com os Beatles. Quem foi o alucinado que escreveu isso? É um monte de imbecilidade que tem projeção na mídia. A minha neta rasgou o retrato na cabeceria da cama de um cara que ela admirava. Um ano depois, já não queria mais saber dele. Não existe fidelidade diante de uma fotografia montada, que não resiste ao grande juiz que é o tempo. Mas são ciclos, sempre aconteceu isso de grandes nomes da música popular lutarem desesperadamente para se projetar e não conseguir nada, mal conseguirem gravar. Olha o Bill Haley, o cara que fez os cinemas ficarem aquela loucura com a grande novidade da música mundial, o rock and roll. E onde estava o Chuck Berry? Lá nos Estados do sul dos EUA, onde estava a verdade. O Bill Haley não tinha verdade nenhuma, era um aproveitador. Então, toda a projeção que se dá a essa música sertaneja é falsa, é montada. Daqui a pouco passa, não fica nada. Em alguns anos, ninguém vai se lembrar dessas gravações ridículas que nada têm a ver com a música popular brasileira.

A que você atribui gêneros como sertanejo e funk estarem entre os mais ouvidos no Brasil?

Isso se deve a um fenômeno social: o crescimento extraordinário da população que teve acesso à musica e antes não tinha. Sou filho de fazendeiro. Nos anos 1940 e 50, o que se tinha para ouvir era a música regional local. Não se tinha acesso a discos. Uma nova classe se viu não apenas diante da possibilidade de andar de avião, mas também de comprar um aparelho de som. São pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de apurar o gosto, se satisfazem com qualquer coisa que lhes seja ofertada, seja comida, livro, instrução ou música. Aceitam passivamente porque não têm estrutura para rejeitar aquilo que não lhes agrada. Os filhos dessa geração serão diferentes.

Zuza, Homem de Jazz ¿ Na gravação do documentário Zuza Homem do Jazz, em Nova York, com o pianista Bob Dorough Foto: Cine Group / Divulgação

Essa é uma visão que costuma ser classificada como elitista, preconceituosa até.

A palavra "elite" ganhou abrangência nos últimos anos no Brasil. Mas está errado. Elite segue sendo elite. É o mesmo caso da palavra "diva". Quando vejo uma fulana ser chamada de "a nova diva da música", pergunto a idade dela. Ah, tem 22 anos. É piada. É próprio de quem não tem noção do que significa diva. Com elite é isso. E inventaram agora um vocúbulo horrível chamado "sofrência". São modismos.

Você já disse não gostar de reality shows musicais ao estilo The Voice, a começar pelos jurados. Por quê?

São concursos de intérpretes julgados por pessoas inábeis e incompetentes. Com todo o respeito a Claudia Leitte, Lulu Santos e Carlinhos Brown, eles não merecem ser colocados naquela posição. Estão lá pela visibilidade que têm. Esses programas não revelam ninguém. A única cantora que gostei até hoje foi uma chamada Ellen Oléria (vencedora da primeira edição do The Voice Brasil, em 2012). Essa canta porque não seguiu o modelo imposto nesses programas. A primeira coisa que fazem é enquadrar o cara. Tem que fazer meio Lady Gaga, ou pouco Beyoncé. Um calouro não pode ser enquadrado, tem que mostrar a verdade dele.

E a versão com as crianças?

É pior ainda. É cruel. A criança é indefesa, mostra um talento nato que deixa os adultos estupefatos, principalmente os pais, com olho no dinheiro que podem ganhar. "Meu filho sapateia e tem quatro anos, vai se tranformar em um astro da televisão." Tem esse lado sacana. E a criança se deixa levar.

Seria viável realizar no Brasil um de festival de música aos moldes daqueles dos anos 1960 e 70?

É difícil. Os tempos mudaram. É preciso fazer uma análise, mesmo que rápida, da razão do sucesso dos festivais. Houve um acontecimento fortuito, que não se repete através dos séculos, que foi o surgimento conjunto de pelo menos 10 compositores excepcionais. Aquilo que vimos nos anos 1960 foi um acontecimento do século 20. E não há mais motivação como a que havia naquela época, que era política. Quem aplaudia e vaiava eram os universitários, a classe estudantil. Que tinha opinião. Essa mesma classe, hoje, é aliada da passividade. Tem de haver contestação. A passividade matou a contestação, que nasce de uma energia que só acontece nessa idade.

A forma de se consumir música hoje, em múltiplas plataformas e em porções individuais, contribui para torná-la mais perecível?

Perecível e limitadora. O horizonte vai se fechando cada vez mais para essas pessoas. Sinto falta da harmonia. A evolução da música através dos séculos se deu com a evolução harmônica. Observo isso quando ouço determinada música que não é apenas banal e desprezível, mas insatisfatória por não provocar nenhum tipo de emoção. É um objeto sem vida. Preciso de mais. Ouço música de diferentes maneiras, mas gosto do LP, o melhor som de todos. Se você ouve numa maquininha, no computador, tem de ter um bom fone de ouvido para se deleitar. Senão, terá uma experiência muito limitada, e essa limitação na maneira de receber a mensagem artística e sonora possibilita um entendimento muito precário.

Zuza e o mestre ¿ O recluso João Gilberto, que já foi biografado por Zuza Homem de Mello, em foto dos anos 1970 Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Seu próximo livro será dedicado ao samba-canção. Já está pronto?

Sim. Deve ser lançado em setembro. Chama-se Copacabana: Praia do Samba-canção. Começa em 1929, no tempo do teatro de revista, com o primeiro samba-canção com partitura, aquele que diz: "Ioiô, tenha pena de mim" (Yayá – Linda Flor). E termina com a transição na carreira de Tom Jobim, em 1956, quando ele fez para (a trilha da peça) Orfeu Conceição um samba-canção de sucesso, Se Todos Fossem Iguais a Você (com letra de Vinicius de Moraes). Toda a obra de Tom Jobim até então, com exceção de A Chuva Caiu, com Angela Maria, era só samba-canção. Se Todos Fossem Iguais a Você é um marco final daquele período. Aí, Tom conhece João Gilberto e o traz para uma música que era samba-choro, a qual João dá um cunho de bossa nova: Chega de Saudade. Foi a transição do Tom para a bossa nova. O samba-canção continuaria existindo, mas sem mesma intensidade. Acho esse o melhor livro que já escrevi. E um dos protagonistas é gaúcho: Lupicínio Rodrigues.

Em que lugar na música brasileira você coloca o Belchior, que morreu no domingo passado?

No grupo dos grandes compositores do Nordeste que se tornaram astros nacionais na década de 1970, que inclui também Fagner, Moraes Moreira e Alceu Valença. Como Nossos Pais tem uma das mais contundentes letras da canção nacional. Belchior foi um dos mais cultos de nossos compositores.

 
 
 
 
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