Primavera nos Dentes

Banda montada pelo ex-titã Charles Gavin recria clássicos gravados pelos Secos & Molhados nos anos 1970 

Grupo Primavera nos Dentes lançou álbum com 11 sucessos regravados

Por: Liana Pithan / Especial
05/09/2017 - 17h47min | Atualizada em 05/09/2017 - 17h51min
Banda montada pelo ex-titã Charles Gavin recria clássicos gravados pelos Secos & Molhados nos anos 1970  Kaio Caiazzo/Divulgação
Foto: Kaio Caiazzo / Divulgação  

Os ventos do Norte não movem moinhos, mas os ventos da sorte sopraram para Charles Gavin. Assim o baterista define as circunstâncias que envolveram a formação da banda Primavera nos Dentes e o resultado dessa união. Concebido com a intenção de realizar um show com 11 faixas dos dois primeiros álbuns dos Secos & Molhados, de 1973 e 1974 – entre elas Sangue Latino, O Patrão Nosso de Cada Dia, Rosa de Hiroshima e O Hierofante –, nos arranjos originais, o projeto teve outro desfecho: as canções foram recriadas de forma audaciosa, e o grupo lançou um disco antes de fazer qualquer apresentação ao vivo.

O plano nasceu da inquietação de Gavin que, depois de sair dos Titãs, em 2010, passou anos envolvido em projetos longe dos palcos e da bateria. O trabalho "avassalador" do trio formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad foi a resposta que surgiu quando Gavin se questionou sobre o que era relevante na sua história de vida.

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O sopro de felizes coincidências foi levando ao projeto, um a um, o guitarrista Paulo Rafael (parceiro de Alceu Valença), a cantora Duda Brack, o baixista Pedro Coelho e o violinista e guitarrista Felipe Ventura. Assim que começaram a ensaiar, porém, os músicos sentiram que algo não encaixava.

– Os arranjos originais não estavam soando bem nas nossas mãos – relata Gavin.

O único caminho a seguir era a recriação, concluíram. A cantora gaúcha Duda Brack relembra que a decisão foi unânime:

– Sem ter algo a acrescentar, sem ter uma nova visão sobre o material, é melhor não fazer. As letras, embora atuais, não soariam bem se interpretadas como nos anos 1970.

A intenção foi "virar do avesso" em um "processo de desconstrução" gerado coletivamente, destaca Duda. Com um ano e meio de ensaios e arranjos recriados, o plano era somente fazer shows. Mas entrou em cena o produtor Rafael Ramos, que, para a surpresa da banda, fez a proposta de gravar um disco depois de ouvir somente três músicas de uma gravação demo.

Disco gravado, o plano de reverenciar Secos & Molhados à altura apresentou mais um desafio: a capa. Segundo Gavin, a marca musical libertária e ousada é um dos três aspectos de impacto do grupo, ao qual se somavam a capa icônica de 1973, do fotógrafo Antonio Carlos Rodrigues, e as performances da banda, em especial, Ney Matogrosso. Equiparar o simbolismo da foto, que exibe as cabeças dos músicos servidas em bandejas sobre uma mesa, parecia missão impossível, até a mãe e a irmã de Duda encontrarem a fotografia surrealista do alemão Stefan Gesell. A imagem mostra uma figura andrógina com galhos brotando do rosto, no que parece ter sido feito sob encomenda para o verso "Entre os dentes segura a primavera".

– Foi sorte – repete Gavin.

PRIMAVERA NOS DENTES
Primavera nos Dentes
Deckdisck, 11 faixas (1 – Delírio; 2. Angústia; 3. Primavera nos Dentes; 4. O Patrão Nosso de Cada Dia; 5. O Vira; 6. O Doce e o Amargo; 7. O Hierofante; 8. Rosa de Hiroshima; 9. Tecer Mundo; 10. Fala; 11. Sangue Latino)
Disponível nas plataformas digitais. Formatos CD e vinil serão disponibilizados em breve.

Entrevista com a vocalista Duda Brack

Você lembra de quando ouviu Secos & Molhados pela primeira vez?
Foi com 19 ou 20 anos, quando eu comecei a ouvir com mais atenção a música brasileira dos anos 1970. Caetano Veloso, Gal Costa, Mutantes também. Eu conheci mais nesta época e me identifiquei muito. Não só com Secos & Molhados, mas o Ney. Sempre foi uma referência muito forte a forma com que ele se expressa.

Como foi receber o convite para o projeto?
Fiquei muito lisonjeada e ao mesmo tempo com muito medo. Tive faniquito de insegurança no estúdio gravando. Eu estava travada, comecei a ter uma crise de choro.... Daí o (produtor) Rafael Ramos foi fundamental. Ele entrou na sala de gravação, todo mundo ficou lá fora, e conversou: " A gente acredita que não tem outra pessoa para gravar esse disco. Mas se você não achar isso, então vai embora pra casa". A gente conversou por um tempo, daí eu gravei, e foi a faixa título. Precisei passar por esse momento de fragilidade. O desafio te leva para lugares novos.

Como você avalia o resultado?
Eu dei, naquele momento, o melhor que pude. E, modéstia à parte, eu gosto. Teve uma música que eu me emocionei a ponto de chorar cantando. E me emocionei de novo quando ouvi. Não é do tipo "nossa, como eu canto lindo". É subjetivo. Foi O Patrão Nosso de Cada Dia.

O Ney Matogrosso ouviu?
Siiiiim! Ele foi muito fofo. Foi maravilhoso. Ele amou a interpretação. Foi só elogios. E dizem que ele não é muito de elogiar.